Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Bigode de Nietzsche e Mais Dois Poemas

O BIGODE DE NIETZSCHE

Parece haver algo
De um estranho sorriso
No bigode de Nietzsche.

O bigode de Nietzsche
Parece um arco ogival
Sobre o abismo.

O bigode de Nietzsche
Parece um desejo
Involuntário de calar.

O bigode de Nietzsche
Parece
Sombrear um segredo
De antes do meio-dia.

O bigode de Nietzsche
Parece uma esponja
Umedecida em vinagre.

O bigode de Nietzsche
Parece martelar
Seu queixo.

O bigode de Nietzsche
Parece um viajante
Solitário
Que chega à cidade
Antes que Nietzsche.

O bigode de Nietzsche
Parece transcendê-lo,
Metafísico.

O bigode de Nietzsche
Parece augurar
Sua loucura
Às caricaturas.

O bigode de Nietzsche
Parece ao senso comum
A orelha-de-van-gogh
De Nietzsche.

O bigode de Nietzsche
Parece dizer a Nietzsche:
In hoc signo vinces.

O bigode de Nietzsche
Parece uma túnica
De corifeu.
Ou uma máscara
Humana
De Dioniso.


FALTAM OS NEXOS

Na atmosfera do museu,
Meus artefatos convivem,
Como inimigos civilizados.

Sou um arqueólogo triste
Das primeiras camadas
De um dia que entardece,
Lá, naquele terreno extinto
Das horas enterradas vivas;
Lá, onde todos os utensílios
Tinham  nexos espontâneos,
Os mesmos nós que emendam
As águas soltas num rio,
Ou o potente adesivo
Que adere a flor ao ar.


O SINAL

O sol às vezes me acorda
Tocando-me a face
Com um beijo de Judas.

Friedrich Nietzsche, jovem.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Janeiro pelo Meio, Três Novos Poemas

TOM SOBRE TOM

O eu é o pronome mais opaco.
Tinta saturada de pigmento,
Pode cobrir uniformemente
A camada chamada mundo.

Chega um ponto, entretanto,
Em que ele não poderá mais
Ser aplicado de forma distinta,
Embora possa produzir texturas
Por acumulação de mesmice:
Serão grumos, calos, sulcos,
Sombras na superfície pleonástica
De uma mesmo cor. Matiz infeliz?


ASSIM FOI

Alguma coisa assim
De passos metafísicos
De formigas sem olfato
Caminhando sobre o açúcar;
De pasmo de abelhas
Deprimidas em colméias
Dietéticas.

No solo
Sombras de nuvens:
A barca tão plana e móvel
De quase-crepúsculos
Sobre a paisagem.

Na água
A lua enrugada,
Luar senil.

E ao longe
A ríspida oração de tudo
Que não está no meu âmbito,
Aquelas montanhas pairantes,
Aquela liga de estrelas,
Aquele espelho inundado de silêncio,

E a palavra não indigitada
Por uma mão divina
Já revogada sobre todas as coisas.


ALUCINADO

Não raro, sinto-me como se delirasse
Ao ver todas as coisas exatamente
Como os outros dizem que elas são.


Marcantonio, Hierarquia Relativa, Téc. Mista (2005)
(Clique na imagem para vê-la ampliada)
Outras imagens minhas Aqui

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NOVOS POEMAS

ELES

Ah, os especialistas
E suas listas de dogmas.
Ah, os especialistas
E seus dogs raivosos
Em prontidão.
Ah, os especialistas
Com o cu na mão.
Os especialistas
E suas problemáticas
E seus conta-gotas
E sua secura desértica.

Ah, os especialistas
E seu tédio mecânico.
Os especialistas
E sua ignorância
Em pânico.
Os especialistas
E seu vinhos azedos,
Sua contenção urinária,
Seu medo
De sujar as calças raras.
Os especialistas
E seus feudos-segredos.


ASSALTO

É a própria vida
com suas tropas de assalto,
esmurrando a porta:

- Vamos levar algo de ti.

- Não!

- Ordens superiores!

Não me tranqüilizo
pelo saldo de balanço
da esperança:

amanhã eles voltarão
derrubando a porta.


VERBI GRATIA

1- De dentro

Sinto o caos,
Mas não posso descrevê-lo:
Precisaria ter de mim mesmo
A perspectiva do outro.

2- Dormência

Meu sonho entrevado,
em decúbito dorsal,
com escaras
nas asas dormentes.

3- Nunca consumado

Ó filosofia,
eu apenas te bolino
em intermináveis preliminares.

Rembrandt, A Aula da Anatomia do Dr. Tulp, 1632 

sábado, 1 de janeiro de 2011

Três Poemas no Primeiro Dia do Ano

COMUM

Sentado de frente para o mar
Não espero uma mensagem terrível;
Ele jamais a trará.

Já não temo abismos e maremotos
Nem a desafiadora escuridão
Que dominava o fundo remoto;

Pois o mar agora é somente planura
Como plano é o mundo,
Isento de loucura.

As nuvens ascendem
Como letreiros de um filme.
Não há mais diários de náufragos,
Ou o terror inconfessável
Vivido entre o zarpar e o aportar.
Nada de náuseas a bordo,
Sorvedouros, arrecifes e míticas fráguas;

Pois o mar agora é sólida planície
Como plano é o mundo,
E nada há de incomum
Em andar sobre as águas.


INCOMUM

Tenho medo de ver um morto,
Duas asas de pássaro
Sem corpo de pássaro,
Uma raiz sublevada no deserto
Como se fosse uma copa nua,
Umas conchas a quilômetros
De distância do mar.

Um morto:
Uma chave que não serve
Em mil fechaduras,
Uma nuvem recortada do céu
Que baixasse ao centro da cidade,
Um velocímetro sem ponteiro.

Um morto:
Um veleiro num vale seco,
Um dicionário sem ordem alfabética,
Uma criança que nunca mentiu,
Um cálice cheio de esterco.

Um iguana estático sobre a mesa do almoço.
Um morto.


EXTRAORDINÁRIO

O teu sorriso
Surge com a velocidade
Da luz.

O teu sorriso
É a ilustração rara,
Ardente iluminura,
Que eu tanto procurara
Para um poema
Que jamais serei
Capaz de escrever.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Três Poemas na Última Semana do Ano

O POEMA


O poema te procura,
Remota ânsia,
Matéria escura;
Sons andarilhos.
Sino de faiança,
Chamado estranho
À tua vizinhança.

O poema concentra,
A tua distância
Na cela acesa,
Sol amparado,
Céu reduzido,
Vôo simulado
De ave presa.

O poema te arma,
És sentinela,
A mão na faca
Atrás da porta;
Hirto, velas,
No próprio pulso
As horas cortas.

O poema te detém
Remotamente,
Grato refém
Desse exercício,
Louca assistência:
Içar palavras
Suicidadas
No precipício
Da existência.


CYCLADES

A mesma folha
Enche-se de ilhas,
Uma, duas, cem.
Logo está saturada
De Cyclades
Flutuantes
Sobre abismo branco:
Uns tantos destroços vulcânicos
Coagulados.

Nada afunda
E nada se fundamenta.

Nenhum navio transita.
Não há naufrágios.


AFASTAMENTO

Com carvão desenho um perfil na tela.
É todo um ser de proximidades.
Recuo alguns passos:
O entorno enquadra o quadro.
Mais alguns passos para trás:
O entorno do entorno o engole.
Recuando ainda mais:
O entorno do entorno do entorno
Toma tudo para si:
Já não vejo o que pretendera representar.

Magritte, A Condição Humana, OST, 1933

domingo, 19 de dezembro de 2010

Quatro Poemas

ANALOGIA

É preciso limpar o sifão da pia.

Que simbólico é esse sifão da pia!
Uma curva que cria um lago,
Certo Letes represado
Que faz o esquecimento dos miasmas,
Do mau cheiro subterrâneo.

Um poeta limpando o sifão da pia.

- Vamos, vamos, Orfeu! Mãos à obra!


CODA

Eu a vejo encarquilhada
Junto à janela,
O olhar perdido,
Espantando as moscas
Persistentes
Num almoço distante.
Muito distante.

Eu a vejo encarquilhada
Junto à pia da cozinha,
Manipulando
Irritantes inutilidades,
Agora a faca e o tomate
Vermelho.

Eu a vejo encarquilhada
À mesa,
O garfo suspenso,
A refeição-esfinge.
Não há o que nutrir.

Eu a vejo encarquilhada
No leito.
Deitada de lado.
O braço estendido,
A mão espalmada
Para um óbolo abstrato.
A outra sobre a face.
Há dois sulcos fundos
Entre as sobrancelhas


ILUSÂO

É ilusório que eu transgrida
os teus ritos, ó rotina;
não sabia que eras retina.


EXPOSTA

(Após leitura de um poema de Mirze Souza, aqui)

Todo o meu pesar,
Empatia aflita,
Pela histórica ruptura,
Fratura de um sonho
Que jamais solidifica.

Marcantonio, O Avesso do Jornal 10
Técnica Mista - 1994  (Aqui)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Um Poema sobre o Natal e mais Dois Agregados

NATAL

As sombras da noite, lá fora,
remontam à era pré-histórica
quando os fósseis de agora
andavam sobre a terra
                                  sem museus,
                                  sem feriados,
                                  sem cristos,
                                  sem bem nem mal,
                                  sem Natal.

Aqui dentro, a película da luz artificial
sobre as faces se estende esfacelada:
estão todos pregados em suas cruzes
                                  alugadas.

Há desamparo,
mas reparo que só há bocas
que queiram sorver cardumes
de iguarias natalinas,
para emudecer os queixumes
de suas vidas bovinas.

Eis que o chefe da família,
perfeito homem de negócios,
começa a partir o peru
exemplar de uma espécie
que no futuro será fóssil.
Fóssil como o próprio futuro
                                sem museus,
                                sem cristãos,
                                sem feriados,
                                sem negócios,
                                sem bem nem mal,
                                sem natal,

                                só ócio.


ERRO

É um sofrimento
nem tudo dizer do que quero:
falo do que posso tal como posso
e espero.

Abre-se um fosso, rasgo exangue
De onde nenhum alívio sobrevém:
a palavra errada flutua no pus,
inútil refém.


SEMPRE INÉDITO

Não exijo coerência dos pássaros,
permanência ou conseqüência.
É todo um canto absorto
que explode no ar da manhã!
Como errantes partículas,
todos esses estrídulos brilhantes,
essas bolhas de luzes sonoras,
som que tem cor que em nenúfares
se transforma.

Não perguntarei amanhã:
- Eram vocês que cantavam ontem?
Será uma beleza sempre outra
que nunca poderá ser datada.

Van Gogh, Os Comedores de Batatas, óleo s/ tela, 1885

domingo, 12 de dezembro de 2010

Três Novos Poemas

AS HORAS DISPARADAS

Oh, meu amor, sei que teus olhos coniventes
Conhecem todos os rios vermelhos
Desenhados nas luas brancas dos meus olhos.
Foram tão infecundas todas as horas
Que não consumimos no amor!
Eram elas estes animais cruéis
Que nos levam em suas costas.

Não sei do que é feito o corpo dessas horas.
Será do mesmo carbono que está em nossa fragilidade
E no corpo do diamante faz a pele dura?
Quando outrora tentei lhes cravar as esporas
Elas não desembestaram o passo;
Se agora lhes puxo o freio, cínicas relincham,
Rindo das rédeas absurdas que tenho nas mãos.
Elas têm o olhar ríspido e fixo dos celerados;
As narinas hirtas, amplos túneis
Para o trânsito de um vento finito.

Oh, meu amor, sobre nós o céu tem rotas pavimentadas,
Para a corrida sem fim das nuvens amortecidas e vaporosas.
Mas, aqui no solo, já nos fere os olhos apavorados
A poeira que sobe como limalha de alumínio,
E o óleo queimado que das visões escorre
Não serve para lubrificar nossos músculos
Ou as cartilagens ressecadas da espinha que nos sustenta.

Gostávamos desse vento quente na cara
Sem saber que ele era a nossa perdição:
Achata as nossas feições
Como se tivéssemos os rostos contra uma vidraça
Que um mínimo sorriso pode trincar;
Vem erodindo em nós o frontispício
Das nossas esperanças;
Desidrata nossas pálpebras e lábios;
E pincela ácido em nossas cordas vocais
Para que não blasfememos contra o outono.

Oh, meu amor, já me caem dos bolsos os fatos irrelevantes,
As poucas moedas, as balas de hortelã, as chaves
Uma a uma, e meu mini-dicionário de hieróglifos.
E ainda sinto tão virgens as solas dos meus pés!

É urgente que falemos com os olhos
Porque as borboletas carinhosas que me saem da boca
O vento as arrebata e esfarela antes que toquem teus ouvidos.

Agarra, meu amor, os meus dedos,
Que como os teus já são garras limadas,
Que não conseguem lanhar o dorso do tempo:
Não poderemos saltar sem arrebentarmos nossos corpos
No rastro de pedras frias e cortantes
Trituradas pelos cascos das horas disparadas.


COMPAIXÂO

Tenho universal ternura
por todos os derrotados:
nós que temos cota finita
de ar para ser inspirado.


REVISÂO

Faço essa noturna leitura,
Quiromancia do presente:
Todas as linhas do teu corpo
Nas minhas mãos conferentes.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Três Poemas


NÃO SEI O QUE É MANIFESTO


Eu não quero falar do pouco;
O pouco já está em minhas mãos.

Não me interessam as migalhas
Que já estão sobre a mesa
E grudam nos meus cotovelos.

Os passantes não me interessam.
Os transeuntes são o que são:
Untam-se de sol e suor
E passo derreado entre eles
Que comigo passarão.

Não quero falar da encefalite, da cefaléia,
Da artrite, da artrose, da isquemia
Ou de qualquer necrose da alma:
Farmácias são tão banais.
Os dramas repetidos, performáticos,
Já não são mais drásticos:
Eis o nosso solo comum.

Não quero falar dos cactos cordatos,
Da harpa lírica de arames farpados.
Também não entro em perfumarias,
Cosméticos não me interessam:
Os disfarces já são as faces.

Quero terminantemente
Ignorar o conseqüente:
Só me interessa o desavisado:
Como se afirma a negação.

Mas também não me interessam
As margens altas do que digo,
Esse porquê do dever dizer o que digo:
Não sei quem foi mallarmé,
Não sei se foi mal amado,
Só busco o precipício no qual se chocam os dados,
Se rolando vão barthes no inesperado, e daí?
Também não sei de lacan,
Se laico, lacrado ou sagrado,
Se césar, se cristo ou kristeva,
Se jakobson, se romance, se karamazovi
Se saussure, se salsugem, se salva de palmas;
Se freud, se foda, se forca;
Se jung, se unhas ou ungulados;
Se ossian, se cioran, se siderados,
Se fósseis ou fossas profundas;
Se deleuze, se de luzes ou sombras.
Não quero saber dos ecos,
De longe, de perto ou de humberto .

Não quero em apoteose orar a ti, ó teoria!

Eu quero falar do nada
Que não cabe em minhas mãos.
O que posso viver não preciso dizer.
O que quero dizer é o que não vivo.
E é vão. Não é tomara, ou oxalá.

Ainda te superarei, ó referência,
Com uma palavra deserdada,
Anti-palavra que nada dirá.


EROSÃO

Meu espanto maior
é não-fala,
raiz vital
erodindo por dentro
a rocha vocabular.


NATURAL

O teu corpo muda.
Mudo, o meu corpo
em si mesmo o percebe.
E daí, se nos transfigurarmos
enquanto nus brincarmos
nas águas do rio que segue?

Nossa nudez se integrará
à transparência.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quatro Poemas Para Receber Dezembro.

MESQUINHO

Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Nisso, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que eu não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.

Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não guardo
Escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?

Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.


VARIEDADES

Parece que o tamanho não diz respeito à poesia:
Não é documento que a habilite.
O poema é protéico,
Veste o mínimo,
Veste o máximo, veste o excedente.
Contém momentaneamente o trânsito.

A águia não cabe de volta
No ovo de águia.
O céu é o novo ovo
Da águia.
Mas os olhos da águia têm pupilas.
O bico tem uma curva agressiva.
Na cabeça da águia uma penugem
Vibra em paz ao vento.
A águia é uma panorâmica.
A águia é um close.

Cabe um corvo num haicai.
Cabem mil corvos num haicai.
Mas não cabe todo “O Corvo”
Num haicai.


VÉRTICE

Há momentos em que pasmo!
E o pasmo é um lacre
Sobre as horas restantes do dia,
Ver se torna adentrar uma fresta
Exclusiva.

Como agora: esse caramujo
grudado à vidraça epifenomênica


CONTRA-ATAQUE

Do meu próprio palavrório
Rio sintético.

Ilustração de Doré para  "O Corvo" de Poe

sábado, 27 de novembro de 2010

Se Novembro Finda...

PELA MESMA VIA

                  Para Mai

O que colhe o olhar ao longe?
Não serão flores
Que a estas a atmosfera faminta destempera;
Não serão pássaros
Que estes ao longe são lentas formiguinhas
Subindo pelas paredes do ar;
Não serão cores
Que remotas abdicam de colorir;
Não serão linhas
Que pela distância têm os ossos desconjuntados;
Não será fumaça
Que no longínquo não há respiros ardentes;
Não serão rios
Que estes do horizonte caem na foz suspensa;
Não serão números
Que já estão lá acampados no conjunto vazio;
Não serão nomes
Que os muros do olhar não têm ouvidos;
Não serão pedras
Que estas aos pés é que são sólidas;
Não serão almas
Que almas distantes não se movem.

Talvez os olhos ao longe nada busquem,
Mas enviem, remetam, revidem.
Quem sabe projetem algo que sobre o nada incide?
Projetem o que? Isso: o “quê?"  [o quid].


PRONOMES IMPRÓPRIOS

Seja sincero, sujeito! Tudo é você, não é mesmo? Sobretudo
por eu não saber se quando falo você não é ao nós que me refiro.
Mesmo porque nesse tudo-você convivem outros-você-mesmo
com si-mesmos outros, tais como esse eles que para mim mesmo escrevo 
quando você nos lê.


PIQUETE

Sons desencaminhadores
Propondo pactos:

- Deixa o dia se perder!
A tua alma
Já pertence mesmo
Ao vazio... Das palavras.


Marcantonio, monotipia s/ título
Outras trabalhos meus AQUI

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Distâncias, Procedimento e Registro Flutuante

DISTÂNCIAS

Olho para o sol
no extremo
da vertical.
Olho, no oposto
Ponto,
A minha sombra
Residual.
O sol.
A minha sombra.
A minha sombra
O sol:

Há um nada entre eles.

Olho os ponteiros
Do relógio,
O das horas,
O dos minutos
(Aquiles e a tartaruga).
O ponteiro
Das horas.
O ponteiro
Dos minutos:

Há um nada entre eles.


PROCEDIMENTO

Primeiro é o registro súbito,
Fotográfico,
De um pássaro aguardado
Que não se sabe de onde vem.
Ou, grosso-modo, um esboço
De pássaro deposto em pouso.

Prendo-o na gaiola da imagem
Para reformulá-lo.

Pois a um pássaro solto
Não se pode modificar.

Mas, se já é perfeito o pássaro
Para ocupar as alturas,
Por que alterá-lo?

Trata-se de outra forma de voar.


REGISTRO FLUTUANTE

Encontrei num caderno amarelado
A letra trêmula de meu pai:
Uma anotação banal -
Lista da feira -
De um dia também banal.

Porque era meu pai falecido
Aquela escrita se desgrudara
Daquele dia.

Como se fora aquele um dia virgem,
Habitado por um só ser flutuante
Cujos pés não aceitassem o alvitre das horas,
Cujas mãos não se maculassem nos objetos,
Cujos olhos não ocupassem um raio de sol.

Algum dia terá tal resplendor
Um só dos meus poemas?


Escher, Liberação

domingo, 21 de novembro de 2010

Que Haja Sempre um Poema Efêmero na Primeira Página!



SUMÁRIO

...................................................................................Amanhã                                                                                  
Viverei um dia
Que não seja sumariado
Pelo índice remissivo das horas.

Se não for amanhã
Será
...................................................................Depois de amanhã.                                                  

Mas, se acaso não for
Em um dos sete dias
Desta coerção semanal,
Quiçá esteja ele entre os dias da
......................................................................Próxima semana. 
                                                        
Vá que transcorram quatro semanas
E esse dia único não venha...
Não há de ser nada,
Ele me surpreenderá no
...........................................................................Mês que vem.                                                                  

Porém, se os meses se contarem doze
E não propiciarem esse dia,
Ele virá no
............................................................................Ano seguinte!
                                                                 
Ora, mas se ele não incidir
Sobre uma dúzia de anos? Paciência,
Eu aguardarei esse dia improvável
Para os oito anos restantes da
.......................................................................Década vindoura.

No entanto, se as décadas rolarem por
.............................................................................. Meio século,

Receio que esse dia de liberdade
Não virá mais, não chegará antes do
...................................................................Fim do meu tempo.

Ou será ele próprio o
.................................................................................Último dia?



Mitos

Gerome, Pigmalião e Galatéia

Nunca gostei do mito de Pigmalião; porque creio que há algo de nobre no artista que subestima a própria obra (orgulho às avessas?), mais ainda naquele que, de ato pensado, é capaz de destruí-la. Talvez haja nessa visão um franciscanismo hipócrita da minha parte; ainda estou consultando o meu inconsciente para investigar.
A esse respeito, não sei se por engano,  sempre vi no mito de Orfeu uma alusão ao caminho do artista: quando ele olha para trás, perde o seu objeto de desejo; fixado pela perda ao momento único, desesperado, será estraçalhado (fragmentado) pelas ninfas, as mesmas que o cobiçavam ao cobri-lo de glória.
Esse olhar para trás é uma decisão presente e se refere ao apego pelo presente como afeto, ao aprisionamento do desejo no que já existe, à obra, enfim. Mas, criar não seria um ato ascensional, mesmo que ilusório? Pois parece que só inflama o desejo e merece o afeto a obra que está para ser feita. Ela ainda não existe! E se já existe é porque chegou o fim, sedimentou-se ao patamar que não é mais do que o próprio térreo. E a obra realizada se torna um signo da impotência, do desfalecimento, do desespero íntimo que nem as dialéticas noções de glória e reconhecimento, nem a pequeno-burguesa idéia do dever cumprido são capazes de aplacar. Pois o artista sabe que faria tudo novamente mesmo que fosse de maneira anônima. E, no fundo, sempre é um esforço anônimo, senão para ele próprio.
O amor pela obra presente só pode ser relativo e volúvel. Alguém nos diz que é boa, mas desconfiamos que não. Em contrapartida, quanto amor pela obra futura que é cobiçada entre o entusiasmo e a melancolia pelo temor de não poder realizá-la. Muitos artistas dizem lidar com o efêmero, mas fazem registros e documentam a obra para que não seja... efêmera! Dirão que é para a remontagem posterior do próprio processo, do seu percurso; porém, se há registro é porque julgam que o que importa é a obra (mesmo que seja feita de fezes de artista). Ora, se há processo ativo ele é interno, e se refere à única obra que não é efêmera, a futura. Processo se faz por etapas superadas, relativas, que não podem ser superestimadas. Parece que é inevitável a confusão entre o olhar do artista e o olhar do outro que o julga a partir da obra já realizada.
Desconfio que Michelangelo jamais chegasse a desafiar o seu Moisés; só um observador não-criador poderia dizer à estátua: Parla!
Talvez para muitos essa questão não se refira à gênese da obra, mas ao Eclesiastes. Quem sabe até para mim mesmo! Ou isso se deve à minha desconfiança para com o que realizo?

Michelangelo, Moisés




quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Um Poema Em Doze Partes

POR TRÁS DAS CÂMERAS

I

Teu coração se mistura
Ao ar frio e instável.

Que fazer com o que te cerca?
Tanta coisa miudinha,
Tudo que amiúde alinhas
Em inventários sentimentais:
Coisinhas, coisinhas
Tão tuas,
Tão cotidianas e amoráveis!
Tão chegadas aos teus olhos!

Como impedir que se extraviem?

II

Janelas reticentes...
Quem é teu vizinho?
Quem - junto a ti
Ou a mil cabeças -
Não estará sozinho?

III

Na noite convulsa,
A tua mente girará
Como um farol disparado
A repartir as trevas
Em angulosas frações:

O universo sustenta
A tua insônia.

IV

E pouco importaria
Se os peixes se trocassem
Com os pássaros;
Se cavalos fossem só os marinhos;
Se as maçãs caíssem para o alto;
Se os homens fossem todos irmãos,
Ainda assim teus olhos teriam
A solidão das câmeras.

V

Há ninhos que ignoras
Sob os parapeitos lívidos.
Há rachaduras no reboco,
Vias angulosas que levam
Seres diminutos-diminutos,
Tingidos pelo pó amargo
Do edifício.

A tinta se desprende das paredes,
Raspas de palimpsestos:
Um toque menos doce
As transforma num sal amnésico.

Madeiras apodrecendo
E tacos soltos,
Pequenos quadros sem paisagens.
Canos oxidados e mármores
Com veios corroídos.
Os azulejos encardidos
Já órfãos da sua série.

O mofo, a gordura calcificada,
As teias devolutas (nem as aranhas
Te habitam).

VI

A faca sobre a mesa
Tão distinta da toalha!
A angústia entre os dedos,
Uma fissura, um rompimento,
Uma falha.

A fruta sobre a mesa
Concertante com a parede!
A angústia entre os olhos,
Uma armadilha, um cerco,
Uma rede.

VII

Estrelas há
Que tu verás queimar
Ao dia azul
Se a mente vazar
Por atalhos cortados
Nas horas.

VIII

Se de uma varanda distante,
Observada da tua janela,
Faces diluídas pelo espaço
A ti observam... O que pensar?

Que os olhos se chocam
No ponto médio
Entre o anonimato dos rostos?

Eles também são seres blindados
Como tu.

IX

Formas são
O que o que a tua mão quer
Na areia ardida,

Essa argila indócil.

X

Em dado momento
A alma nada pode
Ou determina.
Então, o corpo excede,
Se arremete para além
Como mastro de nau
Rompendo a neblina.

XI

Não há sendas
Verticais
Nessa via dupla,
Ir e vir,

Percorrendo as rachaduras
Do dia,
No tempo desses segundos
Orgânicos,
As pulsações.

E queima-se um pavio,
E soam uns bordões.

E tu guardas o teu lugar
Sem chegares a qualquer parte.
Ainda estarás aí se te mudares.
Sempre, se estiveres,
Será aí.

XII

Tudo o que há
É o que vês:
Grãos, gralhas, gemas,
Bolas de esterco.

Tudo o que ouves
É o que vês:
A boca exala fonema,
Prosódia de bêbado.

Tudo o que cheiras:
É o que vês:
O pus da perna enferma,
O capim seco.

Pouco importaria
Se os peixes se trocassem
Com os pássaros;
Se cavalos fossem só os marinhos;
Se maçãs caíssem para o alto
E os homens fossem todos irmãos...

Ainda assim terias o foco solitário
Das câmeras.