POR TRÁS DAS CÂMERAS
I
Teu coração se mistura
Ao ar frio e instável.
Que fazer com o que te cerca?
Tanta coisa miudinha,
Tudo que amiúde alinhas
Em inventários sentimentais:
Coisinhas, coisinhas
Tão tuas,
Tão cotidianas e amoráveis!
Tão chegadas aos teus olhos!
Como impedir que se extraviem?
II
Janelas reticentes...
Quem é teu vizinho?
Quem - junto a ti
Ou a mil cabeças -
Não estará sozinho?
III
Na noite convulsa,
A tua mente girará
Como um farol disparado
A repartir as trevas
Em angulosas frações:
O universo sustenta
A tua insônia.
IV
E pouco importaria
Se os peixes se trocassem
Com os pássaros;
Se cavalos fossem só os marinhos;
Se as maçãs caíssem para o alto;
Se os homens fossem todos irmãos,
Ainda assim teus olhos teriam
A solidão das câmeras.
V
Há ninhos que ignoras
Sob os parapeitos lívidos.
Há rachaduras no reboco,
Vias angulosas que levam
Seres diminutos-diminutos,
Tingidos pelo pó amargo
Do edifício.
A tinta se desprende das paredes,
Raspas de palimpsestos:
Um toque menos doce
As transforma num sal amnésico.
Madeiras apodrecendo
E tacos soltos,
Pequenos quadros sem paisagens.
Canos oxidados e mármores
Com veios corroídos.
Os azulejos encardidos
Já órfãos da sua série.
O mofo, a gordura calcificada,
As teias devolutas (nem as aranhas
Te habitam).
VI
A faca sobre a mesa
Tão distinta da toalha!
A angústia entre os dedos,
Uma fissura, um rompimento,
Uma falha.
A fruta sobre a mesa
Concertante com a parede!
A angústia entre os olhos,
Uma armadilha, um cerco,
Uma rede.
VII
Estrelas há
Que tu verás queimar
Ao dia azul
Se a mente vazar
Por atalhos cortados
Nas horas.
VIII
Se de uma varanda distante,
Observada da tua janela,
Faces diluídas pelo espaço
A ti observam... O que pensar?
Que os olhos se chocam
No ponto médio
Entre o anonimato dos rostos?
Eles também são seres blindados
Como tu.
IX
Formas são
O que o que a tua mão quer
Na areia ardida,
Essa argila indócil.
X
Em dado momento
A alma nada pode
Ou determina.
Então, o corpo excede,
Se arremete para além
Como mastro de nau
Rompendo a neblina.
XI
Não há sendas
Verticais
Nessa via dupla,
Ir e vir,
Percorrendo as rachaduras
Do dia,
No tempo desses segundos
Orgânicos,
As pulsações.
E queima-se um pavio,
E soam uns bordões.
E tu guardas o teu lugar
Sem chegares a qualquer parte.
Ainda estarás aí se te mudares.
Sempre, se estiveres,
Será aí.
XII
Tudo o que há
É o que vês:
Grãos, gralhas, gemas,
Bolas de esterco.
Tudo o que ouves
É o que vês:
A boca exala fonema,
Prosódia de bêbado.
Tudo o que cheiras:
É o que vês:
O pus da perna enferma,
O capim seco.
Pouco importaria
Se os peixes se trocassem
Com os pássaros;
Se cavalos fossem só os marinhos;
Se maçãs caíssem para o alto
E os homens fossem todos irmãos...
Ainda assim terias o foco solitário
Das câmeras.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Três Poemas de Meados de Novembro
OLHOS PLÁSTICOS
Os meus olhos estão ausentes.
Há duas flores em seu lugar,
Justas na cavidade ocular.
Não são flores quaisquer;
São plásticas:
Não têm lastro de realidade,
Não secam nem se dissolvem.
Quando prevejo florações, é certo
Que elas ocorram perto de mim:
A visão se me tornou a cegueira de florir.
PASSAGEIRO
O que muda a minha palavra
Na face de um mundo surdo?
Nada sabe dos meus acenos
A alma de um mundo cego.
Meus ouvidos são obsoletos
Para esse mundo emudecido.
Ah, mas o mundo anda!
Corre o mundo veloz,
Velocíssimo pelo espaço!
E me leva no bagageiro:
Um passageiro
Mudo,
Cego,
Surdo
E paralisado.
CONTRA NARCISO
Não me fascinou
a minha imagem
simétrica
(fantasma nítido
sobre a água clara).
Vi, além, o fundo,
o fundo escurecido,
o fundo vazio da luz
dos nomes.
Enamorei-me desse fundo
onde tudo não era eu.
Os meus olhos estão ausentes.
Há duas flores em seu lugar,
Justas na cavidade ocular.
Não são flores quaisquer;
São plásticas:
Não têm lastro de realidade,
Não secam nem se dissolvem.
Quando prevejo florações, é certo
Que elas ocorram perto de mim:
A visão se me tornou a cegueira de florir.
PASSAGEIRO
O que muda a minha palavra
Na face de um mundo surdo?
Nada sabe dos meus acenos
A alma de um mundo cego.
Meus ouvidos são obsoletos
Para esse mundo emudecido.
Ah, mas o mundo anda!
Corre o mundo veloz,
Velocíssimo pelo espaço!
E me leva no bagageiro:
Um passageiro
Mudo,
Cego,
Surdo
E paralisado.
CONTRA NARCISO
Não me fascinou
a minha imagem
simétrica
(fantasma nítido
sobre a água clara).
Vi, além, o fundo,
o fundo escurecido,
o fundo vazio da luz
dos nomes.
Enamorei-me desse fundo
onde tudo não era eu.
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| Marcantonio, Melancolia 47 - Narciso - 2007 Outras imagens minhas AQUI |
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Serei Poeta?
domingo, 14 de novembro de 2010
Três Poemas
I- EMPRÉSTIMO
Para duelar contigo
trago onomatopéias lânguidas,
e a face branda
que roço nos teus seios nus.
Tenho a mente pura
amparada por ternuras,
e rancor nenhum.
Amando, confio-te o meu paradeiro,
preserva-o como a uma confissão.
Nada sei de raivas e remorsos,
passam apenas, sempre passarão.
Escuta isso agora:
são tantos os meus sonhos e apelos!
Mas tu poderias concebê-los enfim?
Toma-os, porém, tenta convertê-los
e serão teus em mim,
que eu já dou aos teus tanto desvelo
que os sonho, emprestados a ti.
II- LUGAR-COMUM
Doce, assim definiria o teu corpo. Doce.
Mas, pouco fosse, diria então embriagante.
Não sendo anda o bastante, insuficiente
Este lugar-comum, diria a ti bem rente:
- Teu corpo, o teu corpo é tão quente!
E não há nada no teu corpo que eu invente,
Mesmo se é ele a aventura que empreendo,
Essa loucura em que louco me entendo,
O desatino que incendiado me conduz
Para um ponto de ti no qual eu destilo luz.
III- PULSAÇÕES
Há silêncios breves entre nós;
Sombras rápidas interpostas
Como negativos fotográficos.
Algo entardece subitamente
Como se fôramos feitos de células-
Estrelas que mudassem de cor.
As veias dos nossos contatos
Obstruem-se, vez em quando.
Mas há sístoles e diástoles.
Então giramos num círculo virtuoso:
Ora nos digladiando nas arenas
Que montamos por um triz;
Ora dando asas ao verbo amar
Que conjugamos felizes e febris.
Para duelar contigo
trago onomatopéias lânguidas,
e a face branda
que roço nos teus seios nus.
Tenho a mente pura
amparada por ternuras,
e rancor nenhum.
Amando, confio-te o meu paradeiro,
preserva-o como a uma confissão.
Nada sei de raivas e remorsos,
passam apenas, sempre passarão.
Escuta isso agora:
são tantos os meus sonhos e apelos!
Mas tu poderias concebê-los enfim?
Toma-os, porém, tenta convertê-los
e serão teus em mim,
que eu já dou aos teus tanto desvelo
que os sonho, emprestados a ti.
II- LUGAR-COMUM
Doce, assim definiria o teu corpo. Doce.
Mas, pouco fosse, diria então embriagante.
Não sendo anda o bastante, insuficiente
Este lugar-comum, diria a ti bem rente:
- Teu corpo, o teu corpo é tão quente!
E não há nada no teu corpo que eu invente,
Mesmo se é ele a aventura que empreendo,
Essa loucura em que louco me entendo,
O desatino que incendiado me conduz
Para um ponto de ti no qual eu destilo luz.
III- PULSAÇÕES
Há silêncios breves entre nós;
Sombras rápidas interpostas
Como negativos fotográficos.
Algo entardece subitamente
Como se fôramos feitos de células-
Estrelas que mudassem de cor.
As veias dos nossos contatos
Obstruem-se, vez em quando.
Mas há sístoles e diástoles.
Então giramos num círculo virtuoso:
Ora nos digladiando nas arenas
Que montamos por um triz;
Ora dando asas ao verbo amar
Que conjugamos felizes e febris.
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Serei Poeta?
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Em Tempo Real
Esta é uma experiência urgente:
escrevo em tempo real um poema
que ainda não é poema,
que talvez nem queira ser poema,
que talvez seja apenas um raio circulando
entre as minhas orelhas
como se fosse muita energia
para o meu circuito fechado.
Em vias de um curto circuito
abro as janelas para a noite
em busca de sol, porque se trata sempre SEMPRE
de ansiar por sol, mais sol
(vê? Goethe acaba de pincelar algo na minha garganta)!
Entre a necessidade de dizer e a forma de fazê-lo
crescem as unhas, doem os ossos raízes expostas,
as células revalidam a sua ditadura tão longinqua
que que costuma ocultar-se sob noções abstratas
(basta ver que não falo de sangue porque não o reconheço
sob a rotina pálida da pele do meu corpo, eu devo ser anêmico,
eu devo ser exato, só sei do sangue o nome hemácias, o nome
hematócritos, linfócito, hemoglobina, plaquetas; sim, eu tenho
a anemia da abstração, mas não sei quantas vértebras
há na coluna vertebral, afinal os ossos ainda resistem
quando todo sangue já se evaporou; para os ossos
não crio metáforas pois já são eloquentes em si mesmo; respeito
a dor e a densidade histórica dos ossos, sobretudo do fêmur,
o maior deles, difícil de ser extraviado numa exumação)!
Mas entre a forma e o conteúdo há um lapso a ser desfeito
com murros na mesa, com o mandar à merda a estética,
a semiótica, a esclerótica, a robótica e qualquer tipo de ótica!
Já há tantos poemas no mundo, formam uma longa cauda
de réptil ondulando sobre uma cratera vulcânica aberta há séculos.
Que falta fará mais um? Que falta farão essas digitais aos dedos que
virarão
pó?
Como transformar essas linhas num poema? Para que?
A próxima linha está vazia, como esta estava há 38 caracteres atrás.
Com que encherei a próxima linha?
Acabo de preenchê-la com a pergunta: "com que encherei a próxima linha?"!
Esta aqui adornarei com os caracteres da angústia. E a próxima também:
angústia, angústia, angústiaangústiaangústiaangústiaangústiarrrrrrrrrrrrr
Já me sinto melhor.
Não seriam as linhas da escrita a melhor transcrição da idéia do tempo?
Ocorre que esqueci do ponto final ao fim de tanta angústia há quatro linhas atrás!
E ainda há um ponto e vírgula sobre a minha cabeça como uma espada de Dâmocles.
Qualquer dia conto sobre a história de Dâmocles.
Mas quem quer saber da história de Dâmocles?
Um dia cairá a vírgula presa por um fio de cabelo
e restará apenas o ponto final. Mas havendo um ponto final
ele indicará que algo foi concluído. Três pontos indicariam suspensão...
... reticências não seriam um triplo obstáculo ao infinito?
Deste ponto de interrogação, caindo o ponto resta uma foice!
(Muito apropriada foice que também já foi símbolo do trabalho no campo).
Mas não estou com isso desviando os olhos da idéia da morte,
pois comecei este nunca-poema ao ouvir a história de uma mulher
encontrada morta em sua casa. Sofrera um enfarte. Morava sozinha.
Foi quando abri as janelas e vi toda a não paisagem da noite e chamei
pelo sol, mais sol! E me lembrei do LUZ, MAIS LUZ! de Goethe:
um ícone literário se misturara à minha reflexão sobre a morte!
Mas eu pensei em dar conta de todos os pássaros sombrios
que se chocam indistintos dentro da minha cabeça,
e de todo um oceano que não vejo mas sei que está lá,
e de toda uma floresta ambulante como aquela de Macbeth,
e de todos os dias que não são promissórias resgatáveis,
e de todos os dias que são asas transparentes de inseto,
e de todas as tempestades contidas nas íris dos meus olhos
e de tudo que não pode ser nomeado como unidade.
Mas é sempre em vão, pois uma coisa é a coisa mesma,
outra coisa é o meu medo da coisa, e outra coisa é a palavra
COISA
essa coisa, aquela coisa, todas as coisas. Coisa nenhuma!
Não vou reler o que acabei de escrever. Se há erros de ortografia,
que permaneçam como rugas importunas. Se faltam letras, e daí?
Que importam falhas dentárias para um jamais-poema que não pretende sorrir?
São 2:20 de uma madrugada propícia à insônia.
E não haverá uma ilustração?
Não.
escrevo em tempo real um poema
que ainda não é poema,
que talvez nem queira ser poema,
que talvez seja apenas um raio circulando
entre as minhas orelhas
como se fosse muita energia
para o meu circuito fechado.
Em vias de um curto circuito
abro as janelas para a noite
em busca de sol, porque se trata sempre SEMPRE
de ansiar por sol, mais sol
(vê? Goethe acaba de pincelar algo na minha garganta)!
Entre a necessidade de dizer e a forma de fazê-lo
crescem as unhas, doem os ossos raízes expostas,
as células revalidam a sua ditadura tão longinqua
que que costuma ocultar-se sob noções abstratas
(basta ver que não falo de sangue porque não o reconheço
sob a rotina pálida da pele do meu corpo, eu devo ser anêmico,
eu devo ser exato, só sei do sangue o nome hemácias, o nome
hematócritos, linfócito, hemoglobina, plaquetas; sim, eu tenho
a anemia da abstração, mas não sei quantas vértebras
há na coluna vertebral, afinal os ossos ainda resistem
quando todo sangue já se evaporou; para os ossos
não crio metáforas pois já são eloquentes em si mesmo; respeito
a dor e a densidade histórica dos ossos, sobretudo do fêmur,
o maior deles, difícil de ser extraviado numa exumação)!
Mas entre a forma e o conteúdo há um lapso a ser desfeito
com murros na mesa, com o mandar à merda a estética,
a semiótica, a esclerótica, a robótica e qualquer tipo de ótica!
Já há tantos poemas no mundo, formam uma longa cauda
de réptil ondulando sobre uma cratera vulcânica aberta há séculos.
Que falta fará mais um? Que falta farão essas digitais aos dedos que
virarão
pó?
Como transformar essas linhas num poema? Para que?
A próxima linha está vazia, como esta estava há 38 caracteres atrás.
Com que encherei a próxima linha?
Acabo de preenchê-la com a pergunta: "com que encherei a próxima linha?"!
Esta aqui adornarei com os caracteres da angústia. E a próxima também:
angústia, angústia, angústiaangústiaangústiaangústiaangústiarrrrrrrrrrrrr
Já me sinto melhor.
Não seriam as linhas da escrita a melhor transcrição da idéia do tempo?
Ocorre que esqueci do ponto final ao fim de tanta angústia há quatro linhas atrás!
E ainda há um ponto e vírgula sobre a minha cabeça como uma espada de Dâmocles.
Qualquer dia conto sobre a história de Dâmocles.
Mas quem quer saber da história de Dâmocles?
Um dia cairá a vírgula presa por um fio de cabelo
e restará apenas o ponto final. Mas havendo um ponto final
ele indicará que algo foi concluído. Três pontos indicariam suspensão...
... reticências não seriam um triplo obstáculo ao infinito?
Deste ponto de interrogação, caindo o ponto resta uma foice!
(Muito apropriada foice que também já foi símbolo do trabalho no campo).
Mas não estou com isso desviando os olhos da idéia da morte,
pois comecei este nunca-poema ao ouvir a história de uma mulher
encontrada morta em sua casa. Sofrera um enfarte. Morava sozinha.
Foi quando abri as janelas e vi toda a não paisagem da noite e chamei
pelo sol, mais sol! E me lembrei do LUZ, MAIS LUZ! de Goethe:
um ícone literário se misturara à minha reflexão sobre a morte!
Mas eu pensei em dar conta de todos os pássaros sombrios
que se chocam indistintos dentro da minha cabeça,
e de todo um oceano que não vejo mas sei que está lá,
e de toda uma floresta ambulante como aquela de Macbeth,
e de todos os dias que não são promissórias resgatáveis,
e de todos os dias que são asas transparentes de inseto,
e de todas as tempestades contidas nas íris dos meus olhos
e de tudo que não pode ser nomeado como unidade.
Mas é sempre em vão, pois uma coisa é a coisa mesma,
outra coisa é o meu medo da coisa, e outra coisa é a palavra
COISA
essa coisa, aquela coisa, todas as coisas. Coisa nenhuma!
Não vou reler o que acabei de escrever. Se há erros de ortografia,
que permaneçam como rugas importunas. Se faltam letras, e daí?
Que importam falhas dentárias para um jamais-poema que não pretende sorrir?
São 2:20 de uma madrugada propícia à insônia.
E não haverá uma ilustração?
Não.
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Serei Poeta?
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Três Poemas no Início de Novembro
ADVERSA
A palavra víscera
É importantíssima,
A palavra víscera.
É palavra avessa
Ao sol mais puro.
É palavra espessa,
Conduto escuro.
É tão importuna
A palavra víscera,
Não se coaduna
Com pele e carícia.
A palavra víscera
Tem oculta face
Que se pronuncia
Invasiva, rapace.
A palavra víscera
Não é gregária:
Não tem convívio,
Coisa contrária.
Faz-se sevícia
Aos ouvidos sãos:
É cirúrgica e dura,
Requer sutura
E cauterização.
E mais se oculta
A palavra víscera,
Reativa obliteração,
Se o mau poeta
A exterioriza
Pelo eufemismo
Da conotação.
ONDAS INTERNAS
O que me aterroriza tem sempre a feição
De uma perda de humanidade,
De fim do mundo que me transcende;
Uma invasão de oceano afogando os signos.
Por isso me aplico tanto em sonhar,
Para resgatar desse líquido vácuo
Uma coleção de imagens humanas.
A água mina do fundo lacerado do barco,
E eu, com uma canequinha,
Faço ondas tremendas do lado de dentro.
NEGAR TRÊS VEZES
Poesia, tu és tão inútil!
E me envergonhas.
Quisera negar-te três vezes.
Acaba de cantar o galo pragmático;
E o meu dia, que pertence ao mundo,
Austero se inicia.
Guardo-te na mala, poesia,
Como se foras um boneco de ventríloquo.
Da Vinci, Desenho Anatômico.
* Postei hoje um poema no Mínimo Ajuste, aqui.
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Serei Poeta?
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Referenciais
PARA MEU PAI
Será chegada a hora de enumerar
Tudo o que recebi de ti?
Antes de tudo, a vida,
Perplexa ânsia de permanecer partindo.
Nos distantes dias de inciência
Os balizamentos encantados
Entre a verdade e o medo,
Entre a imagem e o real...
E tantas notícias sucessivas
Vindas da tua fortaleza:
A noção de honra em meio ao mundo desabado;
A pura e granítica sensação do humano,
O que vai, o que vem dentro do mistério sem palavras.
Ah! Certa dignidade em ser feito de sonhos não revelados.
A ingenuidade de um cavaleiro solitário de espada em riste
A pregar no próprio jardim.
O estoicismo de adiar o desejo ainda não encontrado.
A monástica adesão ao essencial,
Ao que é feito de matéria apropriada.
O sorriso involuntário e incrédulo
De um contador de histórias para platéias miúdas.
A perícia arqueológica de encontrar dia a dia
Razão para viver:
Essa razão não é comentada,
E essa razão não é definitiva.
Não. Tu não me garantiste estradas desimpedidas,
E seguir de perto o teu trajeto
Era concluir da distância entre o indivíduo e o mundo,
Esse mecanismo surdo,
Esse oráculo sem a grande solução.
Percebes que ao falar de ti também falo de mim?
Herdarei as tuas observações:
Serei o curador das tuas memórias;
Terei uma sala própria para elas,
E eu as modificarei, certamente,
Enquanto a tua imagem for desvanecendo,
Enquanto eu prosseguir deixando este mundo
De rios voláteis e florestas minguantes.
Agora, quando tu és um velho barco
Num estaleiro escuro que não posso alcançar,
Penso no que trouxeste para mim
De uma única viagem acidentada,
E no quanto mercadejaste em remotas regiões
Para legar-me o que não posso ponderar.
Se, de fato, morreres agora,
Saberei das lágrimas pelos encontros adiados,
Lágrimas carregadas de tudo o que não te pude dizer.
PARA MEU FILHO, VICTOR
(um poema escrito há dezenove anos)
Nesta noite, edificada em silêncios negros,
Anjo translúcido, o meu filho dorme
Apascentando um rebanho de mil sonhos gêmeos.
Nas fímbrias de seus olhos semicerrados
Vivem infusos espirituais mistérios
E insondáveis enteléquias.
Para que pensar num oblíquo futuro
Se a vida corre nele em longos sorvos
E suas mãos agitadas tateiam rotas de grãos?
Surpreendente vida com começo invisível
E presença indisfarçável,
De cujo fim não se cogita se pelo rio vamos,
As mãos nos remos, o vento em contrário
E os olhos no horizonte descontínuo.
Segue, meu filho, a tua progressão, do ínfimo
Ao infinitamente desconhecido.
Por dia, teus dedos intentam uma altura nova,
Maior é o acorde dos teus passos
E tocas distraído o extremo da luz.
Até chegar o momento em que navegarás
Nas tuas próprias perguntas,
Menos densas que a vida, e que sobre ela flutuarão.
_______________________________________
Há alguns meses publiquei aqui este poeminha:
GERÚNDIO
(Para o meu amigo Wellington Trotta.)
De bom grado serei
O grande ausente
Das festas do futuro
Se me atrasar ou me perder
Procurando o presente ideal.
(Para o meu amigo Wellington Trotta.)
De bom grado serei
O grande ausente
Das festas do futuro
Se me atrasar ou me perder
Procurando o presente ideal.
Um poema minúsculo e pouco inspirado dedicado a um grande amigo de longa data.
Mas, ele já me perdoou.
Mas, ele já me perdoou.
Pois bem, esse amigo criou recentemente um blog, publicando experiências poéticas.
Seus poemas são, no mínimo, extremamente pessoais, refletindo uma dialética entre
lirismo e inquietação filosófica. Abaixo, um exemplo:
MULTIDÃO
Mesmo no meio da multidão de compactos rostos,
fisionomias misturadas num perder-se de peculiaridades
no vazio uniforme desvairado-insistente,
de muitos andares sem saber o que desejam,
ou que só desejam, e desejam muito
sem atentar que desejam por desejar incessantemente…
… mesmo nessa multidão de compactos semblantes,
mixórdia de expressões perdidas em pensamentos iguais e pueris,
tão obscuros que me vi cercado por uma escuridão de significados,
portas que fechadas para o tudo se abriam para o nada, solenemente,
no bater de pernas na velocidade de lábios desconectados,
numa realidade só julgada pelos mais loucos critérios de verdade…
… zombavam de mim, anonimamente,
pela dominação que sofro cruelmente
de tua presente-ausência que:
domina meu pensamento impiedosamente,
seja de noite ou de dia, sob sol ou chuva, mas sempre.
Mesmo que de repente, ao súbito o sono se acabe, acordo,
continuando a sonhar pelo calor de tua presença,
pela força de tua ausência, pelo odor de tua lembrança.
Tua imagem refletida no meu espírito assemelha-se ao caminho das nuvens:
de um ponto a outro temperando o rigor do sol,
embelezando o crepúsculo de mais um dia,
abrigando a lua em tuas imensas espumas brancas,
guardando no interior da chuva a terra onde me afirmo.
Tua presença castiga lentamente meus olhos úmidos e fixos,
espelhada numa folha escrita repleta de palavras banhadas pelo teu nome,
pela rima que tens em ti, pela melodia que exala de ti em si mesma.
Quando penso, e penso muito em ti, penso pensando no nada, nas noites
sem silêncio e na leitura sem concentração.
Quando penso em ti sou tomado por ondas de sentimentos,
por uma espécie de velocidade arrebatadoramente ingênua,
sem direção para qualquer lugareem que se tenha felicidade.
Tua presença, tua ausência, tua lembrança não causam dor,
apenas um estado d’alma reflexivo nas estruturas do ser,
na certeza do tempo que transforma paisagens e esculpe formas,
erige normas de se trabalhar mãos, sonhos e esperanças.
Tua presença caminha por onde caminho, por onde vivo, se escrevo, leio ou
mesmo completamente parado, presença que ensaia uma despedida pelo
pelo adágio de um sorriso
por uma pincelada de cores que borrando o papel em branco,
constrói contornando seu rosto na expectativa-perspectiva
sobre meu peito no infinito limitado de tuas mãos.
(Wellington Trotta, em 06/07/2009)
Quem tiver interesse em ler outros poemas dele, basta acessar o blog Páginas (Des)ocultas clicando no link abaixo:
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Serei Poeta?
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
Três Novos Poemas Sem Títulos
I
Vejo a lenta retirada da vida
do cofre dos teus olhos,
e uma crispação das tuas mãos
agarrando o vácuo aberto
pela queda dos objetos inertes.
Os dias caminham para o cinza.
Quando tudo será
uma aguada de nanquim?
Um olhar desdenhoso para a manhã
já decifrada por décadas e décadas.
Mas ainda respondes aos sons
mais estrídulos:
as inacreditáveis
aves urbanas.
E teus pés?
Quando ignoravas a terra insidiosa
eles eram lépidos,
agora se arrastam pelo solo
como se escavassem nele
a derradeira carícia.
II
Ela quisera ter nascido
das espumas sacras do mar
como Afrodite Anadiômene.
Sonhara para si mesma
uma gestação de pérola
perfeita,
na perfeita escuridão
da ostra.
O parto? Um beijo apaixonado
da luz do verão.
Mas, quando chegava uma concha
aos ouvidos,
uma voz de nereida lhe dizia:
- Não é verdade, não é verdade!
E ela sofria, sem sangue frio,
um exílio
de peixe nascido com pulmões.
III
Impus às palavras
um pacto arbitrário:
que não referenciem
nada visível
porque as coisas visíveis
estão presas como vagões
deslizando em silêncio
sobre linha férrea.
Fecho os olhos
esperando que passem,
aquém das pálpebras,
palavras inesperadas
como riscos de luz,
vagalumes ríspidos
sobre o horto de sombras.
Mas nada ocorre nesta noite
voluntária.
Abro os olhos
e tudo tem uma alma nova,
mas volátil,
expirada em segundos!
Quando fechar os olhos
devo capturar alguma palavra,
como uma flor carnívora
atrai e aprisiona um inseto.
As palavras só me falarão
de fora para dentro.
Marcantonio - Estudo em óleo.
Outras imagens minhas AQUI
Vejo a lenta retirada da vida
do cofre dos teus olhos,
e uma crispação das tuas mãos
agarrando o vácuo aberto
pela queda dos objetos inertes.
Os dias caminham para o cinza.
Quando tudo será
uma aguada de nanquim?
Um olhar desdenhoso para a manhã
já decifrada por décadas e décadas.
Mas ainda respondes aos sons
mais estrídulos:
as inacreditáveis
aves urbanas.
E teus pés?
Quando ignoravas a terra insidiosa
eles eram lépidos,
agora se arrastam pelo solo
como se escavassem nele
a derradeira carícia.
II
Ela quisera ter nascido
das espumas sacras do mar
como Afrodite Anadiômene.
Sonhara para si mesma
uma gestação de pérola
perfeita,
na perfeita escuridão
da ostra.
O parto? Um beijo apaixonado
da luz do verão.
Mas, quando chegava uma concha
aos ouvidos,
uma voz de nereida lhe dizia:
- Não é verdade, não é verdade!
E ela sofria, sem sangue frio,
um exílio
de peixe nascido com pulmões.
III
Impus às palavras
um pacto arbitrário:
que não referenciem
nada visível
porque as coisas visíveis
estão presas como vagões
deslizando em silêncio
sobre linha férrea.
Fecho os olhos
esperando que passem,
aquém das pálpebras,
palavras inesperadas
como riscos de luz,
vagalumes ríspidos
sobre o horto de sombras.
Mas nada ocorre nesta noite
voluntária.
Abro os olhos
e tudo tem uma alma nova,
mas volátil,
expirada em segundos!
Quando fechar os olhos
devo capturar alguma palavra,
como uma flor carnívora
atrai e aprisiona um inseto.
As palavras só me falarão
de fora para dentro.
Marcantonio - Estudo em óleo.
Outras imagens minhas AQUI
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domingo, 10 de outubro de 2010
Quatro Novos Poemas
VERSO ELÁSTICO
Dedicado a Nydia Bonetti
e a partir da leitura de seu poema Poliverso
Tentar abarcar o desmedido
como se fora ínfimo;
tocar o pequeno
como se transbordasse.
A forma inconclusa
das cordilheiras verdes,
a estranha flor azulada
sobre a pedra inóspita.
Para o besouro
(grifo guerreiro)
mil palavras.
Para a vida e a morte
dois monossílabos;
para a estrada inteira,
um discurso impossível
com vírgulas erradicadas.
Para cada urgência de água,
navegar
com diferentes calados:
a canoa instável
na arável superfície;
o rude encouraçado
assustador;
o submarino silente
sob a voragem.
Para toda a arte,
um aceno pasmo,
em pé na beira,
do todo à margem.
EMBALAGEM
A metáfora
é para ser abandonada
- papel de embrulho –
quando a vida nua
chega à porta.
Não agora.
EMBARCAÇÕES
No branco úmido
dos olhos,
o grande oceano
onde tudo voga
na véspera contínua
do último naufrágio.
TRAVELLING *
Na estrada
que seguia para o interior
os meus olhos recolhiam
o poema já feito.
* Postado também no Azul Temporário
Camille Pissarro, óleo s/ tela, 1871
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terça-feira, 5 de outubro de 2010
Três Poemas e uma Dúvida
ENTRE-SÍTIOS (13)
(Para Cris de Souza e seu Trem da Lira)
Prismas abstratos
desviam a luz
para o farol que vela
a enseada turbulenta
da ilha-palavra.
Novos sentidos ali não naufragam.
ENTRE-SÍTIOS (14)
(Para Gerana Damulakis
E seu leitora crítica)
Nas estantes aguardam
Os diários fechados
Que anotaram os sismos
Do tempo.
Sobre o momento
Aberto,
Os dedos entrelaçados
Nas crinas das palavras
Indômitas, sempre vivas,
Que correm à beira
Do precipício
Ou do princípio
Da história.
POEMA IMPOSSÍVEL
Qualquer
coisa
MORTA
não pode ficar
sobre a terra,
mesmo
convivendo
apenas
com as coisas
adormecidas,
de rígido e
inamovível
sono,
nunca na
iminência
de deixar
um sonho
que, embora
feito
de esperas,
não as deco
mpõe.
Sim, essas
coisas
diuturna
mente
adormecidas,
mesmo bu
lidas
ou seque
stradas,
mesmo vendidas
ou extr
aviadas,
mesmo gastas
pelo farto
uso,
essas coisas
não
se deco
mpõem
em seu sono
definitivo.
E
se a coisa
MORTA
permanecesse
entre as
restantes
[essas que
inteiras
dormem
somadas
às que
parcialmente
dormem
enquanto
se movem
com tent
áculos
e olhos,
e mesmo
des
maiadas
crescem
em rugas,
unhas e
cabelos]
se a coisa
MORTA
entre essas
permanec
esse
logo
lhes tomaria
o território,
terrificando
o ar que
as envolve.
Ademais,
a coisa
MORTA
transgride
a convivência
do visível
pelo poder
que tem
(horripilante
poder!)
de deixar de
ser imagem
paulatina...
...mente
como anti-
imagem
do próprio
repouso
erosivo.
E às coisas
que
parcia
lmente
dormem
não
convém
teste...
...munhar
o
abandono
erosivo
da
geo
metria
orgâ
nica
outrora
vivente,
a
ação
lívida
sobre
o ser
íntegro
pelo
não
-ser
dissol
ven
te.
LIMBO
A minha biografia
É esse intervalo
Crítico
Entre os meus olhos
E as minhas mãos.
(Para Cris de Souza e seu Trem da Lira)
Prismas abstratos
desviam a luz
para o farol que vela
a enseada turbulenta
da ilha-palavra.
Novos sentidos ali não naufragam.
ENTRE-SÍTIOS (14)
(Para Gerana Damulakis
E seu leitora crítica)
Nas estantes aguardam
Os diários fechados
Que anotaram os sismos
Do tempo.
Sobre o momento
Aberto,
Os dedos entrelaçados
Nas crinas das palavras
Indômitas, sempre vivas,
Que correm à beira
Do precipício
Ou do princípio
Da história.
POEMA IMPOSSÍVEL
Qualquer
coisa
MORTA
não pode ficar
sobre a terra,
mesmo
convivendo
apenas
com as coisas
adormecidas,
de rígido e
inamovível
sono,
nunca na
iminência
de deixar
um sonho
que, embora
feito
de esperas,
não as deco
mpõe.
Sim, essas
coisas
diuturna
mente
adormecidas,
mesmo bu
lidas
ou seque
stradas,
mesmo vendidas
ou extr
aviadas,
mesmo gastas
pelo farto
uso,
essas coisas
não
se deco
mpõem
em seu sono
definitivo.
E
se a coisa
MORTA
permanecesse
entre as
restantes
[essas que
inteiras
dormem
somadas
às que
parcialmente
dormem
enquanto
se movem
com tent
áculos
e olhos,
e mesmo
des
maiadas
crescem
em rugas,
unhas e
cabelos]
se a coisa
MORTA
entre essas
permanec
esse
logo
lhes tomaria
o território,
terrificando
o ar que
as envolve.
Ademais,
a coisa
MORTA
transgride
a convivência
do visível
pelo poder
que tem
(horripilante
poder!)
de deixar de
ser imagem
paulatina...
...mente
como anti-
imagem
do próprio
repouso
erosivo.
E às coisas
que
parcia
lmente
dormem
não
convém
teste...
...munhar
o
abandono
erosivo
da
geo
metria
orgâ
nica
outrora
vivente,
a
ação
lívida
sobre
o ser
íntegro
pelo
não
-ser
dissol
ven
te.
LIMBO
A minha biografia
É esse intervalo
Crítico
Entre os meus olhos
E as minhas mãos.
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quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Enquanto Setembro Finda, Três Poemas
ATIVIDADE INTERNA
Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
umas flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.
Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.
Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
- forçosamente anfíbios.
Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.
Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.
Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.
SONETO DA VIDA MENOR
Eu preferia não saber se o saber me aflige,
Se ao rio que livre vige anteponho escora.
Que de dentro para fora se abra a mera flor
Não me basta supor: preciso penetrá-la
Além do que trescala na cona da cor
(substância do ser flor). Por que fazer ciência
Da não-aparência? Por que fazer invento
Dessa flor pensamento que não tem aroma?
A aflição que me toma por saber da vida
Que devera ser vivida e não dissecada,
Desviou-me da estrada que caminha por si.
Em paralela segui, preso a indagação,
Num rito de pretensão, de busca ilusória...
Queria a memória do que pleno senti!
CIDADE À SOMBRA
Deveria ser cidade solar...
Mas, pela manhã
já parece uma embarcação
ancorada
na tarde que finda.
Há tanto dentro de ti
que não queres conhecer:
umas flores semi-enterradas
na tua aridez íntima
que não se dão
à carícia afásica dos teus dedos.
Há também um sol tresnoitando
que bronzeia a película das tuas veias,
e do qual não podes suspeitar
na tez pálida das tuas palavras.
Há um regato de vontades
onde peixes desmedidos nadam
- forçosamente anfíbios.
Há uma garça escura
em pé sobre teus intestinos
que bica o fundo dos teus olhos
tão logo comeces a ignorar a luz.
Há muito trabalho no teu interior,
polias, rolamentos e roldanas incansáveis.
Há sim uma oficina que quer abrir fendas
no sono eterno,
que faz hora-extra enquanto tu engendras
dicionários
sem saber que o que te obceca
é a palavra morte,
esse ramo da noite
que carregas durante o dia.
SONETO DA VIDA MENOR
Eu preferia não saber se o saber me aflige,
Se ao rio que livre vige anteponho escora.
Que de dentro para fora se abra a mera flor
Não me basta supor: preciso penetrá-la
Além do que trescala na cona da cor
(substância do ser flor). Por que fazer ciência
Da não-aparência? Por que fazer invento
Dessa flor pensamento que não tem aroma?
A aflição que me toma por saber da vida
Que devera ser vivida e não dissecada,
Desviou-me da estrada que caminha por si.
Em paralela segui, preso a indagação,
Num rito de pretensão, de busca ilusória...
Queria a memória do que pleno senti!
CIDADE À SOMBRA
Deveria ser cidade solar...
Mas, pela manhã
já parece uma embarcação
ancorada
na tarde que finda.
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Três Poemas Alheios À Primavera
SER-ESTAR
Por que cismar que as coisas estão incompletas?
Será um longo caminho até perceber:
não há caminhos que esperem por mim.
Perceba que o verbo ser é uma rocha
que conteve um fóssil lívido,
memória do que não é vida:
não fala de veias, de sangue
de carne putrefata, de células fugitivas.
Manejamos mal o verbo estar
porque ele escorre para o solo
feito arroio de urina e suor e lágrimas.
Sob os nossos pés o inevitável verbo estar se evapora.
A MEMÓRIA NAS PALAVRAS
Era poeta.
Inventara para si uma biografia:
tudo transcorrera na acrópole das palavras.
Acreditava que a palavra proferida lhe suscitava
saber hoje o que seria ontem.
Como?!
Poetas crêem que as palavras esperam pelas coisas,
e não o contrário;
e percorrem longas corredeiras de vida
seguindo por detrás dos nomes.
Poetas não sabem dizer agora em carne e osso
porque têm a memória inflamada e cheia de pus.
NO AZUL TEMPORÁRIO
Com que material
eu, inábil, faria poesia
senão com as escamas
numeradas do meu dia
fugindo peixe
nas mágoas correntes?
Seria o caso de hospedar
esse peixe num aquário,
dentro do azul temporário
da ilusão?
Seria fútil questão
ou intenção cruel
extraditar o meu dia
de seu meio líquido
para matá-lo de asfixia,
cindindo-o ao meio
com a faca estética
e deixá-lo secar ao sol
como forma sem vísceras
e hermética?
____________________________________________
Por que cismar que as coisas estão incompletas?
Será um longo caminho até perceber:
não há caminhos que esperem por mim.
Perceba que o verbo ser é uma rocha
que conteve um fóssil lívido,
memória do que não é vida:
não fala de veias, de sangue
de carne putrefata, de células fugitivas.
Manejamos mal o verbo estar
porque ele escorre para o solo
feito arroio de urina e suor e lágrimas.
Sob os nossos pés o inevitável verbo estar se evapora.
A MEMÓRIA NAS PALAVRAS
Era poeta.
Inventara para si uma biografia:
tudo transcorrera na acrópole das palavras.
Acreditava que a palavra proferida lhe suscitava
saber hoje o que seria ontem.
Como?!
Poetas crêem que as palavras esperam pelas coisas,
e não o contrário;
e percorrem longas corredeiras de vida
seguindo por detrás dos nomes.
Poetas não sabem dizer agora em carne e osso
porque têm a memória inflamada e cheia de pus.
NO AZUL TEMPORÁRIO
Com que material
eu, inábil, faria poesia
senão com as escamas
numeradas do meu dia
fugindo peixe
nas mágoas correntes?
Seria o caso de hospedar
esse peixe num aquário,
dentro do azul temporário
da ilusão?
Seria fútil questão
ou intenção cruel
extraditar o meu dia
de seu meio líquido
para matá-lo de asfixia,
cindindo-o ao meio
com a faca estética
e deixá-lo secar ao sol
como forma sem vísceras
e hermética?
____________________________________________
Estou com um novo blog cujo título deriva do poema acima: O Azul Temporário.
Ele surge da necessidade de um espaço mais livre (e leve) para ensaios, esboços e experimentações (fundadas, infundadas ou afundadas, sabe-se lá!), que não corresponderiam ao feitio do Diário..., mesmo que, de alguma forma, o complementem. Não custa tentar. E embora eu só atenda àqueles flutuantes e incertos 10% de inspiração, espero poder atualizá-lo diariamente com um poeminha, dentro do espírito “nem um dia sem uma linha” (a rima não foi intencional). Além do mais, pode ser divertido.
Para quem quiser conhecer:
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Três Poemas no Final de Inverno
QUANTUM SATIS
1
Um poema monóstico
com um só degrau,
um meio-fio
em rua deserta:
sem gente que passe,
sem carros que levem
o silêncio,
sem vaga mudança.
Por si mesmo limitado
esse poema:
em neutro decúbito
sua própria esperança.
2
Um poema que oculte
o gesto de explanação,
pelo que plane acima
da própria invenção,
e fuja ao tempo instável
que faculta o poema fácil
posto ser difícil um parto
de pérola
na concha da mão.
ENTRE AS ORELHAS
A palavra insânia
é tão aveludada!
Trazida aos meus ouvidos
por passarinhos...
Mas
o que fazem passarinhos
nos meus ouvidos?
Não deveriam estar lá fora
cumprindo o rito da manhã?
Que manhã? Onde lá fora?
Se todo o mundo está agora
dentro de mim!
Aveludada palavra: insânia.
9,80665 m/s²
Só me ocorrem palavras
mais pesadas que o ar:
a gravidade
não lhes permite
:
:
:
:
:
: cantar
Max Ernst, A Primeira Palavra Límpida
1
Um poema monóstico
com um só degrau,
um meio-fio
em rua deserta:
sem gente que passe,
sem carros que levem
o silêncio,
sem vaga mudança.
Por si mesmo limitado
esse poema:
em neutro decúbito
sua própria esperança.
2
Um poema que oculte
o gesto de explanação,
pelo que plane acima
da própria invenção,
e fuja ao tempo instável
que faculta o poema fácil
posto ser difícil um parto
de pérola
na concha da mão.
ENTRE AS ORELHAS
A palavra insânia
é tão aveludada!
Trazida aos meus ouvidos
por passarinhos...
Mas
o que fazem passarinhos
nos meus ouvidos?
Não deveriam estar lá fora
cumprindo o rito da manhã?
Que manhã? Onde lá fora?
Se todo o mundo está agora
dentro de mim!
Aveludada palavra: insânia.
9,80665 m/s²
Só me ocorrem palavras
mais pesadas que o ar:
a gravidade
não lhes permite
:
:
:
:
:
: cantar
Max Ernst, A Primeira Palavra Límpida
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Enquanto Há Fôlego
ENTRE SÍTIOS (11)
(Para Domingos Barroso)
Todos os objetos do dia
Jaziam num silêncio de terracota.
Até que o poeta os soprou
Com o sagrado dom da fábula.
ENTRE SÍTIOS (12)
(Para nina rizzi e seu ellenismos)
No céu em camadas
um fenômeno astronômico
plural
(plasmático)
:
ao dia-noite, a lua.
à noite-dia, o sal
ático
MARESIA
Foge da praia
O ar aziago do esquecimento mortal:
Nada se desfaz,
Tudo se reafirma sempre
Com a cor que as ondas regurgitam.
No espelho que acende e apaga
Na areia (como um letreiro luminoso)
Um ente eterno se mira.
Talvez tenha sido aqui
Onde deus separou a luz
Das trevas –
Tirou da noite o dia.
Sangue e sal e sol
Encorpam o odor
Chamado maresia.
VAGANDO
Sob a árvore do dia
Assombra-me
Não criar raízes.
(Para Domingos Barroso)
Todos os objetos do dia
Jaziam num silêncio de terracota.
Até que o poeta os soprou
Com o sagrado dom da fábula.
ENTRE SÍTIOS (12)
(Para nina rizzi e seu ellenismos)
No céu em camadas
um fenômeno astronômico
plural
(plasmático)
:
ao dia-noite, a lua.
à noite-dia, o sal
ático
MARESIA
Foge da praia
O ar aziago do esquecimento mortal:
Nada se desfaz,
Tudo se reafirma sempre
Com a cor que as ondas regurgitam.
No espelho que acende e apaga
Na areia (como um letreiro luminoso)
Um ente eterno se mira.
Talvez tenha sido aqui
Onde deus separou a luz
Das trevas –
Tirou da noite o dia.
Sangue e sal e sol
Encorpam o odor
Chamado maresia.
VAGANDO
Sob a árvore do dia
Assombra-me
Não criar raízes.
POEMA-TABULETA
Concerto versos
(SIC)
Entrega rápida!
POEMA-TABULETA (2)
Espaço reservado para versos
Portadores de necessidades
Especiais
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sábado, 4 de setembro de 2010
A Inciência Noturna e mais Dois Poemas
A INCIÊNCIA NOTURNA
Eu não respondo por minhas mãos
Desgovernadas sobre o teu corpo,
Se as desatrela de mim um mecanismo desconhecido.
Serão esses campos magnéticos inevitáveis
Como a tentação de me atirar ao mar das bordas de uma falésia?
Não sei se deixam marcas meus dentes brincantes
Nos lóbulos doces das tuas orelhas,
Porque eu me proponho em ti um desfalecimento de tudo o que
[sou,
Dos meus anteparos, das minhas cautelas, do meu instinto de
[conservação.
Se partindo da tua nuca eu me faço rio de esquecimento
Correndo embriagado sobre o leito relaxado das tuas vértebras,
Dando nove voltas ao redor dos teus quadris
Antes de recolheres os meus deságües nas tuas águas ocultas
[e ferventes.
Toda ciência diurna se vai de mim
Quando fazemos um mundo sem hemisférios
De meridianos apagados, de coordenadas subtraídas,
Transladando insone ao redor de um sol instintivo.
Só vivo em ti duas estações,
Quando minhas folhas caem
A tua nudez se faz outono breve,
E me vem a consciência de ter sido, há pouco, anjo animal,
Centauro-pégasus atrelado nas nuvens deslizantes da tua pele,
E uma lembrança de ter tido uma bela morte
Desintegrando-me na atmosfera dos teus olhos.
É então que a tua nudez retorna primavera.
O HERÓI E O DESERTOR
1
O herói soube, ao alcançar o ponto extremo
Demarcado para o seu glorioso sacrifício,
Que as próprias causas desapareceram na planície.
O que fazer senão deixar-se consumar a loucura
Ante o assombro de sentir-se traído pelo deserto?
Lançou-se, enfim, ao abismo
Porque a vergonha era intolerável.
[Naquele momento, no úmido dos seus olhos
Todas as estruturas do mundo tremiam
Ou ondulavam como visões imersas no ar quente:
Ah! Tanto por lançar fora! E era tão tarde...]
2
O desertor ouviu o canto
Vindo de um jardim inacabado
E ainda prenhe de ternuras,
De células vivas,
De liames verdes,
Lá onde o universo todo se esvoaça
Com asas de cera
E os insetos e as flores nada sabem sobre a longevidade
Dos dias de glória.
ERROS
Ao fim do dia
Agonizam
Os meus inventos
Lacerados.
Antonio Canova, Eros e Psiquê
Eu não respondo por minhas mãos
Desgovernadas sobre o teu corpo,
Se as desatrela de mim um mecanismo desconhecido.
Serão esses campos magnéticos inevitáveis
Como a tentação de me atirar ao mar das bordas de uma falésia?
Não sei se deixam marcas meus dentes brincantes
Nos lóbulos doces das tuas orelhas,
Porque eu me proponho em ti um desfalecimento de tudo o que
[sou,
Dos meus anteparos, das minhas cautelas, do meu instinto de
[conservação.
Se partindo da tua nuca eu me faço rio de esquecimento
Correndo embriagado sobre o leito relaxado das tuas vértebras,
Dando nove voltas ao redor dos teus quadris
Antes de recolheres os meus deságües nas tuas águas ocultas
[e ferventes.
Toda ciência diurna se vai de mim
Quando fazemos um mundo sem hemisférios
De meridianos apagados, de coordenadas subtraídas,
Transladando insone ao redor de um sol instintivo.
Só vivo em ti duas estações,
Quando minhas folhas caem
A tua nudez se faz outono breve,
E me vem a consciência de ter sido, há pouco, anjo animal,
Centauro-pégasus atrelado nas nuvens deslizantes da tua pele,
E uma lembrança de ter tido uma bela morte
Desintegrando-me na atmosfera dos teus olhos.
É então que a tua nudez retorna primavera.
O HERÓI E O DESERTOR
1
O herói soube, ao alcançar o ponto extremo
Demarcado para o seu glorioso sacrifício,
Que as próprias causas desapareceram na planície.
O que fazer senão deixar-se consumar a loucura
Ante o assombro de sentir-se traído pelo deserto?
Lançou-se, enfim, ao abismo
Porque a vergonha era intolerável.
[Naquele momento, no úmido dos seus olhos
Todas as estruturas do mundo tremiam
Ou ondulavam como visões imersas no ar quente:
Ah! Tanto por lançar fora! E era tão tarde...]
2
O desertor ouviu o canto
Vindo de um jardim inacabado
E ainda prenhe de ternuras,
De células vivas,
De liames verdes,
Lá onde o universo todo se esvoaça
Com asas de cera
E os insetos e as flores nada sabem sobre a longevidade
Dos dias de glória.
ERROS
Ao fim do dia
Agonizam
Os meus inventos
Lacerados.
Antonio Canova, Eros e Psiquê
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domingo, 29 de agosto de 2010
Poemas do Final de Agosto
TUDO
Caminho na noite
entrante.
O coração embrenhado
projetando
aléias virgens
em terrenos blindados.
Reflito sobre nós,
e o mundo não é mais
do que um fóton
a fugir dos nossos
sonhos:
um fato
não documentado,
uma aporia,
uma palavra sozinha,
um mito pensado.
Ah,
tudo somos nós,
e, um segundo após,
nada mais seria
fossem nossos olhos
alvejados!
SEM DIDÁTICA
Siga em frente.
Nada tenho a ensinar,
senão que a vida é breve
e a arte... Luar.
EMERGÊNCIA CONTÍNUA
Aguardamos o ressuscitamento
por uma ação entre bocas:
palavrear que movimente os pulmões.
RIO-LAGO
Lápis fluvial:
que rios teço?
Que afluentes
sinuosos
nele emendo?
Da borda da folha
o grafite desvia
e retorna:
Faço um lago
espesso.
Monotipia s/ Título - Marcantonio
Outras imagens minhas em Cadernos de Arte
Caminho na noite
entrante.
O coração embrenhado
projetando
aléias virgens
em terrenos blindados.
Reflito sobre nós,
e o mundo não é mais
do que um fóton
a fugir dos nossos
sonhos:
um fato
não documentado,
uma aporia,
uma palavra sozinha,
um mito pensado.
Ah,
tudo somos nós,
e, um segundo após,
nada mais seria
fossem nossos olhos
alvejados!
SEM DIDÁTICA
Siga em frente.
Nada tenho a ensinar,
senão que a vida é breve
e a arte... Luar.
EMERGÊNCIA CONTÍNUA
Aguardamos o ressuscitamento
por uma ação entre bocas:
palavrear que movimente os pulmões.
RIO-LAGO
Lápis fluvial:
que rios teço?
Que afluentes
sinuosos
nele emendo?
Da borda da folha
o grafite desvia
e retorna:
Faço um lago
espesso.
Monotipia s/ Título - Marcantonio
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