sábado, 26 de fevereiro de 2011
Dois Poemas
FIXIDEZ
Tu sabes não é mesmo? Tu sabes perfeitamente
quanto seria bom nada ter a dizer:
a alma tornada assim, de súbito, uma árvore,
ou a carcaça de um velho automóvel
num ferro-velho.
A árvore nada fala, é o vento que farfalha
entre as folhas
que em conjunto nunca foram os cabelos
despenteados da árvore.
As folhas sempre foram sempre foram... Folhas.
Certamente tu jamais as perceberas como tais
antes que caíssem.
E bem sabes que se o vento trouxesse uma folha
ao teu quarto, dirias: de onde veio esse anjo?
Sim, porque perceberas primeiro que os anjos caem,
e talvez a copa de uma árvore seja uma das inúmeras
formas que o céu pode assumir.
Ocorre que os anjos têm asas e as folhas não;
e se os anjos caem é porque perderam as asas
em algum tipo de outono,
ou espécie de muda, num ciclo inverso ao das borboletas
oriundas de lagartas. Caem os anjos em casulos de sono
e acordam lagartas.
E não é fato que lagartas habitam as arvores?
Por isso é até admissível que uma copa frondosa
possa ser uma subespécie de céu,
mas não que uma folha seja um anjo,
pois estes se alimentam de folhas verdes e tenras.
Enfim, até aqui sabemos
que os anjos caídos já não são mais anjos
assim como a folha caída já não é mais árvore.
Mas entendo o teu pensamento: a folha é uma carta
enviada pela vida à atmosfera asséptica do teu quarto
de onde retiras todos os sinais invasivos da morte
sem perceberes que a morte é também maníaca por limpeza.
Então a folha que entrasse pela janela
seria realmente a anunciação, não de algum nascimento,
mas de uma perda que macula o teu chão.
Considera, porém: se a entrega dessa carta é feita pelo vento,
este não seria Zéfiro,
E sim Hermes que tinha asas presas aos tornozelos
e não às costas como os anjos.
Vê como é difícil escapar dos anjos, das asas, dos carteiros
e dos resíduos da morte?
Suponho que, irritado, jogarias essa folha no vaso sanitário
e a verias sumir por obra de uma sonora descarga.
Talvez assim a folha ex machina se tornasse um peixe!
Eu juro que não pretendera dizer desde o início
que as folhas sempre foram sempre foram... Peixes!
Embora pudesse agradar à alma que teima em muito dizer,
dizer também que a copa de uma árvore é todo um cardume
de peixes secos, pendurados e farfalhentos.
Ora, isso seria um absurdo mesmo para uma alma insana:
afinal, o que comeriam os anjos? Peixes?
Ah, que tipo de mutação constante suportaria a folha
dessa árvore quase genealógica, quase taxonômica?
Não, eu pretendera dizer mesmo que folhas sempre foram
apenas folhas.
Eis porque nós dois sabemos o quanto seria bom
se a alma se tornasse fixa como uma árvore
que delegasse a eloqüência transitiva ao vento
farfalhando entre as folhas apenas folhas.
Oh, eu me esqueci da carcaça de automóvel no ferro-velho
pela qual falam os óxidos e as intempéries,
assim como fala o vento nas árvores!
Havia tanto a dizer sobre essa carcaça... Mas, ela se basta.
COLORAÇÕES
A pele porosa
Filtra a ganga
De óxidos
Dolentes.
Apenas aglutino
O pigmento
Que se origina
No ambiente.
A boca franca
Restitui
Água-tinta
Impermanente.
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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Três Poemas
HIDROLATRIA
Cristais de sal
a memória:
conserva a vida
desidratada.
Ressequido
anseio o mar:
memória diluída
n’água.
DIAGNOSE
Tu achas que sou triste?
Será em razão de haver na água dos meus olhos
fragmentos do solo das luas que jamais viste?
Ou deve-se ao ar de mistério que sai das minhas narinas
aquecido por um sol que nunca raiou noutro hemisfério?
Talvez seja porque me fuja da boca um rio afluente
De sílabas que vez alguma me retornou da foz alheia.
Ou porque as minhas mãos não saibam como plantar
uma árvore na fronteira entre o outono e a primavera.
Não há fronteira exata entre o outono e a primavera?!
Talvez esse seja o motivo.
Ou então porque a estrutura óssea dos meus pés
Não seja apropriada para caminhar sobre um solo
Feito de farelo de ossos.
Afora isso,
Não sei qual a razão de achares que sou tão triste.
amplos
e
separados
campos
de cor
azul crença
de
céu
vermelho carne
avesso
incréu
ocre terreno
ao léu
espelho
vindouro
amarelo anel
anelo
d’ouro
insólito
eloqüente
solvendo
-se
no vácuo
logos
silente
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Quatro Poemas de Meados de Fevereiro
ASFIXIAR-SE
[Publicado também em OGATODAODETE]
Estou exausto.
Corri para selar
todas as entradas do poema
antes que o mundo a ele retornasse.
Preguei madeiras em todas as portas,
janelas.
Vedei com cera cada fresta.
E os ralos. Sim! Sobretudo os ralos!
Não sei quanto ar ainda me resta.
EDÊNICO
Cidade pequena,
Pequena cidade,
Os olhares
Das tuas janelas
Querem me desnudar.
Mas por que me devo
Envergonhar
Com essa falta de siso
Se sempre quis voltar
Nu ao paraíso?
VANTAGEM
Vontade de me ver virando uma esquina
E me dar uns quinze minutos de dianteira,
Para que, ainda que eu vá no meu encalço,
Já não me encontre mais pela vida inteira.
BERCEUSE
Em pé na orla. Olhos fechados.
O horizonte me sopra a face.
O horizonte me chega às narinas.
O horizonte murmura aos ouvidos.
O horizonte envolve os meus pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia fui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
[Publicado também em OGATODAODETE]
Estou exausto.
Corri para selar
todas as entradas do poema
antes que o mundo a ele retornasse.
Preguei madeiras em todas as portas,
janelas.
Vedei com cera cada fresta.
E os ralos. Sim! Sobretudo os ralos!
Não sei quanto ar ainda me resta.
EDÊNICO
Cidade pequena,
Pequena cidade,
Os olhares
Das tuas janelas
Querem me desnudar.
Mas por que me devo
Envergonhar
Com essa falta de siso
Se sempre quis voltar
Nu ao paraíso?
VANTAGEM
Vontade de me ver virando uma esquina
E me dar uns quinze minutos de dianteira,
Para que, ainda que eu vá no meu encalço,
Já não me encontre mais pela vida inteira.
BERCEUSE
Em pé na orla. Olhos fechados.
O horizonte me sopra a face.
O horizonte me chega às narinas.
O horizonte murmura aos ouvidos.
O horizonte envolve os meus pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia fui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
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domingo, 6 de fevereiro de 2011
Três Poemas No Início de Fevereiro
ESPERANÇA E MEDO
Você permanece uma manhã brilhante
Engastada no meu peito que entardecia,
Então todos os pássaros do meu mundo
Não fazem senão saudar a sua chegada.
Toda essa seiva de sol sempre nascente,
Inoculada nas minhas veias viciadas
No fluxo mortiço das horas nubladas,
Talvez signifique que este súbito apego
À vida jamais se oxidará no meu corpo.
É por tanto que temo que esse encontro
Embriagado da aurora com o crepúsculo,
Se atire de peito aberto, suicida precoce,
Alucinado, sobre a lâmina afiada da noite.
PLANALTO
Do alto de mim
Observo-me:
Tal servo da terra,
Das coisas.
Do alto de mim
Observo-me:
Severo espectro
Com olho de pássaro
Adicto ao mundo.
Pastor de perguntas
Mancas, erradias,
Desgarradas das trilhas
Dos costumes.
Do alto de mim,
Megafone em punho,
Espantalho de gestos
Desesperados,
Figurante de cenas
Não filmadas,
Locutor de mensagens
Cifradas,
Encenador habitual
De fantasmagorias,
Este que se altera
No alto de mim,
Guarda de trânsito
Multando-me os sonhos
Estacionados
Nas amplas calçadas
Sem transeuntes
Que há sob mim.
SUSPENSÃO DE JUÍZO
Não busco mais definições.
Apenas observo a cortina
Esvoaçando
Contra o frontispício do mundo.
Decididamente não busco mais
Teoremas.
Descuido-me enfim dos adjetivos
Dos pronomes retos, oblíquos
E demonstrativos.
Somos artigos indefinidos:
Eu, tu, ele... Nós? Quem sois vós?
Vozes passivas ou reflexivas,
Expelimos grunhidos.
E o particípio morrendo?
E o gerúndio vivido?
Patéticos,
Nós, postos, opostos,
Ainda recorrendo
Ao superlativo absoluto sintético.
Mas que sujeito ainda se perderia
Na absoluta síntese?
Você permanece uma manhã brilhante
Engastada no meu peito que entardecia,
Então todos os pássaros do meu mundo
Não fazem senão saudar a sua chegada.
Toda essa seiva de sol sempre nascente,
Inoculada nas minhas veias viciadas
No fluxo mortiço das horas nubladas,
Talvez signifique que este súbito apego
À vida jamais se oxidará no meu corpo.
É por tanto que temo que esse encontro
Embriagado da aurora com o crepúsculo,
Se atire de peito aberto, suicida precoce,
Alucinado, sobre a lâmina afiada da noite.
PLANALTO
Do alto de mim
Observo-me:
Tal servo da terra,
Das coisas.
Do alto de mim
Observo-me:
Severo espectro
Com olho de pássaro
Adicto ao mundo.
Pastor de perguntas
Mancas, erradias,
Desgarradas das trilhas
Dos costumes.
Do alto de mim,
Megafone em punho,
Espantalho de gestos
Desesperados,
Figurante de cenas
Não filmadas,
Locutor de mensagens
Cifradas,
Encenador habitual
De fantasmagorias,
Este que se altera
No alto de mim,
Guarda de trânsito
Multando-me os sonhos
Estacionados
Nas amplas calçadas
Sem transeuntes
Que há sob mim.
SUSPENSÃO DE JUÍZO
Não busco mais definições.
Apenas observo a cortina
Esvoaçando
Contra o frontispício do mundo.
Decididamente não busco mais
Teoremas.
Descuido-me enfim dos adjetivos
Dos pronomes retos, oblíquos
E demonstrativos.
Somos artigos indefinidos:
Eu, tu, ele... Nós? Quem sois vós?
Vozes passivas ou reflexivas,
Expelimos grunhidos.
E o particípio morrendo?
E o gerúndio vivido?
Patéticos,
Nós, postos, opostos,
Ainda recorrendo
Ao superlativo absoluto sintético.
Mas que sujeito ainda se perderia
Na absoluta síntese?
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Dois Poemas
UM E OUTRO
Quando escrevo,
um barco afasta-se do ancoradouro,
uma enxada crava-se na terra,
ou uma vindima se inicia.
Mas não são as minhas mãos
que movem o leme,
manejam a enxada
ou recolhem os frutos ao cesto.
Não são estas mesmas mãos
que me fazem a barba,
que seguram os talheres,
que contam moedas.
Tampouco os olhos que acompanham
a pesca ou a semeadura ou a fermentação
das palavras,
são estes mesmos em mim já habituados
à ortogonia do cotidiano
e suas paisagens de alvenaria.
Quando escrevo, nem o dia é mais aquele
que só teve uma aurora,
as horas perdem espessura
e se guardam em fascículos,
e uma parte rarefeita de mim
foge pelos micro-exaustores dos segundos
para um dia sem geometria,
enquanto, outra parte, permaneço
no anverso do momento,
sentado à mesa banal
com uma caneta na mão
sobre uma folha de papel inerte:
pele a ser rompida a partir do avesso
ou mármore a ser entalhado
por dentro.
ÚLTIMO DE SUA ESPÉCIE
Imagino que todo o mundo visível
estreitara-se aos teus olhos dormentes
numa faixa claustrofóbica
de relevos embaçados:
teu friso final de Partenon.
Ali tu indicaras alguma coisa, uma visão
uma memória.
Como interpretar teu último gesto,
solitário representante de uma espécie em extinção?
A- Se tua mão, pomba assustada, se erguera,
dedos abertos, asas tortas e espalmadas, trêmula no ar,
e se contraíra na metamorfose de outro ser alado
em torno do indicador, súbito bico de colibri
parado no ar para... Para quê? Sugar a última seiva
das entranhas expostas da flor do horizonte
esmagada entre o céu e a terra?
B- Talvez pudesses ouvir um coro de anjos,
desejoso de acompanhar com o dedo
as notas saltitando numa partitura invisível.
C- Quem sabe não seria um único anjo a se se aproximar,
confirmando que de fato usa um capuz
e traz uma foice ao ombro?
D- Ou tentavas tocar os ponteiros de um relógio
para retrocedê-los a um ponto virgem
do mostrador?
E- Seria aquele túnel? O tal túnel, o famigerado túnel.
F- Ou a descoberta de algo que não deverias deixar para trás,
aquele rosto redivivo, aquele amor não vivido,
algum erro irreparável?
G- Seria possível que tudo voltasse subitamente, de uma só vez
a vida em roldão, uma onda concentrada, embriagante,
um anestésico?
H- Seria apenas o botão liga/desliga? Off: já é hora
de dormir.
Foi quando reparei na tua outra mão
que se agarrara a tua própria coxa.
Ela não era um pássaro, era talvez um ser terrestre
com fortes mandíbulas, e que não queria partir.
Então, o último suspiro,
a devolução do beijo roubado à vida,
e a mão direita abatida em pleno ar.
Teus olhos já na tinham velas
e o mar parara.
Tua cabeça já era um fruto sem polpa.
Na testa uma tatuagem que começava
a se apagar com o fim de todas as perguntas.
E eu fiquei um hermeneuta impossível
do teu último gesto.
Quando escrevo,
um barco afasta-se do ancoradouro,
uma enxada crava-se na terra,
ou uma vindima se inicia.
Mas não são as minhas mãos
que movem o leme,
manejam a enxada
ou recolhem os frutos ao cesto.
Não são estas mesmas mãos
que me fazem a barba,
que seguram os talheres,
que contam moedas.
Tampouco os olhos que acompanham
a pesca ou a semeadura ou a fermentação
das palavras,
são estes mesmos em mim já habituados
à ortogonia do cotidiano
e suas paisagens de alvenaria.
Quando escrevo, nem o dia é mais aquele
que só teve uma aurora,
as horas perdem espessura
e se guardam em fascículos,
e uma parte rarefeita de mim
foge pelos micro-exaustores dos segundos
para um dia sem geometria,
enquanto, outra parte, permaneço
no anverso do momento,
sentado à mesa banal
com uma caneta na mão
sobre uma folha de papel inerte:
pele a ser rompida a partir do avesso
ou mármore a ser entalhado
por dentro.
ÚLTIMO DE SUA ESPÉCIE
Imagino que todo o mundo visível
estreitara-se aos teus olhos dormentes
numa faixa claustrofóbica
de relevos embaçados:
teu friso final de Partenon.
Ali tu indicaras alguma coisa, uma visão
uma memória.
Como interpretar teu último gesto,
solitário representante de uma espécie em extinção?
A- Se tua mão, pomba assustada, se erguera,
dedos abertos, asas tortas e espalmadas, trêmula no ar,
e se contraíra na metamorfose de outro ser alado
em torno do indicador, súbito bico de colibri
parado no ar para... Para quê? Sugar a última seiva
das entranhas expostas da flor do horizonte
esmagada entre o céu e a terra?
B- Talvez pudesses ouvir um coro de anjos,
desejoso de acompanhar com o dedo
as notas saltitando numa partitura invisível.
C- Quem sabe não seria um único anjo a se se aproximar,
confirmando que de fato usa um capuz
e traz uma foice ao ombro?
D- Ou tentavas tocar os ponteiros de um relógio
para retrocedê-los a um ponto virgem
do mostrador?
E- Seria aquele túnel? O tal túnel, o famigerado túnel.
F- Ou a descoberta de algo que não deverias deixar para trás,
aquele rosto redivivo, aquele amor não vivido,
algum erro irreparável?
G- Seria possível que tudo voltasse subitamente, de uma só vez
a vida em roldão, uma onda concentrada, embriagante,
um anestésico?
H- Seria apenas o botão liga/desliga? Off: já é hora
de dormir.
Foi quando reparei na tua outra mão
que se agarrara a tua própria coxa.
Ela não era um pássaro, era talvez um ser terrestre
com fortes mandíbulas, e que não queria partir.
Então, o último suspiro,
a devolução do beijo roubado à vida,
e a mão direita abatida em pleno ar.
Teus olhos já na tinham velas
e o mar parara.
Tua cabeça já era um fruto sem polpa.
Na testa uma tatuagem que começava
a se apagar com o fim de todas as perguntas.
E eu fiquei um hermeneuta impossível
do teu último gesto.
![]() |
| Friso interior do Partenon (detalhe) - Museu Britânico, Londres |
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O Bigode de Nietzsche e Mais Dois Poemas
O BIGODE DE NIETZSCHE
Parece haver algo
De um estranho sorriso
No bigode de Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece um arco ogival
Sobre o abismo.
O bigode de Nietzsche
Parece um desejo
Involuntário de calar.
O bigode de Nietzsche
Parece
Sombrear um segredo
De antes do meio-dia.
O bigode de Nietzsche
Parece uma esponja
Umedecida em vinagre.
O bigode de Nietzsche
Parece martelar
Seu queixo.
O bigode de Nietzsche
Parece um viajante
Solitário
Que chega à cidade
Antes que Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece transcendê-lo,
Metafísico.
O bigode de Nietzsche
Parece augurar
Sua loucura
Às caricaturas.
O bigode de Nietzsche
Parece ao senso comum
A orelha-de-van-gogh
De Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece dizer a Nietzsche:
In hoc signo vinces.
O bigode de Nietzsche
Parece uma túnica
De corifeu.
Ou uma máscara
Humana
De Dioniso.
FALTAM OS NEXOS
Na atmosfera do museu,
Meus artefatos convivem,
Como inimigos civilizados.
Sou um arqueólogo triste
Das primeiras camadas
De um dia que entardece,
Lá, naquele terreno extinto
Das horas enterradas vivas;
Lá, onde todos os utensílios
Tinham nexos espontâneos,
Os mesmos nós que emendam
As águas soltas num rio,
Ou o potente adesivo
Que adere a flor ao ar.
O SINAL
O sol às vezes me acorda
Tocando-me a face
Com um beijo de Judas.
Parece haver algo
De um estranho sorriso
No bigode de Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece um arco ogival
Sobre o abismo.
O bigode de Nietzsche
Parece um desejo
Involuntário de calar.
O bigode de Nietzsche
Parece
Sombrear um segredo
De antes do meio-dia.
O bigode de Nietzsche
Parece uma esponja
Umedecida em vinagre.
O bigode de Nietzsche
Parece martelar
Seu queixo.
O bigode de Nietzsche
Parece um viajante
Solitário
Que chega à cidade
Antes que Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece transcendê-lo,
Metafísico.
O bigode de Nietzsche
Parece augurar
Sua loucura
Às caricaturas.
O bigode de Nietzsche
Parece ao senso comum
A orelha-de-van-gogh
De Nietzsche.
O bigode de Nietzsche
Parece dizer a Nietzsche:
In hoc signo vinces.
O bigode de Nietzsche
Parece uma túnica
De corifeu.
Ou uma máscara
Humana
De Dioniso.
FALTAM OS NEXOS
Na atmosfera do museu,
Meus artefatos convivem,
Como inimigos civilizados.
Sou um arqueólogo triste
Das primeiras camadas
De um dia que entardece,
Lá, naquele terreno extinto
Das horas enterradas vivas;
Lá, onde todos os utensílios
Tinham nexos espontâneos,
Os mesmos nós que emendam
As águas soltas num rio,
Ou o potente adesivo
Que adere a flor ao ar.
O SINAL
O sol às vezes me acorda
Tocando-me a face
Com um beijo de Judas.
| Friedrich Nietzsche, jovem. |
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sábado, 15 de janeiro de 2011
Janeiro pelo Meio, Três Novos Poemas
TOM SOBRE TOM
O eu é o pronome mais opaco.
Tinta saturada de pigmento,
Pode cobrir uniformemente
A camada chamada mundo.
Chega um ponto, entretanto,
Em que ele não poderá mais
Ser aplicado de forma distinta,
Embora possa produzir texturas
Por acumulação de mesmice:
Serão grumos, calos, sulcos,
Sombras na superfície pleonástica
De uma mesmo cor. Matiz infeliz?
ASSIM FOI
Alguma coisa assim
De passos metafísicos
De formigas sem olfato
Caminhando sobre o açúcar;
De pasmo de abelhas
Deprimidas em colméias
Dietéticas.
No solo
Sombras de nuvens:
A barca tão plana e móvel
De quase-crepúsculos
Sobre a paisagem.
Na água
A lua enrugada,
Luar senil.
E ao longe
A ríspida oração de tudo
Que não está no meu âmbito,
Aquelas montanhas pairantes,
Aquela liga de estrelas,
Aquele espelho inundado de silêncio,
E a palavra não indigitada
Por uma mão divina
Já revogada sobre todas as coisas.
ALUCINADO
Não raro, sinto-me como se delirasse
Ao ver todas as coisas exatamente
Como os outros dizem que elas são.
O eu é o pronome mais opaco.
Tinta saturada de pigmento,
Pode cobrir uniformemente
A camada chamada mundo.
Chega um ponto, entretanto,
Em que ele não poderá mais
Ser aplicado de forma distinta,
Embora possa produzir texturas
Por acumulação de mesmice:
Serão grumos, calos, sulcos,
Sombras na superfície pleonástica
De uma mesmo cor. Matiz infeliz?
ASSIM FOI
Alguma coisa assim
De passos metafísicos
De formigas sem olfato
Caminhando sobre o açúcar;
De pasmo de abelhas
Deprimidas em colméias
Dietéticas.
No solo
Sombras de nuvens:
A barca tão plana e móvel
De quase-crepúsculos
Sobre a paisagem.
Na água
A lua enrugada,
Luar senil.
E ao longe
A ríspida oração de tudo
Que não está no meu âmbito,
Aquelas montanhas pairantes,
Aquela liga de estrelas,
Aquele espelho inundado de silêncio,
E a palavra não indigitada
Por uma mão divina
Já revogada sobre todas as coisas.
ALUCINADO
Não raro, sinto-me como se delirasse
Ao ver todas as coisas exatamente
Como os outros dizem que elas são.
![]() |
| Marcantonio, Hierarquia Relativa, Téc. Mista (2005) (Clique na imagem para vê-la ampliada) Outras imagens minhas Aqui |
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
NOVOS POEMAS
ELES
Ah, os especialistas
E suas listas de dogmas.
Ah, os especialistas
E seus dogs raivosos
Em prontidão.
Ah, os especialistas
Com o cu na mão.
Os especialistas
E suas problemáticas
E seus conta-gotas
E sua secura desértica.
Ah, os especialistas
E seu tédio mecânico.
Os especialistas
E sua ignorância
Em pânico.
Os especialistas
E seu vinhos azedos,
Sua contenção urinária,
Seu medo
De sujar as calças raras.
Os especialistas
E seus feudos-segredos.
ASSALTO
É a própria vida
com suas tropas de assalto,
esmurrando a porta:
- Vamos levar algo de ti.
- Não!
- Ordens superiores!
Não me tranqüilizo
pelo saldo de balanço
da esperança:
amanhã eles voltarão
derrubando a porta.
VERBI GRATIA
1- De dentro
Sinto o caos,
Mas não posso descrevê-lo:
Precisaria ter de mim mesmo
A perspectiva do outro.
2- Dormência
Meu sonho entrevado,
em decúbito dorsal,
com escaras
nas asas dormentes.
3- Nunca consumado
Ó filosofia,
eu apenas te bolino
em intermináveis preliminares.
Ah, os especialistas
E suas listas de dogmas.
Ah, os especialistas
E seus dogs raivosos
Em prontidão.
Ah, os especialistas
Com o cu na mão.
Os especialistas
E suas problemáticas
E seus conta-gotas
E sua secura desértica.
Ah, os especialistas
E seu tédio mecânico.
Os especialistas
E sua ignorância
Em pânico.
Os especialistas
E seu vinhos azedos,
Sua contenção urinária,
Seu medo
De sujar as calças raras.
Os especialistas
E seus feudos-segredos.
ASSALTO
É a própria vida
com suas tropas de assalto,
esmurrando a porta:
- Vamos levar algo de ti.
- Não!
- Ordens superiores!
Não me tranqüilizo
pelo saldo de balanço
da esperança:
amanhã eles voltarão
derrubando a porta.
VERBI GRATIA
1- De dentro
Sinto o caos,
Mas não posso descrevê-lo:
Precisaria ter de mim mesmo
A perspectiva do outro.
2- Dormência
Meu sonho entrevado,
em decúbito dorsal,
com escaras
nas asas dormentes.
3- Nunca consumado
Ó filosofia,
eu apenas te bolino
em intermináveis preliminares.
![]() |
| Rembrandt, A Aula da Anatomia do Dr. Tulp, 1632 |
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sábado, 1 de janeiro de 2011
Três Poemas no Primeiro Dia do Ano
COMUM
Sentado de frente para o mar
Não espero uma mensagem terrível;
Ele jamais a trará.
Já não temo abismos e maremotos
Nem a desafiadora escuridão
Que dominava o fundo remoto;
Pois o mar agora é somente planura
Como plano é o mundo,
Isento de loucura.
As nuvens ascendem
Como letreiros de um filme.
Não há mais diários de náufragos,
Ou o terror inconfessável
Vivido entre o zarpar e o aportar.
Nada de náuseas a bordo,
Sorvedouros, arrecifes e míticas fráguas;
Pois o mar agora é sólida planície
Como plano é o mundo,
E nada há de incomum
Em andar sobre as águas.
INCOMUM
Tenho medo de ver um morto,
Duas asas de pássaro
Sem corpo de pássaro,
Uma raiz sublevada no deserto
Como se fosse uma copa nua,
Umas conchas a quilômetros
De distância do mar.
Um morto:
Uma chave que não serve
Em mil fechaduras,
Uma nuvem recortada do céu
Que baixasse ao centro da cidade,
Um velocímetro sem ponteiro.
Um morto:
Um veleiro num vale seco,
Um dicionário sem ordem alfabética,
Uma criança que nunca mentiu,
Um cálice cheio de esterco.
Um iguana estático sobre a mesa do almoço.
Um morto.
EXTRAORDINÁRIO
O teu sorriso
Surge com a velocidade
Da luz.
O teu sorriso
É a ilustração rara,
Ardente iluminura,
Que eu tanto procurara
Para um poema
Que jamais serei
Capaz de escrever.
Sentado de frente para o mar
Não espero uma mensagem terrível;
Ele jamais a trará.
Já não temo abismos e maremotos
Nem a desafiadora escuridão
Que dominava o fundo remoto;
Pois o mar agora é somente planura
Como plano é o mundo,
Isento de loucura.
As nuvens ascendem
Como letreiros de um filme.
Não há mais diários de náufragos,
Ou o terror inconfessável
Vivido entre o zarpar e o aportar.
Nada de náuseas a bordo,
Sorvedouros, arrecifes e míticas fráguas;
Pois o mar agora é sólida planície
Como plano é o mundo,
E nada há de incomum
Em andar sobre as águas.
INCOMUM
Tenho medo de ver um morto,
Duas asas de pássaro
Sem corpo de pássaro,
Uma raiz sublevada no deserto
Como se fosse uma copa nua,
Umas conchas a quilômetros
De distância do mar.
Um morto:
Uma chave que não serve
Em mil fechaduras,
Uma nuvem recortada do céu
Que baixasse ao centro da cidade,
Um velocímetro sem ponteiro.
Um morto:
Um veleiro num vale seco,
Um dicionário sem ordem alfabética,
Uma criança que nunca mentiu,
Um cálice cheio de esterco.
Um iguana estático sobre a mesa do almoço.
Um morto.
EXTRAORDINÁRIO
O teu sorriso
Surge com a velocidade
Da luz.
O teu sorriso
É a ilustração rara,
Ardente iluminura,
Que eu tanto procurara
Para um poema
Que jamais serei
Capaz de escrever.
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Serei Poeta?
domingo, 26 de dezembro de 2010
Três Poemas na Última Semana do Ano
O POEMA
O poema te procura,
Remota ânsia,
Matéria escura;
Sons andarilhos.
Sino de faiança,
Chamado estranho
À tua vizinhança.
O poema concentra,
A tua distância
Na cela acesa,
Sol amparado,
Céu reduzido,
Vôo simulado
De ave presa.
O poema te arma,
És sentinela,
A mão na faca
Atrás da porta;
Hirto, velas,
No próprio pulso
As horas cortas.
O poema te detém
Remotamente,
Grato refém
Desse exercício,
Louca assistência:
Içar palavras
Suicidadas
No precipício
Da existência.
CYCLADES
A mesma folha
Enche-se de ilhas,
Uma, duas, cem.
Logo está saturada
De Cyclades
Flutuantes
Sobre abismo branco:
Uns tantos destroços vulcânicos
Coagulados.
Nada afunda
E nada se fundamenta.
Nenhum navio transita.
Não há naufrágios.
AFASTAMENTO
Com carvão desenho um perfil na tela.
É todo um ser de proximidades.
Recuo alguns passos:
O entorno enquadra o quadro.
Mais alguns passos para trás:
O entorno do entorno o engole.
Recuando ainda mais:
O entorno do entorno do entorno
Toma tudo para si:
Já não vejo o que pretendera representar.
O poema te procura,
Remota ânsia,
Matéria escura;
Sons andarilhos.
Sino de faiança,
Chamado estranho
À tua vizinhança.
O poema concentra,
A tua distância
Na cela acesa,
Sol amparado,
Céu reduzido,
Vôo simulado
De ave presa.
O poema te arma,
És sentinela,
A mão na faca
Atrás da porta;
Hirto, velas,
No próprio pulso
As horas cortas.
O poema te detém
Remotamente,
Grato refém
Desse exercício,
Louca assistência:
Içar palavras
Suicidadas
No precipício
Da existência.
CYCLADES
A mesma folha
Enche-se de ilhas,
Uma, duas, cem.
Logo está saturada
De Cyclades
Flutuantes
Sobre abismo branco:
Uns tantos destroços vulcânicos
Coagulados.
Nada afunda
E nada se fundamenta.
Nenhum navio transita.
Não há naufrágios.
AFASTAMENTO
Com carvão desenho um perfil na tela.
É todo um ser de proximidades.
Recuo alguns passos:
O entorno enquadra o quadro.
Mais alguns passos para trás:
O entorno do entorno o engole.
Recuando ainda mais:
O entorno do entorno do entorno
Toma tudo para si:
Já não vejo o que pretendera representar.
![]() |
| Magritte, A Condição Humana, OST, 1933 |
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Serei Poeta?
domingo, 19 de dezembro de 2010
Quatro Poemas
ANALOGIA
É preciso limpar o sifão da pia.
Que simbólico é esse sifão da pia!
Uma curva que cria um lago,
Certo Letes represado
Que faz o esquecimento dos miasmas,
Do mau cheiro subterrâneo.
Um poeta limpando o sifão da pia.
- Vamos, vamos, Orfeu! Mãos à obra!
CODA
Eu a vejo encarquilhada
Junto à janela,
O olhar perdido,
Espantando as moscas
Persistentes
Num almoço distante.
Muito distante.
Eu a vejo encarquilhada
Junto à pia da cozinha,
Manipulando
Irritantes inutilidades,
Agora a faca e o tomate
Vermelho.
Eu a vejo encarquilhada
À mesa,
O garfo suspenso,
A refeição-esfinge.
Não há o que nutrir.
Eu a vejo encarquilhada
No leito.
Deitada de lado.
O braço estendido,
A mão espalmada
Para um óbolo abstrato.
A outra sobre a face.
Há dois sulcos fundos
Entre as sobrancelhas
ILUSÂO
É ilusório que eu transgrida
os teus ritos, ó rotina;
não sabia que eras retina.
EXPOSTA
(Após leitura de um poema de Mirze Souza, aqui)
Todo o meu pesar,
Empatia aflita,
Pela histórica ruptura,
Fratura de um sonho
Que jamais solidifica.
É preciso limpar o sifão da pia.
Que simbólico é esse sifão da pia!
Uma curva que cria um lago,
Certo Letes represado
Que faz o esquecimento dos miasmas,
Do mau cheiro subterrâneo.
Um poeta limpando o sifão da pia.
- Vamos, vamos, Orfeu! Mãos à obra!
CODA
Eu a vejo encarquilhada
Junto à janela,
O olhar perdido,
Espantando as moscas
Persistentes
Num almoço distante.
Muito distante.
Eu a vejo encarquilhada
Junto à pia da cozinha,
Manipulando
Irritantes inutilidades,
Agora a faca e o tomate
Vermelho.
Eu a vejo encarquilhada
À mesa,
O garfo suspenso,
A refeição-esfinge.
Não há o que nutrir.
Eu a vejo encarquilhada
No leito.
Deitada de lado.
O braço estendido,
A mão espalmada
Para um óbolo abstrato.
A outra sobre a face.
Há dois sulcos fundos
Entre as sobrancelhas
ILUSÂO
É ilusório que eu transgrida
os teus ritos, ó rotina;
não sabia que eras retina.
EXPOSTA
(Após leitura de um poema de Mirze Souza, aqui)
Todo o meu pesar,
Empatia aflita,
Pela histórica ruptura,
Fratura de um sonho
Que jamais solidifica.
![]() |
| Marcantonio, O Avesso do Jornal 10 Técnica Mista - 1994 (Aqui) |
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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Um Poema sobre o Natal e mais Dois Agregados
NATAL
As sombras da noite, lá fora,
remontam à era pré-histórica
quando os fósseis de agora
andavam sobre a terra
sem museus,
sem feriados,
sem cristos,
sem bem nem mal,
sem Natal.
Aqui dentro, a película da luz artificial
sobre as faces se estende esfacelada:
estão todos pregados em suas cruzes
alugadas.
Há desamparo,
mas reparo que só há bocas
que queiram sorver cardumes
de iguarias natalinas,
para emudecer os queixumes
de suas vidas bovinas.
Eis que o chefe da família,
perfeito homem de negócios,
começa a partir o peru
exemplar de uma espécie
que no futuro será fóssil.
Fóssil como o próprio futuro
sem museus,
sem cristãos,
sem feriados,
sem negócios,
sem bem nem mal,
sem natal,
só ócio.
ERRO
É um sofrimento
nem tudo dizer do que quero:
falo do que posso tal como posso
e espero.
Abre-se um fosso, rasgo exangue
De onde nenhum alívio sobrevém:
a palavra errada flutua no pus,
inútil refém.
SEMPRE INÉDITO
Não exijo coerência dos pássaros,
permanência ou conseqüência.
É todo um canto absorto
que explode no ar da manhã!
Como errantes partículas,
todos esses estrídulos brilhantes,
essas bolhas de luzes sonoras,
som que tem cor que em nenúfares
se transforma.
Não perguntarei amanhã:
- Eram vocês que cantavam ontem?
Será uma beleza sempre outra
que nunca poderá ser datada.
As sombras da noite, lá fora,
remontam à era pré-histórica
quando os fósseis de agora
andavam sobre a terra
sem museus,
sem feriados,
sem cristos,
sem bem nem mal,
sem Natal.
Aqui dentro, a película da luz artificial
sobre as faces se estende esfacelada:
estão todos pregados em suas cruzes
alugadas.
Há desamparo,
mas reparo que só há bocas
que queiram sorver cardumes
de iguarias natalinas,
para emudecer os queixumes
de suas vidas bovinas.
Eis que o chefe da família,
perfeito homem de negócios,
começa a partir o peru
exemplar de uma espécie
que no futuro será fóssil.
Fóssil como o próprio futuro
sem museus,
sem cristãos,
sem feriados,
sem negócios,
sem bem nem mal,
sem natal,
só ócio.
ERRO
É um sofrimento
nem tudo dizer do que quero:
falo do que posso tal como posso
e espero.
Abre-se um fosso, rasgo exangue
De onde nenhum alívio sobrevém:
a palavra errada flutua no pus,
inútil refém.
SEMPRE INÉDITO
Não exijo coerência dos pássaros,
permanência ou conseqüência.
É todo um canto absorto
que explode no ar da manhã!
Como errantes partículas,
todos esses estrídulos brilhantes,
essas bolhas de luzes sonoras,
som que tem cor que em nenúfares
se transforma.
Não perguntarei amanhã:
- Eram vocês que cantavam ontem?
Será uma beleza sempre outra
que nunca poderá ser datada.
![]() |
| Van Gogh, Os Comedores de Batatas, óleo s/ tela, 1885 |
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domingo, 12 de dezembro de 2010
Três Novos Poemas
AS HORAS DISPARADAS
Oh, meu amor, sei que teus olhos coniventes
Conhecem todos os rios vermelhos
Desenhados nas luas brancas dos meus olhos.
Foram tão infecundas todas as horas
Que não consumimos no amor!
Eram elas estes animais cruéis
Que nos levam em suas costas.
Não sei do que é feito o corpo dessas horas.
Será do mesmo carbono que está em nossa fragilidade
E no corpo do diamante faz a pele dura?
Quando outrora tentei lhes cravar as esporas
Elas não desembestaram o passo;
Se agora lhes puxo o freio, cínicas relincham,
Rindo das rédeas absurdas que tenho nas mãos.
Elas têm o olhar ríspido e fixo dos celerados;
As narinas hirtas, amplos túneis
Para o trânsito de um vento finito.
Oh, meu amor, sobre nós o céu tem rotas pavimentadas,
Para a corrida sem fim das nuvens amortecidas e vaporosas.
Mas, aqui no solo, já nos fere os olhos apavorados
A poeira que sobe como limalha de alumínio,
E o óleo queimado que das visões escorre
Não serve para lubrificar nossos músculos
Ou as cartilagens ressecadas da espinha que nos sustenta.
Gostávamos desse vento quente na cara
Sem saber que ele era a nossa perdição:
Achata as nossas feições
Como se tivéssemos os rostos contra uma vidraça
Que um mínimo sorriso pode trincar;
Vem erodindo em nós o frontispício
Das nossas esperanças;
Desidrata nossas pálpebras e lábios;
E pincela ácido em nossas cordas vocais
Para que não blasfememos contra o outono.
Oh, meu amor, já me caem dos bolsos os fatos irrelevantes,
As poucas moedas, as balas de hortelã, as chaves
Uma a uma, e meu mini-dicionário de hieróglifos.
E ainda sinto tão virgens as solas dos meus pés!
É urgente que falemos com os olhos
Porque as borboletas carinhosas que me saem da boca
O vento as arrebata e esfarela antes que toquem teus ouvidos.
Agarra, meu amor, os meus dedos,
Que como os teus já são garras limadas,
Que não conseguem lanhar o dorso do tempo:
Não poderemos saltar sem arrebentarmos nossos corpos
No rastro de pedras frias e cortantes
Trituradas pelos cascos das horas disparadas.
COMPAIXÂO
Tenho universal ternura
por todos os derrotados:
nós que temos cota finita
de ar para ser inspirado.
REVISÂO
Faço essa noturna leitura,
Quiromancia do presente:
Todas as linhas do teu corpo
Nas minhas mãos conferentes.
Oh, meu amor, sei que teus olhos coniventes
Conhecem todos os rios vermelhos
Desenhados nas luas brancas dos meus olhos.
Foram tão infecundas todas as horas
Que não consumimos no amor!
Eram elas estes animais cruéis
Que nos levam em suas costas.
Não sei do que é feito o corpo dessas horas.
Será do mesmo carbono que está em nossa fragilidade
E no corpo do diamante faz a pele dura?
Quando outrora tentei lhes cravar as esporas
Elas não desembestaram o passo;
Se agora lhes puxo o freio, cínicas relincham,
Rindo das rédeas absurdas que tenho nas mãos.
Elas têm o olhar ríspido e fixo dos celerados;
As narinas hirtas, amplos túneis
Para o trânsito de um vento finito.
Oh, meu amor, sobre nós o céu tem rotas pavimentadas,
Para a corrida sem fim das nuvens amortecidas e vaporosas.
Mas, aqui no solo, já nos fere os olhos apavorados
A poeira que sobe como limalha de alumínio,
E o óleo queimado que das visões escorre
Não serve para lubrificar nossos músculos
Ou as cartilagens ressecadas da espinha que nos sustenta.
Gostávamos desse vento quente na cara
Sem saber que ele era a nossa perdição:
Achata as nossas feições
Como se tivéssemos os rostos contra uma vidraça
Que um mínimo sorriso pode trincar;
Vem erodindo em nós o frontispício
Das nossas esperanças;
Desidrata nossas pálpebras e lábios;
E pincela ácido em nossas cordas vocais
Para que não blasfememos contra o outono.
Oh, meu amor, já me caem dos bolsos os fatos irrelevantes,
As poucas moedas, as balas de hortelã, as chaves
Uma a uma, e meu mini-dicionário de hieróglifos.
E ainda sinto tão virgens as solas dos meus pés!
É urgente que falemos com os olhos
Porque as borboletas carinhosas que me saem da boca
O vento as arrebata e esfarela antes que toquem teus ouvidos.
Agarra, meu amor, os meus dedos,
Que como os teus já são garras limadas,
Que não conseguem lanhar o dorso do tempo:
Não poderemos saltar sem arrebentarmos nossos corpos
No rastro de pedras frias e cortantes
Trituradas pelos cascos das horas disparadas.
COMPAIXÂO
Tenho universal ternura
por todos os derrotados:
nós que temos cota finita
de ar para ser inspirado.
REVISÂO
Faço essa noturna leitura,
Quiromancia do presente:
Todas as linhas do teu corpo
Nas minhas mãos conferentes.
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Serei Poeta?
domingo, 5 de dezembro de 2010
Três Poemas
NÃO SEI O QUE É MANIFESTO
Eu não quero falar do pouco;
O pouco já está em minhas mãos.
Não me interessam as migalhas
Que já estão sobre a mesa
E grudam nos meus cotovelos.
Os passantes não me interessam.
Os transeuntes são o que são:
Untam-se de sol e suor
E passo derreado entre eles
Que comigo passarão.
Não quero falar da encefalite, da cefaléia,
Da artrite, da artrose, da isquemia
Ou de qualquer necrose da alma:
Farmácias são tão banais.
Os dramas repetidos, performáticos,
Já não são mais drásticos:
Eis o nosso solo comum.
Não quero falar dos cactos cordatos,
Da harpa lírica de arames farpados.
Também não entro em perfumarias,
Cosméticos não me interessam:
Os disfarces já são as faces.
Quero terminantemente
Ignorar o conseqüente:
Só me interessa o desavisado:
Como se afirma a negação.
Mas também não me interessam
As margens altas do que digo,
Esse porquê do dever dizer o que digo:
Não sei quem foi mallarmé,
Não sei se foi mal amado,
Só busco o precipício no qual se chocam os dados,
Se rolando vão barthes no inesperado, e daí?
Também não sei de lacan,
Se laico, lacrado ou sagrado,
Se césar, se cristo ou kristeva,
Se jakobson, se romance, se karamazovi
Se saussure, se salsugem, se salva de palmas;
Se freud, se foda, se forca;
Se jung, se unhas ou ungulados;
Se ossian, se cioran, se siderados,
Se fósseis ou fossas profundas;
Se deleuze, se de luzes ou sombras.
Não quero saber dos ecos,
De longe, de perto ou de humberto .
Não quero em apoteose orar a ti, ó teoria!
Eu quero falar do nada
Que não cabe em minhas mãos.
O que posso viver não preciso dizer.
O que quero dizer é o que não vivo.
E é vão. Não é tomara, ou oxalá.
Ainda te superarei, ó referência,
Com uma palavra deserdada,
Anti-palavra que nada dirá.
EROSÃO
Meu espanto maior
é não-fala,
raiz vital
erodindo por dentro
a rocha vocabular.
NATURAL
O teu corpo muda.
Mudo, o meu corpo
em si mesmo o percebe.
E daí, se nos transfigurarmos
enquanto nus brincarmos
nas águas do rio que segue?
Nossa nudez se integrará
à transparência.
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Serei Poeta?
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Quatro Poemas Para Receber Dezembro.
MESQUINHO
Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Nisso, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que eu não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.
Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não guardo
Escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?
Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.
VARIEDADES
Parece que o tamanho não diz respeito à poesia:
Não é documento que a habilite.
O poema é protéico,
Veste o mínimo,
Veste o máximo, veste o excedente.
Contém momentaneamente o trânsito.
A águia não cabe de volta
No ovo de águia.
O céu é o novo ovo
Da águia.
Mas os olhos da águia têm pupilas.
O bico tem uma curva agressiva.
Na cabeça da águia uma penugem
Vibra em paz ao vento.
A águia é uma panorâmica.
A águia é um close.
Cabe um corvo num haicai.
Cabem mil corvos num haicai.
Mas não cabe todo “O Corvo”
Num haicai.
VÉRTICE
Há momentos em que pasmo!
E o pasmo é um lacre
Sobre as horas restantes do dia,
Ver se torna adentrar uma fresta
Exclusiva.
Como agora: esse caramujo
grudado à vidraça epifenomênica
CONTRA-ATAQUE
Do meu próprio palavrório
Rio sintético.
Eu amesquinho as tuas asas
Enquanto ejeto os meus temores.
Nisso, eu mesmo me torno mesquinho
E verto um vinho que eu não beberia,
Vinho acre de volume amazônico.
Nas vielas em que me vejo
Comigo mesmo não cruzaria
Se fora antes advertido:
É que estou vindo esse ser soturno
Com as mãos nos bolsos sempre.
Quem me garante que não guardo
Escondida uma navalha
Para me desfigurar o rosto?
Ao menos sei que me avizinho,
E tenho um átimo de segundo
Para evitar a minha má companhia
Em sua descida aos subterrâneos.
VARIEDADES
Parece que o tamanho não diz respeito à poesia:
Não é documento que a habilite.
O poema é protéico,
Veste o mínimo,
Veste o máximo, veste o excedente.
Contém momentaneamente o trânsito.
A águia não cabe de volta
No ovo de águia.
O céu é o novo ovo
Da águia.
Mas os olhos da águia têm pupilas.
O bico tem uma curva agressiva.
Na cabeça da águia uma penugem
Vibra em paz ao vento.
A águia é uma panorâmica.
A águia é um close.
Cabe um corvo num haicai.
Cabem mil corvos num haicai.
Mas não cabe todo “O Corvo”
Num haicai.
VÉRTICE
Há momentos em que pasmo!
E o pasmo é um lacre
Sobre as horas restantes do dia,
Ver se torna adentrar uma fresta
Exclusiva.
Como agora: esse caramujo
grudado à vidraça epifenomênica
CONTRA-ATAQUE
Do meu próprio palavrório
Rio sintético.
![]() |
| Ilustração de Doré para "O Corvo" de Poe |
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