Parece haver algo
De um estranho sorriso
No bigode de Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece um arco ogival
Sobre o abismo.
O bigode de Nietzsche
Parece um desejo
Involuntário de calar.
O bigode de Nietzsche
Parece
Sombrear um segredo
De antes do meio-dia.
O bigode de Nietzsche
Parece uma esponja
Umedecida em vinagre.
O bigode de Nietzsche
Parece martelar
Seu queixo.
O bigode de Nietzsche
Parece um viajante
Solitário
Que chega à cidade
Antes que Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece transcendê-lo,
Metafísico.
O bigode de Nietzsche
Parece augurar
Sua loucura
Às caricaturas.
O bigode de Nietzsche
Parece ao senso comum
A orelha-de-van-gogh
De Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece dizer a Nietzsche:
In hoc signo vinces.
O bigode de Nietzsche
Parece uma túnica
De corifeu.
Ou uma máscara
Humana
De Dioniso.
FALTAM OS NEXOS
Na atmosfera do museu,
Meus artefatos convivem,
Como inimigos civilizados.
Sou um arqueólogo triste
Das primeiras camadas
De um dia que entardece,
Lá, naquele terreno extinto
Das horas enterradas vivas;
Lá, onde todos os utensílios
Tinham nexos espontâneos,
Os mesmos nós que emendam
As águas soltas num rio,
Ou o potente adesivo
Que adere a flor ao ar.
O SINAL
O sol às vezes me acorda
Tocando-me a face
Com um beijo de Judas.
| Friedrich Nietzsche, jovem. |









