Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Referenciais

PARA MEU PAI

Será chegada a hora de enumerar
Tudo o que recebi de ti?
Antes de tudo, a vida,
Perplexa ânsia de permanecer partindo.

Nos distantes dias de inciência
Os balizamentos encantados
Entre a verdade e o medo,
Entre a imagem e o real...
E tantas notícias sucessivas
Vindas da tua fortaleza:
A noção de honra em meio ao mundo desabado;
A pura e granítica sensação do humano,
O que vai, o que vem dentro do mistério sem palavras.

Ah! Certa dignidade em ser feito de sonhos não revelados.
A ingenuidade de um cavaleiro solitário de espada em riste
A pregar no próprio jardim.
O estoicismo de adiar o desejo ainda não encontrado.
A monástica adesão ao essencial,
Ao que é feito de matéria apropriada.
O sorriso involuntário e incrédulo
De um contador de histórias para platéias miúdas.
A perícia arqueológica de encontrar dia a dia
Razão para viver:
Essa razão não é comentada,
E essa razão não é definitiva.

Não. Tu não me garantiste estradas desimpedidas,
E seguir de perto o teu trajeto
Era concluir da distância entre o indivíduo e o mundo,
Esse mecanismo surdo,
Esse oráculo sem a grande solução.

Percebes que ao falar de ti também falo de mim?
Herdarei as tuas observações:
Serei o curador das tuas memórias;
Terei uma sala própria para elas,
E eu as modificarei, certamente,
Enquanto a tua imagem for desvanecendo,
Enquanto eu prosseguir deixando este mundo
De rios voláteis e florestas minguantes.

Agora, quando tu és um velho barco
Num estaleiro escuro que não posso alcançar,
Penso no que trouxeste para mim
De uma única viagem acidentada,
E no quanto mercadejaste em remotas regiões
Para legar-me o que não posso ponderar.

Se, de fato, morreres agora,
Saberei das lágrimas pelos encontros adiados,
Lágrimas carregadas de tudo o que não te pude dizer.


PARA MEU FILHO, VICTOR

(um poema escrito há dezenove anos)

Nesta noite, edificada em silêncios negros,
Anjo translúcido, o meu filho dorme
Apascentando um rebanho de mil sonhos gêmeos.

Nas fímbrias de seus olhos semicerrados
Vivem infusos espirituais mistérios
E insondáveis enteléquias.

Para que pensar num oblíquo futuro
Se a vida corre nele em longos sorvos
E suas mãos agitadas tateiam rotas de grãos?

Surpreendente vida com começo invisível
E presença indisfarçável,
De cujo fim não se cogita se pelo rio vamos,
As mãos nos remos, o vento em contrário
E os olhos no horizonte descontínuo.

Segue, meu filho, a tua progressão, do ínfimo
Ao infinitamente desconhecido.
Por dia, teus dedos intentam uma altura nova,
Maior é o acorde dos teus passos
E tocas distraído o extremo da luz.

Até chegar o momento em que navegarás
Nas tuas próprias perguntas,
Menos densas que a vida, e que sobre ela flutuarão.

_______________________________________


Há alguns meses publiquei aqui este poeminha:

GERÚNDIO

(Para o meu amigo Wellington Trotta.)

De bom grado serei
O grande ausente
Das festas do futuro
Se me atrasar ou me perder
Procurando o presente ideal.


Um poema minúsculo e pouco inspirado dedicado a um grande amigo de longa data.
Mas, ele já me perdoou. 
Pois bem, esse amigo criou recentemente um blog,  publicando experiências poéticas.
Seus poemas são, no mínimo, extremamente pessoais, refletindo uma dialética entre
lirismo e inquietação filosófica. Abaixo, um exemplo:


MULTIDÃO
Mesmo no meio da multidão de compactos rostos,
fisionomias misturadas num perder-se de peculiaridades
no vazio uniforme desvairado-insistente,
de muitos andares sem saber o que desejam,
ou que só desejam, e desejam muito
sem atentar que desejam por desejar incessantemente…
… mesmo nessa multidão de compactos semblantes,
mixórdia de expressões perdidas em pensamentos iguais e pueris,
tão obscuros que me vi cercado por uma escuridão de significados,
portas que fechadas para o tudo se abriam para o nada, solenemente,
no bater de pernas na velocidade de lábios desconectados,
numa realidade só julgada pelos mais loucos critérios de verdade…
… zombavam de mim, anonimamente,
pela dominação que sofro cruelmente
de tua presente-ausência que:
domina meu pensamento impiedosamente,
seja de noite ou de dia, sob sol ou chuva, mas sempre.
Mesmo que de repente, ao súbito o sono se acabe, acordo,
continuando a sonhar pelo calor de tua presença,
pela força de tua ausência, pelo odor de tua lembrança.
Tua imagem refletida no meu espírito assemelha-se ao caminho das nuvens:
de um ponto a outro temperando o rigor do sol,
embelezando o crepúsculo de mais um dia,
abrigando a lua em tuas imensas espumas brancas,
guardando no interior da chuva a terra onde me afirmo.
Tua presença castiga lentamente meus olhos úmidos e fixos,
espelhada numa folha escrita repleta de palavras banhadas pelo teu nome,
pela rima que tens em ti, pela melodia que exala de ti em si mesma.
Quando penso, e penso muito em ti, penso pensando no nada, nas noites
sem silêncio e na leitura sem concentração.
Quando penso em ti sou tomado por ondas de sentimentos,
por uma espécie de velocidade arrebatadoramente ingênua,
sem direção para qualquer lugareem que se tenha felicidade.
Tua presença, tua ausência, tua lembrança não causam dor,
apenas um estado d’alma reflexivo nas estruturas do ser,
na certeza do tempo que transforma paisagens e esculpe formas,
erige normas de se trabalhar mãos, sonhos e esperanças.
Tua presença caminha por onde caminho, por onde vivo, se escrevo, leio ou
mesmo completamente parado, presença que ensaia uma despedida pelo
pelo adágio de um sorriso
por uma pincelada de cores que borrando o papel em branco,
constrói contornando seu rosto na expectativa-perspectiva
sobre meu peito no infinito limitado de tuas mãos.
(Wellington Trotta, em 06/07/2009)

Quem tiver interesse em ler outros poemas dele, basta acessar o blog Páginas (Des)ocultas clicando no link abaixo:

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Três Novos Poemas Sem Títulos

I

Vejo a lenta retirada da vida
do cofre dos teus olhos,
e uma crispação das tuas mãos
agarrando o vácuo aberto
pela queda dos objetos inertes.

Os dias caminham para o cinza.
Quando tudo será
uma aguada de nanquim?

Um olhar desdenhoso para a manhã
já decifrada por décadas e décadas.
Mas ainda respondes aos sons
mais estrídulos:
                               as inacreditáveis
                               aves urbanas.

E teus pés?
Quando ignoravas a terra insidiosa
eles eram lépidos,
agora se arrastam pelo solo
como se escavassem nele
a derradeira carícia.


II

Ela quisera ter nascido
das espumas sacras do mar
como Afrodite Anadiômene.
Sonhara para si mesma
uma gestação de pérola
perfeita,
na perfeita escuridão
da ostra.

O parto? Um beijo apaixonado
da luz do verão.

Mas, quando chegava uma concha
aos ouvidos,
uma voz de nereida lhe dizia:
- Não é verdade, não é verdade!

E ela sofria, sem sangue frio,
um exílio
de peixe nascido com pulmões.


III

Impus às palavras
um pacto arbitrário:
que não referenciem
nada visível
porque as coisas visíveis
estão presas como vagões
deslizando em silêncio
sobre linha férrea.

Fecho os olhos
esperando que passem,
aquém das pálpebras,
palavras inesperadas
como riscos de luz,
vagalumes ríspidos
sobre o horto de sombras.

Mas nada ocorre nesta noite
voluntária.

Abro os olhos
e tudo tem uma alma nova,
mas volátil,
expirada em segundos!

Quando fechar os olhos
devo capturar alguma palavra,
como uma flor carnívora
atrai e aprisiona um inseto.

As palavras só me falarão
de fora para dentro.



















Marcantonio - Estudo em óleo.

Outras imagens minhas AQUI

domingo, 10 de outubro de 2010

Quatro Novos Poemas



VERSO ELÁSTICO

          Dedicado a Nydia Bonetti
          e a partir da leitura de seu poema Poliverso


Tentar abarcar o desmedido
como se fora ínfimo;
tocar o pequeno
como se transbordasse.

A forma inconclusa
das cordilheiras verdes,
a estranha flor azulada
sobre a pedra inóspita.

Para o besouro
(grifo guerreiro)
mil palavras.
Para a vida e a morte
dois monossílabos;
para a estrada inteira,
um discurso impossível
com vírgulas erradicadas.

Para cada urgência de água,
navegar
com diferentes calados:
a canoa instável
na arável superfície;
o rude encouraçado
assustador;
o submarino silente
sob a voragem.

Para toda a arte,
um aceno pasmo,
em pé na beira,
do todo à margem.


EMBALAGEM

A metáfora
é para ser abandonada
- papel de embrulho –
quando a vida nua
chega à porta.

Não agora.


EMBARCAÇÕES

No branco úmido
dos olhos,
o grande oceano
onde tudo voga
na véspera contínua
do último naufrágio.


TRAVELLING *

Na estrada
que seguia para o interior
os meus olhos recolhiam
o poema já feito.

* Postado também no Azul Temporário















Camille Pissarro, óleo s/ tela, 1871

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Três Poemas e uma Dúvida

ENTRE-SÍTIOS (13)

(Para Cris de Souza e seu Trem da Lira)

Prismas abstratos
desviam a luz
para o farol que vela
a enseada turbulenta
da ilha-palavra.

Novos sentidos ali não naufragam.



ENTRE-SÍTIOS (14)

(Para Gerana Damulakis
E seu leitora crítica)

Nas estantes aguardam
Os diários fechados
Que anotaram os sismos
Do tempo.

Sobre o momento
Aberto,
Os dedos entrelaçados
Nas crinas das palavras
Indômitas, sempre vivas,
Que correm à beira
Do precipício
Ou do princípio
Da história.


POEMA IMPOSSÍVEL

Qualquer
coisa
MORTA
não pode ficar
sobre a terra,

mesmo
convivendo
apenas
com as coisas
adormecidas,
de rígido e
inamovível
sono,
nunca na
iminência
de deixar
um sonho
que, embora
feito
de esperas,
não as deco
mpõe.

Sim, essas
coisas
diuturna
mente
adormecidas,
mesmo bu
lidas
ou seque
stradas,
mesmo vendidas
ou extr
aviadas,
mesmo gastas
pelo farto
uso,
essas coisas
não
se deco
mpõem
em seu sono
definitivo.

E
se a coisa
MORTA
permanecesse
entre as
restantes

[essas que
inteiras
dormem
somadas
às que
parcialmente
dormem
enquanto
se movem
com tent
áculos
e olhos,
e mesmo
des
maiadas
crescem
em rugas,
unhas e
cabelos]

se a coisa
MORTA
entre essas
permanec
esse
logo
lhes tomaria
o território,
terrificando
o ar que
as envolve.

Ademais,
a coisa
MORTA
transgride
a convivência
do visível
pelo poder
que tem
(horripilante
poder!)
de deixar de
ser imagem
paulatina...
...mente
como anti-
imagem
do próprio
repouso
erosivo.

E às coisas
que
parcia
lmente
dormem
não
convém
teste...
...munhar
o
abandono
erosivo
da
geo
metria
orgâ
nica
outrora
vivente,
a
ação
lívida
sobre
o ser
íntegro
pelo
não
-ser
dissol
ven
te.



LIMBO

A minha biografia
É esse intervalo
Crítico
Entre os meus olhos
E as minhas mãos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Enquanto Setembro Finda, Três Poemas

ATIVIDADE INTERNA

Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
umas flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.

Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.

Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
- forçosamente anfíbios.

Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.

Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.

Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.


SONETO DA VIDA MENOR

Eu preferia não saber se o saber me aflige,
Se ao rio que livre vige anteponho escora.
Que de dentro para fora se abra a mera flor
Não me basta supor: preciso penetrá-la

Além do que trescala na cona da cor
(substância do ser flor). Por que fazer ciência
Da não-aparência? Por que fazer invento
Dessa flor pensamento que não tem aroma?

A aflição que me toma por saber da vida
Que devera ser vivida e não dissecada,
Desviou-me da estrada que caminha por si.

Em paralela segui, preso a indagação,
Num rito de pretensão, de busca ilusória...
Queria a memória do que pleno senti!


CIDADE À SOMBRA

Deveria ser cidade solar...
Mas, pela manhã
já parece uma embarcação
ancorada
na tarde que finda.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Três Poemas Alheios À Primavera

SER-ESTAR

Por que cismar que as coisas estão incompletas?
Será um longo caminho até perceber:
não há caminhos que esperem por mim.

Perceba que o verbo ser é uma rocha
que conteve um fóssil lívido,
memória do que não é vida:
não fala de veias, de sangue
de carne putrefata, de células fugitivas.

Manejamos mal o verbo estar
porque ele escorre para o solo
feito arroio de urina e suor e lágrimas.

Sob os nossos pés o inevitável verbo estar se evapora.


A MEMÓRIA NAS PALAVRAS

Era poeta.
Inventara para si uma biografia:
tudo transcorrera na acrópole das palavras.

Acreditava que a palavra proferida lhe suscitava
saber hoje o que seria ontem.
Como?!
Poetas crêem que as palavras esperam pelas coisas,
e não o contrário;
e percorrem longas corredeiras de vida
seguindo por detrás dos nomes.

Poetas não sabem dizer agora em carne e osso
porque têm a memória inflamada e cheia de pus.


NO AZUL TEMPORÁRIO

Com que material
eu, inábil, faria poesia
senão com as escamas
numeradas do meu dia
fugindo peixe
nas mágoas correntes?

Seria o caso de hospedar
esse peixe num aquário,
dentro do azul temporário
da ilusão?

Seria fútil questão
ou intenção cruel
extraditar o meu dia
de seu meio líquido
para matá-lo de asfixia,
cindindo-o ao meio
com a faca estética
e deixá-lo secar ao sol
como forma sem vísceras
e hermética?

____________________________________________

Estou com um novo blog cujo título deriva do poema acima: O Azul Temporário.
Ele surge da necessidade de um espaço mais livre (e leve) para ensaios, esboços e experimentações (fundadas, infundadas ou afundadas, sabe-se lá!), que não corresponderiam ao feitio do Diário..., mesmo que, de alguma forma, o complementem. Não custa tentar. E embora eu só atenda àqueles flutuantes e incertos 10% de inspiração, espero poder atualizá-lo diariamente com um poeminha, dentro do espírito “nem um dia sem uma linha” (a rima não foi intencional). Além do mais, pode ser divertido.

Para quem quiser conhecer: 


quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Três Poemas no Final de Inverno

QUANTUM SATIS

1

Um poema monóstico
com um só degrau,
um meio-fio
em rua deserta:

sem gente que passe,
sem carros que levem
o silêncio,
sem vaga mudança.

Por si mesmo limitado
esse poema:
em neutro decúbito
sua própria esperança.

2

Um poema que oculte
o gesto de explanação,
pelo que plane acima
da própria invenção,

e fuja ao tempo instável
que faculta o poema fácil
posto ser difícil um parto
de pérola
na concha da mão.



ENTRE AS ORELHAS

A palavra insânia
é tão aveludada!
Trazida aos meus ouvidos
por passarinhos...

Mas
o que fazem passarinhos
nos meus ouvidos?
Não deveriam estar lá fora
cumprindo o rito da manhã?

Que manhã? Onde lá fora?
Se todo o mundo está agora
dentro de mim!

Aveludada palavra: insânia.



9,80665 m/s²

Só me ocorrem palavras
mais pesadas que o ar:
a gravidade
não lhes permite
                                 :
                                 :
                                 :
                                 :
                                 :
                                 : cantar
























Max Ernst, A Primeira Palavra Límpida

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Enquanto Há Fôlego

ENTRE SÍTIOS (11)

(Para Domingos Barroso)

Todos os objetos do dia
Jaziam num silêncio de terracota.

Até que o poeta os soprou
Com o sagrado dom da fábula.


ENTRE SÍTIOS (12)

(Para nina rizzi e seu ellenismos)

No céu em camadas
um fenômeno astronômico
plural
(plasmático)
:
ao dia-noite, a lua.
à noite-dia, o sal
                         ático


MARESIA

Foge da praia
O ar aziago do esquecimento mortal:
Nada se desfaz,
Tudo se reafirma sempre
Com a cor que as ondas regurgitam.

No espelho que acende e apaga
Na areia (como um letreiro luminoso)
Um ente eterno se mira.

Talvez tenha sido aqui
Onde deus separou a luz
Das trevas –
Tirou da noite o dia.

Sangue e sal e sol
Encorpam o odor
Chamado maresia.


VAGANDO

Sob a árvore do dia
Assombra-me
Não criar raízes.


POEMA-TABULETA

Concerto versos
(SIC)
Entrega rápida!


POEMA-TABULETA (2)

Espaço reservado para versos
Portadores de necessidades
Especiais


sábado, 4 de setembro de 2010

A Inciência Noturna e mais Dois Poemas

A INCIÊNCIA NOTURNA

Eu não respondo por minhas mãos
Desgovernadas sobre o teu corpo,
Se as desatrela de mim um mecanismo desconhecido.
Serão esses campos magnéticos inevitáveis
Como a tentação de me atirar ao mar das bordas de uma falésia?

Não sei se deixam marcas meus dentes brincantes
Nos lóbulos doces das tuas orelhas,
Porque eu me proponho em ti um desfalecimento de tudo o que
[sou,
Dos meus anteparos, das minhas cautelas, do meu instinto de
[conservação.
Se partindo da tua nuca eu me faço rio de esquecimento
Correndo embriagado sobre o leito relaxado das tuas vértebras,
Dando nove voltas ao redor dos teus quadris
Antes de recolheres os meus deságües nas tuas águas ocultas
[e ferventes.

Toda ciência diurna se vai de mim
Quando fazemos um mundo sem hemisférios
De meridianos apagados, de coordenadas subtraídas,
Transladando insone ao redor de um sol instintivo.

Só vivo em ti duas estações,
Quando minhas folhas caem
A tua nudez se faz outono breve,
E me vem a consciência de ter sido, há pouco, anjo animal,
Centauro-pégasus atrelado nas nuvens deslizantes da tua pele,
E uma lembrança de ter tido uma bela morte
Desintegrando-me na atmosfera dos teus olhos.

É então que a tua nudez retorna primavera.



O HERÓI E O DESERTOR

1

O herói soube, ao alcançar o ponto extremo
Demarcado para o seu glorioso sacrifício,
Que as próprias causas desapareceram na planície.
O que fazer senão deixar-se consumar a loucura
Ante o assombro de sentir-se traído pelo deserto?
Lançou-se, enfim, ao abismo
Porque a vergonha era intolerável.

[Naquele momento, no úmido dos seus olhos
Todas as estruturas do mundo tremiam
Ou ondulavam como visões imersas no ar quente:
Ah! Tanto por lançar fora! E era tão tarde...]

2

O desertor ouviu o canto
Vindo de um jardim inacabado
E ainda prenhe de ternuras,
De células vivas,
De liames verdes,
Lá onde o universo todo se esvoaça
Com asas de cera
E os insetos e as flores nada sabem sobre a longevidade
Dos dias de glória.


ERROS

Ao fim do dia
Agonizam
Os meus inventos
Lacerados.




















Antonio Canova,  Eros e Psiquê

domingo, 29 de agosto de 2010

Poemas do Final de Agosto

TUDO

Caminho na noite
entrante.
O coração embrenhado
projetando
aléias virgens
em terrenos blindados.

Reflito sobre nós,
e o mundo não é mais
do que um fóton
a fugir dos nossos
sonhos:
um fato
não documentado,
uma aporia,
uma palavra sozinha,
um mito pensado.

Ah,
tudo somos nós,
e, um segundo após,
nada mais seria
fossem nossos olhos
alvejados!



SEM DIDÁTICA

Siga em frente.

Nada tenho a ensinar,
senão que a vida é breve
e a arte... Luar.



EMERGÊNCIA CONTÍNUA

Aguardamos o ressuscitamento
por uma ação entre bocas:
palavrear que movimente os pulmões.



RIO-LAGO

Lápis fluvial:
que rios teço?
Que afluentes
sinuosos
nele emendo?

Da borda da folha
o grafite desvia
e retorna:
Faço um lago
espesso.

















Monotipia s/ Título - Marcantonio

Outras imagens minhas em Cadernos de Arte

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Quatro Poemas Esquecidos de seus Títulos



O correra que os jornais não mais impelissem
O mecanismo preguiçoso do dia.
Ele trabalhava por si mesmo como o ciclo das águas.
As TVs passaram a mostrar a paisagem contida
No espaço de um segundo.
Os vizinhos não traziam notícias de outros vizinhos.


Foi queimada em praça pública a palavra ‘providência’.
Após milhões de dias,
Deus enfim descansara
Adormecido entre outros contos fantásticos.


Pela primeira vez no universo
Todas as coisas estavam situadas em si mesmas.
Páginas não possuíam reverso.


O rumor das asas das borboletas
Não provocava nenhuma celeuma:
Seu pouso sobre o miolo das flores
Não tinha mais transcendência.


As entranhas dos animais
Não eram mais reviradas
Em busca do osso do futuro.
Cobriram com sete palmos de terra e sal
O último oráculo obsoleto.


Chegara o momento em que tudo era desejo
De imprevidência
E desdém pelo cálculo.


A poesia afinal se fazia concreta.


*


Da arcada dentária dos livros
As palavras apodrecidas
São extraídas
Com uivos latejantes.

Sob as gengivas cicatrizadas,
Rumorejam os mitos insones
E suas armas fundidas
Com o ferro do sangue.


*


Há esse rio frouxo
Nascendo do degelo dos olhos
Que jamais verão o mar.


Refletem nuvens
Que deslizam sobre o arco
Das sobrancelhas.


*


A manhã, desatracada das horas,
Cruzará o dia
Como um carro desgovernado.

[Faetonte ao volante 
Hélios como um carona de olhos apavorados]

A manhã atravessará a ponte da tarde neutra.
Percorrerá a via da noite, ultrapassando
Os seus semáforos enluarados.
Ofenderá o pudor da madrugada
Com seus faróis de sol importuno,
E se chocará com a manhã seminal de amanhã,
Rebocando-a como luz adicional.
Serão duas manhãs percorrendo outro dia;
E no dia seguinte, três; e depois quatro...

Doravante, todas as horas passarão na luz da manhã.

*

O meu surrealista predileto:






















MAX ERNST - Le Soleil

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

QUERO IR PARA LONGE

Quero ir para longe,
Para onde a vida faz a curva
Abrupta,
Onde terra e céu são descosturados.

Neste domicílio me desintegro.

Quero ser eu mesmo o pastor e o rebanho
Em pastos baldios e não loteados.
Vogar por ruas que não me gritem o nome.
Ser argonauta desertado em desmazelo
Com desdém pelo velo dourado:
Jasão jazendo na relva do jardim de Voltaire.

Dirão que enlouqueci.
Dirão que desisti.
Que o digam!
Quero fulgir na alça do primeiro sol sem vocábulos.
Ser o curador da galeria de todas as inutilidades:
Carrinhos sem rodas, livros sem final,
Moedas sem efígie, carimbos sem textura,
Canetas sem cargas, pincéis sem pelos,
Meias puídas, manuais de empobrecimento...
Um sem-fim de coisas abdicadas.

Quero ser um extravio de poeta desusando palavras.
Nem que eu tenha que hospitalizá-las todas,
Quebrar-lhes as pernas,
Entupir suas artérias,
Embaçar seus cristalinos.

E se acaso algumas resistirem,
Com elas adentrarei o burgo,
Quero fazer escambo na feira,
Trocar dúzias de palavras raras, convalescentes
Por um retalho de vida plena.

Mas, quem aceitará?
Como último recurso eu as deixarei nas margens
Da estrada
Que vai me levar para longe, distante daqui.


SEGMENTOS IMPOSSÍVEIS 
(TÍTULOS PERDIDOS)
1

A revolta das escápulas.

2

O precursor aposentado.

3

Canteiro sanguíneo.

4

Estradas residuais.

5

O mentor das orquídeas.

6

Espelho-cela

7

Amanhã, amoras.

8

Grua de estrelas.

9

Purê de luzes.

10

O meu fígado não é isca, abutre!

















MARCANTONIO - Estudo em lápis aquareláveis - Anos 90

Mais imagens minhas AQUI

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Quatro Poemas em Dias de Corpo e Alma Gripados

INÓCUO

Se o poema pudesse curar-te
O meu horizonte poético
Seria feito de prateleiras de farmácia;
Meu intento: alquimia orgânica
Nas fontes genéticas.
Mas, o verso não tem ação
Farmacocinética,
Quando muito, emplastos com sabiás
Embutidos
Retirados das ramas da palmeira poética
Falta de sentido.

Desta botica esclerosada e inócua
Eu me evaporo dos frascos sem tampa
No ar consumido.

Bode expiatório exilado
Meu poema não se cura
Da procura do passado.

Cura de aldeia aposentado,
Ocupado com uma colônia
De larvas para passarinhos,
Com o placebo das palavras
Eu me enveneno sozinho.


DA PACIÊNCIA

Tudo o que encaro
Esfria e se cristaliza
Em calcária paralisia.

Olhar de górgona,
Espero sem pressa
O porvir que se move
Rumo ao presente
Que presumo eternidade.

Até que perca a cabeça
Mirando a mim mesmo
No escudo polido
Da precariedade.


O MURO

Parece que busco
um renascimento;
mas,
o tempo contraceptivo
me acumula sobre mim:

tijolos tijolos
tijolos tijolos
tijolos tijolos
tijolos tijolos

tijolos idênticos
de um mesmo muro.


LICENÇA

Quando digo que estou perdido
Não me acreditam.

Sem gerenciar-me,
Sem administração,
Sob antiga ou nova direção,
Sem estratégia de venda, enfim.

Não é licença poética,
É licença de mim.


















PICASSO, Ciência e Caridade , óleo s/ tela - 1897

* Também postei hoje no Mínimo Ajuste

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Poemas dos Primeiros Dias de Agosto

RUÍNAS

Na teia (encruzilhadas
             de vagos vapores)
nenhuma aranha.

Jamais vi uma aranha em sua própria teia,
como se esta fosse uma relíquia,
um templo
como o Partenon;
uma ruína
como o Palácio de Cnossos.

Jamais vi um grego
em um templo grego,
como se este fosse uma abstração,
uma maquete ilusionista,
um esqueleto
atravessado pela luz,
ou um poema sólido.

Jamais vi um poeta em seu poema,
como se este fosse obra do tempo,
um fóssil,
um fragmento pitagórico
ou uma lápide.

Jamais vi um corpo sob uma lápide,
tal como uma aranha em sua teia,
como um grego em seu templo,
como um poeta em seu poema.


DOIS HAIKAIS

Muito impertinente
Adentra o vento curioso:
Folheando o livro.

2

Inseto ínfimo
Atravessa destemido
A palma da mão.


NOME

Se eu pudesse nomear esta nostalgia
Ela adormeceria na neutralidade
De flor colhida.

Mas a nostalgia é não poder convocar o nome
Antes do seu parto.


MANTRA

[Experimente este:]

O mar ameaça.
O mar recua.
O mar ameaaaça.
O mar recuuuaa.
O mar ameaaaaçaaa
(...)

















Monotipia s/ título - Marcantonio

Outras imagens minhas em Cadernos de Arte

domingo, 1 de agosto de 2010

BANG!

BANG!

Este verso inicial
esse est percipi
esse hábito sem monge
esse mapa sem linhas
esses monóculos irmanados
essa visão convertida
esse órgão orgíaco
essas esparsas partidas
esse poema maníaco
essa rima endêmica
essa folha anêmica
esse só dissolvido
esse pó apodrecendo
esse mar segmentado
essa lírica feira
essa vírgula ligeira
esse ponto artífice
essa língua de enganos
esses cúmulos na boca
esse mundo entre coxas
essa porta sob o púbis
esse focinho de Anúbis
esses páramos para o nunca
esse ânus de anis
essas floras fortificadas
essas pálpebras palmilhadas
esses seios insones
esses cabelos ciclones
essa fruta indefesa
essas maçãs zigomáticas
esses zaratustras calados
esse édipos com binóculos
e essas esfinges distantes
essa cabeça em capítulos
essas ações em fascículos
esse Hegel silabado
esse divisor de mágoas
esses rins derrisórios
esses olhos calóricos
esse sujo sujeito
esse vogar de aliterações
esses veios abstratos
essa canção sem vértebras
essa dialética sem vértices
essas ágoras fechadas
esses verbos sem hélices
essas estátuas atualizadas
essas fezes cristãs
esse orbe mictório

esse particípio permanecendo
esse selo adiado
esse zelo encadeado
esses dentes descarrilados
esse pente sem paralelas
esse visgo em pronomes
essa vigas sob os nomes
esses netunos de aquário
esses ulisses divorciados
esses prometeus suturados
e seus abutres amestrados
esses piolhos fotogênicos
esse som essa fúria de astúcias
essas furnas de vaidades
essas taças afastadas

esse epicuro epicentro

esses trincos combalidos
esses profetas protéticos
essa profissão de fel
esse pólen sem sol
esses pólos sem marcos
essa régua no olhar
essa maré de janelas
essas esporas dos mitos
essas chaves sem voltas
essas lápides de estrelas
essas telas estelas
esses penteus autopsiados
esses blakes blindados
essa maiêutica hiperestésica
essas crenças anestésicas

esses narizes de ciranos
e suas roxanes iletradas
esses livros em vocalise
essa tocaia e fuga em ré
esses hipocampos selados
essas risadas grisalhas
esse varal de vespas
esse sarau das bestas
essa lama seca entre os astros
esse hermeneuta e seus cascos
essas absides sem pescoço
esse baralho cartesiano
essa dânae dos bancos
esses corvos abúlicos
essas luas em conserva
esses campos escalpelados
esses choque térmico das esferas
esses cabides de esperas
esses faetontes urbanos
esse cemitério de esboços
essas cimitarras verbais
essas odes abortadas
esses ódios em gavetas
essas enguias turísticas
essa folia arrivista
essas parábolas arquivadas
esse remorsos dos cataclismos
esse vômito dos canais
esse esgoto de digitais
essas franquias de córtex
essas ampolas de dúvidas
esse apóstrofo entre os dias
essas reticências sublevadas
essas traças no cabeçalho
esses vórtices de tédios
esse pensamento hemiplégico
esse rocio nas mãos
esse rodízio de inércias
esse eco de auroras
esse apego das células
esse diário dos danos
esses restos de Orfeu
essa lira desdentada
esses trem de pronomes
essa ânsia de final
essa paralalia
essa estação provisória
este verso terminal.


Marcantonio - Estudo em óleo
Outras imagens minhas AQUI