Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

domingo, 1 de maio de 2011

Quatro Poemas Desocupados No Dia do Trabalho

MARINHA

Teu ser, palavra,
De tocar a orla
E retornar;
De verter-te ao seco
E o enlamear;
De trazer à praia
Um fundo de mar.

Ter seu, palavra,
De concha sem par.


ÁUGURE

Sonhei
Que de um céu azul
Nunca antes tão azul,
Chovia
Pássaros mortos.
Caiam durante o vôo,
Aniquilados por ataque
Cardíaco,
Aérea catalepsia
Ou falta de combustível.

Era o mundo da poesia
Onde a vida fora impossível.


MONÓLOGOS

No pátio,
Um menino claudicante
Corre entre brinquedos
Espalhados,
E gritinhos incontidos
De chamar atenção:
Uma onomatopéia aflita,
Reiterada.

O pai, um idiota monoglota,
Fala ao celular há hora e meia:
É o seu brinquedo?
Seu serviço?
Seu compromisso?

O filho
É tão pequeno,
Tão pequeno,
Tão pequeno,
Quase invisível,
Quase inaudível.


KLEE

De miniaturas
Seria feita a eternidade,
E tu, engenheiro da exigüidade,
Ainda almejarias mais singeleza.

Com caligrafia lúdica,
Uma criança perpassa
Tudo o que fizeste:

Múltipla beleza,
Mínima escrita,
Máxima poiésis.

sábado, 16 de abril de 2011

Quatro Poemas Amorosos em Meados de Abril

I

Tu te lembras de mim
No teu futuro?
Tu me recordas
No augúrio que o tempo
Do enfim em ti cerzirá?

Tu me evocas
Na raiz
Das tuas preces
Quando, parece,
Sabes voar?

Tu me convocas
Nos redemoinhos
De presságios
Que te sugarão
Na fronteira
Entre o pretérito
E a alucinação?

Então te lembras
Da hora viva,
Da hora clara,
Em que perdido
Te encontrei,
Me encetando
Entre tuas coxas,

Me germinando
Nos gemidos
Da tua boca
Onde chorei
E num lampejo
Eternizado
Um universo
Em ti herdei.


II

A tua pele murmurosa
Impele pétalas de luz adocicada
A flutuarem, halo, ao teu redor.

Exultação de reflexos,
A loucura das nuances solares,
Fragrantes,
Dum instante submerso
Em amorenado ardor.


III

No varal da área,
Calcinha e sutiã,
Mistérios do teu corpo
Abertos à luz da manhã.


IV

São os filtros do amor,
Ver-te assim surreal,
Uma Vênus de Paul Delvaux
A flutuar na avenida central.


Paul Delvaux, Entry in The City, ost, 1940

sábado, 9 de abril de 2011

Três Poemas

SEM TÍTULO

Com o que sonhas quando o desespero te acossa
E angústia te espreme as vísceras?
Com o que sonhas se deambulas na rua cinzenta
E em cada rosto, atenta, uma sentinela te grita:
“Alto lá!” em vez de “Alvíssaras!”?

Com o que sonhas se já é alta a noite e teu sono
Um remoto anseio entre a insônia aguda dos objetos?
Com o que sonhas se vês do passado o furor quieto,
Resíduos, dejetos vivos de cada ação contrafeita,
A palavra engolida e o pré-fim dos teus projetos?
Com o que sonhas na rota dos algozes, se as ruas
Estacam nomeadas e as esquinas escuras vêm velozes?

Com o que sonhas de teu se o televisor rebelado
Permanece ligado e impõe a mitomania dos simulacros?
Com o que sonhas entre a ânsia retardada e a esperança
De voltar a qualquer ponto neutro, a qualquer rito sacro?
Com o que sonhas se tudo é fato e conformidade
Na paisagem fria das pequenas normas, mosaico
De geométricas formas de enganosa diversidade?

Com o que sonhas se nos corredores ermos e solenes
Perdes o riso, folguedo inválido da inocência proscrita?
Com o que sonhas se a cidade está repleta de acenos
Cínicos e mensagens bifrontes em que não acreditas?
Com o que sonhas se não és o dono das palavras, das horas,
Do acaso, e todos vêem nu o rei vestido em que te arvoras?

Com o que sonhas se tudo parece sempre o mesmo
Que se repetirá ainda hoje, amanhã e mais adiante,
E tu permaneces indivíduo que se vê não-semelhante?
Com o que sonhas de duradouro, em quadro sinóptico,
Se em ti guardas a morte constituindo-se, feto osmótico?
Com o que sonhas, ó arcanjo insone de face caída?
Sonhas com algum íntimo horizonte
Do qual não venha a hora perdida?


PROCESSO

Há sempre
versos malditos
que por fora
soçobram.

Enquanto
os bem ditos,
solidários,
não sobram.


ILHA

Aqui não há meio termo,
Ponto delimitado, claro,
Entre o são e o enfermo,
Entre o vulgar e o raro.

Ilha semântica recessiva
Em planos de luz saturada,
Suas bordas  imprecisas
Confinam enfim com o nada.


sexta-feira, 25 de março de 2011

Um Poema em Seis Partes



A IDA

A manhã me desperta,
Resmungona como uma dama da noite,
Exigindo o pagamento dos seus favores.
Tenho o rosto parvo e desiludido
De um adolescente que não sabia dos custos.
A manhã, com olhar oblíquo, cínico
E de sedução forçada, bate o pé e
Levanta a saia para me lembrar
A finalidade do nosso contrato.
Pagarei juntando todos os meus centavos,
Pétalas de flor já desfeita no meu bolso.

Haverá mais amanhã.

2

Aparo as minhas unhas:
Não quero tirar sangue
De outras mãos.

Calço o melhor par de sapatos,
Aquele que oculta o vão
Entre os meus pés e o chão.

Ponho os meus dentes à mostra,
Minha lua segmentada
De que todos querem uma fatia,
Mesmo sob um sol escaldante.

Os óculos! Os óculos!
Sem eles não posso ver
O desespero alheio que me consola.

Pronto. O meu corpo está pronto pra dragar
Os canais assoreados do dia.

3

Urbe et horda.
Está lá fora a hidra de sete cabeças
Multiplicadas em rede de fractais.

Não tenho doze trabalhos a realizar.
Apenas um: sustentar a flor da vontade
Que tomba com cabeleira ensolarada,
A face voltada à sombra memorizada.

Lá vou eu com meu bocado de ardis
Disputado por cães cruéis.
Sigo com a alma içada sobre as ruas,
Personagem ignorado
Dum afresco no topo da nave central
Congestionada de fiéis ou hereges.

Meus olhos aqui e ali aportam
Em alguma ilha fisionômica
(ou cômica):
Uns supercílios ejetados pela dúvida,
Um nariz rebelde, a salina de uma testa,
Uns cabelos que queriam ficar em casa,
Um queixo fugitivo; uma orelha ímpar.

Orelha?
Quando Van Gogh andava pelas ruas de Arles
Era chamado de louco. Fou! Fou! Fou!
Também sou louco, mas quem nota?
Quem sabe da loucura de um cão de Pavlov?
Mas, o meu amado Van Gogh era um ser patético,
(Sabia disso, menina com fones de ouvido?
Sabia? Sabia disso, senhor com óculos escuros?)
Ele era quase desdentado, devia feder
Em suas roupas velhas, em seus sapatos purulentos,
Seus chapéus engordurados de sol.
Em seu quarto cheirando a mofo, soprava teias de aranha.
Sua latrina devia ser fétida. Seu cachimbo tinha nódoas
De tinta seca. Ele nem tinha grana para o fumo.
Um incompetente, o Van Gogh, que largou o amarelo
Para tingir-se de vermelho.

Mas o que tem a ver Van Gogh
Com a faixa de pedestres no sinal de trânsito?
O que tem Van Gogh com serviços bancários
E lugares assépticos com ar condicionado?
O meu estômago nauseado é antiquado,
E inepto para navegações!
Ó amigos argonautas, me despeçam no próximo porto
Desse oceano de gente!

Mas, sigo.

4

Ocorre-me argumento filosófico
Em plena Avenida Rio Branco:
Deve haver um deus
Porque, às vezes, finjo ser ele.
Ou finjo ser o meu pai que me acudia
E morreu sem me consultar?

Prossigo.

5

Tenho o privilégio de saber
De tudo o que não muda nada,
O que não cria atalhos
Para o velo de ouro na área
De trabalho.

Vontade de cuspir uma palavra
Para cada palmo abstrato de chão.

6

Prossigo.

A nuca do ascensorista encaneceu
de susto entre um andar e outro.
Talvez porque ele tenha descoberto
Que era apenas um estranho caronte,
Cordato, pago por atacado.
Os seus dentes foram amarelando
De sorrisos obrigatórios
De tanto dizer bom dia! Boa tarde!
Sobe, desce, sobe, desce!

Todos no elevador olham para o número dos andares
Como se fossem crucifixos em capelas.
Eu não, pois tenho o olfato apurado.

Desembarco e prossigo:
No corredor há uma só porta válida,
As outras são falsas:
Dão para o vazio de outras vidas.


quarta-feira, 16 de março de 2011

Dois Poema Para Meados de Março

ESPERANDO

Tenho um caderno novo, brochura sem valor,
para encher de versos:
pautas azuladas sobre brancura de dentifrício,
ou do avesso do ovo.
Mas, que garantia há de que esses pássaros adventícios
virão empoleirar-se nas linhas?
Talvez não convenha dizer poleiros,
que sugerem norma ou conduta
de apresentar-se de boa vontade
e no tempo propício.
Melhor seria supor este caderno barato
um aparato de astúcia,
artifício, isca, rede ou arapuca
para pássaros não cordatos, ariscos.

Então essas páginas se abrem ao espaço aéreo?
Seriam rarefeitos os caminhos para a captura das letras
neste território que em urdidura as constrange?
Preferia pensar esta folha um terreno de mistério
fecundo, um habitat já com seus seres ocultos,
e o diria um mangue
para escapar à imagem gasta da semente
que em si já traz a árvore latente.
Portanto, identificaria os versos aos caranguejos:
quem sabe se já estão aqui e não os vejo,
enfronhados na lama branca?
Mas até onde teria de mergulhar os braços neste nada
para trazer à luz uma de tais criaturas articuladas
e com grandes tenazes-lanças?

Sim, eu sei: este solo alvo não é movediço,
e talvez venha ao caso sonhar o mais difícil:
sejam estas folhas francas estradas
com pavimento de mármore, emendadas
em outras vias, uma invisível extensão
do mesmo plano, mas em diverso chão
(talvez, estradas das quais kerouac algum
jamais tenha feito um haibun),
e por elas chegarão os versos, viajantes famintos.

Mas, em se tratando de estradas,
teriam dois sentidos, dupla mão.
Assim, não conviriam:
como são inconstantes, mesmo andarilhos,
poderiam inverter seu caminho os versos,
ou ainda fugirem por sentido transverso.

Hei de esperar novamente
por versos que viriam de cima
para o plano deste caderno
oblíqua ou verticalmente?

Ora, por que não imaginar na verticalidade
um meio termo entre ascensão e pouso,
forma elevada de repouso:
uma construção?
Quem sabe já não estariam aqui
tão claras a planta e a fundação?
Mas aonde eu buscaria o material
para firmes colunas e vigas
que não estão no papel?
E como abrir poético umbral
sem um metafórico dintel?

O que sustentaria de firmamento
sobre a minha extensa planura,
refletindo-se exata na folha pura,
senão um abstrato monumento
ou uma casa escura para o vento?

Não podendo nada construir, edificar,
restaria, quem sabe, corroer o próprio solo,
e o degradar?
Melhor lançar sobre o papel a única palavra
em mim retida: a acidulada palavra silêncio.
Que ela, sem mais demora, se entremeie às fibras!
Que prossiga escavando, fuinha corrosiva,
até que fure a contracapa colada na face da vida,
vazando como palavra úlcera ou, mais eufêmica,
palavra ferida.


NA PRAÇA

Estátua equestre,
ríspido pombal.
Na mão erguida
aguda espada
contra o céu.

Lavoura aérea
de óxidos,
dorme o sono
cinzelado
de condottiere
deserdado
e ao léu.




















Marcantonio

domingo, 6 de março de 2011

Mais Dois Poemas

COLEÓPTEROS

Não posso falar dos animais da savana africana:
para mim eles têm a vida plana
das ilustrações ou das imagens de TV.
Quando no zoológico,
são episódicos,
parciais
e tristes. Vestidos a caráter para as tardes
de domingo.

O que posso falar dos cavalos?
Puxavam carroças de feira
pelas ruas estreitas da minha infância.
Eram boçais e cabisbaixos aqueles cavalos pardos.
Não tinham o mistério e a altivez das bestas de Géricault.
Desde então, é raro ver algum de perto:
vez ou outra um atravessa, surrealista,
qualquer via urbana perto da minha casa,
ainda cabisbaixos, parecem perdidos sem suas carroças.
De seus irmãos do turfe eu só poderia falar em teoria,
tão distantes de mim quanto os animais da savana africana.

E os bovídeos? Pouco a dizer sobre eles:
ruminam enjoados nos pastos da metáfora
sobre rebanhos humanos.
Talvez sejam os melhores amigos do homem,
quando nos frequentam em postas, sanduíches
e caixinhas tetra pak.

De cães e gatos domésticos o que falar?
Já não são exatamente bichos
nem interessam às minhas fábulas:
ocupam algum status de humanidade
situado entre as crianças
e as coleções de selos.

Aves?
As mais próximas são os pombos. Já são tão vulgares
vivendo entre os telhados e as calçadas.
Nem se restringem mais às praças
onde sonhavam ser condores... Dizem que perturbam
a pax urbana.

Um bicho que eu prezasse mesmo
e do qual quisesse falar
teria de ser estranho, excêntrico, embora real,
tal qual um iguana espartano
que certa vez flagrei no meu quintal:
forma de vida na fronteira entre dois reinos,
planta? Animal?
Era o meu camaleão com defeito
no mecanismo de sintonia de cores.
Mas a sua paciente (ou assustada) imobilidade
me incomodou como um tipo de carapuça
que eu deveria vestir.
Os bombeiros o recolheram.

Mas admiro mesmo os coleópteros
assustadores com sua blindagem existencial
(com a exceção das joaninhas, dóceis bijuterias).
Quando surge um besouro
no meu território de eremita,
é como um marcador vivo
entre as páginas do meu silêncio,
uma aparição mista de dragão e guerreiro.

Dá gosto de vê-lo em sua indiferença
de broche de basalto,
de pequeno mostro inofensivo, mas injustiçado:

de apenas imaginar o contato
das patas de um escaravelho, 
as almas sensíveis já se arrepiam.


Mas que outro ser é tão terreno
e capaz de atravessar o dia
como um signo terrífico da noite
que entre as patas carrega o sol?


NA FACE DO EDIFÍCIO

Toda janela
Seria um óculo?
Uma cavidade ocular?

Toda janela
Seria o obturador
De uma câmara habitada?

Seriam olhos vazados
As janelas escuras
Dos cômodos desabitados?

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Dois Poemas


FIXIDEZ



Tu sabes não é mesmo? Tu sabes perfeitamente
quanto seria bom nada ter a dizer:
a alma tornada assim, de súbito, uma árvore,
ou a carcaça de um velho automóvel
num ferro-velho.

A árvore nada fala, é o vento que farfalha
entre as folhas
que em conjunto nunca foram os cabelos
despenteados da árvore.
As folhas sempre foram sempre foram... Folhas.
Certamente tu jamais as perceberas como tais
antes que caíssem.
E bem sabes que se o vento trouxesse uma folha
ao teu quarto, dirias: de onde veio esse anjo?
Sim, porque perceberas primeiro que os anjos caem,
e talvez a copa de uma árvore seja uma das inúmeras
formas que o céu pode assumir.
Ocorre que os anjos têm asas e as folhas não;
e se os anjos caem é porque perderam as asas
em algum tipo de outono,
ou espécie de muda, num ciclo inverso ao das borboletas
oriundas de lagartas. Caem os anjos em casulos de sono
e acordam lagartas.
E não é fato que lagartas habitam as arvores?
Por isso é até admissível que uma copa frondosa
possa ser uma subespécie de céu,
mas não que uma folha seja um anjo,
pois estes se alimentam de folhas verdes e tenras.
Enfim, até aqui sabemos
que os anjos caídos já não são mais anjos
assim como a folha caída já não é mais árvore.

Mas entendo o teu pensamento: a folha é uma carta
enviada pela vida à atmosfera asséptica do teu quarto
de onde retiras todos os sinais invasivos da morte
sem perceberes que a morte é também maníaca por limpeza.
Então a folha que entrasse pela janela
seria realmente a anunciação, não de algum nascimento,
mas de uma perda que macula o teu chão.
Considera, porém: se a entrega dessa carta é feita pelo vento,
este não seria Zéfiro,
E sim Hermes que tinha asas presas aos tornozelos
e não às costas como os anjos.
Vê como é difícil escapar dos anjos, das asas, dos carteiros
e dos resíduos da morte?

Suponho que, irritado, jogarias essa folha no vaso sanitário
e a verias sumir por obra de uma sonora descarga.
Talvez assim a folha ex machina se tornasse um peixe!

Eu juro que não pretendera dizer desde o início
que as folhas sempre foram sempre foram... Peixes!
Embora pudesse agradar à alma que teima em muito dizer,
dizer também que a copa de uma árvore é todo um cardume
de peixes secos, pendurados e farfalhentos.
Ora, isso seria um absurdo mesmo para uma alma insana:
afinal, o que comeriam os anjos? Peixes?
Ah, que tipo de mutação constante suportaria a folha
dessa árvore quase genealógica, quase taxonômica?
Não, eu pretendera dizer mesmo que folhas sempre foram
apenas folhas.

Eis porque nós dois sabemos o quanto seria bom
se a alma se tornasse fixa como uma árvore
que delegasse a eloqüência transitiva ao vento
farfalhando entre as folhas apenas folhas.

Oh, eu me esqueci da carcaça de automóvel no ferro-velho
pela qual falam os óxidos e as intempéries,
assim como fala o vento nas árvores!
Havia tanto a dizer sobre essa carcaça... Mas, ela se basta.


COLORAÇÕES

A pele porosa
Filtra a ganga
De óxidos
Dolentes.

Apenas aglutino
O pigmento
Que se origina
No ambiente.

A boca franca
Restitui
Água-tinta
Impermanente.


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Três Poemas

HIDROLATRIA

Cristais de sal
a memória:
conserva a vida
desidratada.

Ressequido
anseio o mar:
memória diluída
n’água.


DIAGNOSE

Tu achas que sou triste?
Será em razão de haver na água dos meus olhos
fragmentos do solo das luas que jamais viste?

Ou deve-se ao ar de mistério que sai das minhas narinas
aquecido por um sol que nunca raiou noutro hemisfério?

Talvez seja porque me fuja da boca um rio afluente
De sílabas que vez alguma me retornou da foz alheia.

Ou porque as minhas mãos não saibam como plantar
uma árvore na fronteira entre o outono e a primavera.
Não há fronteira exata entre o outono e a primavera?!
Talvez esse seja o motivo.

Ou então porque a estrutura óssea dos meus pés
Não seja apropriada para caminhar sobre um solo
Feito de farelo de ossos.

Afora isso,
Não sei qual a razão de achares que sou tão triste.




amplos
separados
campos 
de cor

azul crença 
de
céu

vermelho carne
avesso
incréu

ocre terreno
ao léu
espelho
vindouro

amarelo anel
anelo
d’ouro
insólito
eloqüente
solvendo
-se

no vácuo
logos
silente


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quatro Poemas de Meados de Fevereiro

ASFIXIAR-SE

[Publicado também em OGATODAODETE]

Estou exausto.
Corri para selar
todas as entradas do poema
antes que o mundo a ele retornasse.

Preguei madeiras em todas as portas,
janelas.
Vedei com cera cada fresta.
E os ralos. Sim! Sobretudo os ralos!

Não sei quanto ar ainda me resta.


EDÊNICO

Cidade pequena,
Pequena cidade,
Os olhares
Das tuas janelas
Querem me desnudar.
Mas por que me devo
Envergonhar
Com essa falta de siso
Se sempre quis voltar
Nu ao paraíso?


VANTAGEM

Vontade de me ver virando uma esquina
E me dar uns quinze minutos de dianteira,
Para que, ainda que eu vá no meu encalço,
Já não me encontre mais pela vida inteira.


BERCEUSE

Em pé na orla. Olhos fechados.
O horizonte me sopra a face.
O horizonte me chega às narinas.
O horizonte murmura aos ouvidos.
O horizonte envolve os meus pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia fui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Três Poemas No Início de Fevereiro

ESPERANÇA E MEDO

Você permanece uma manhã brilhante
Engastada no meu peito que entardecia,
Então todos os pássaros do meu mundo
Não fazem senão saudar a sua chegada.

Toda essa seiva de sol sempre nascente,
Inoculada nas minhas veias viciadas
No fluxo mortiço das horas nubladas,
Talvez signifique que este súbito apego
À vida jamais se oxidará no meu corpo.

É por tanto que temo que esse encontro
Embriagado da aurora com o crepúsculo,
Se atire de peito aberto, suicida precoce,
Alucinado, sobre a lâmina afiada da noite.


PLANALTO

Do alto de mim
Observo-me:
Tal servo da terra,
Das coisas.

Do alto de mim
Observo-me:
Severo espectro
Com olho de pássaro
Adicto ao mundo.

Pastor de perguntas
Mancas, erradias,
Desgarradas das trilhas
Dos costumes.

Do alto de mim,
Megafone em punho,
Espantalho de gestos
Desesperados,
Figurante de cenas
Não filmadas,
Locutor de mensagens
Cifradas,
Encenador habitual
De fantasmagorias,
Este que se altera
No alto de mim,
Guarda de trânsito
Multando-me os sonhos
Estacionados
Nas amplas calçadas
Sem transeuntes
Que há sob mim.


SUSPENSÃO DE JUÍZO

Não busco mais definições.
Apenas observo a cortina
Esvoaçando
Contra o frontispício do mundo.

Decididamente não busco mais
Teoremas.
Descuido-me enfim dos adjetivos
Dos pronomes retos, oblíquos
E demonstrativos.

Somos artigos indefinidos:
Eu, tu, ele... Nós? Quem sois vós?
Vozes passivas ou reflexivas,
Expelimos grunhidos.

E o particípio morrendo?
E o gerúndio vivido?

Patéticos,
Nós, postos, opostos,
Ainda recorrendo
Ao superlativo absoluto sintético.

Mas que sujeito ainda se perderia
Na absoluta síntese?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Dois Poemas

UM E OUTRO

Quando escrevo,
um barco afasta-se do ancoradouro,
uma enxada crava-se na terra,
ou uma vindima se inicia.
Mas não são as minhas mãos
que movem o leme,
manejam a enxada
ou recolhem os frutos ao cesto.
Não são estas mesmas mãos
que me fazem a barba,
que seguram os talheres,
que contam moedas.

Tampouco os olhos que acompanham
a pesca ou a semeadura ou a fermentação
das palavras,
são estes mesmos em mim já habituados
à ortogonia do cotidiano
e suas paisagens de alvenaria.

Quando escrevo, nem o dia é mais aquele
que só teve uma aurora,
as horas perdem espessura
e se guardam em fascículos,
e uma parte rarefeita de mim
foge pelos micro-exaustores dos segundos
para um dia sem geometria,
enquanto, outra parte, permaneço
no anverso do momento,
sentado à mesa banal
com uma caneta na mão
sobre uma folha de papel inerte:
pele a ser rompida a partir do avesso
ou mármore a ser entalhado
por dentro.


ÚLTIMO DE SUA ESPÉCIE

Imagino que todo o mundo visível
estreitara-se aos teus olhos dormentes
numa faixa claustrofóbica
de relevos embaçados:
teu friso final de Partenon.

Ali tu indicaras alguma coisa, uma visão
uma memória.
Como interpretar teu último gesto,
solitário representante de uma espécie em extinção?

A- Se tua mão, pomba assustada, se erguera,
     dedos abertos, asas tortas e espalmadas, trêmula no ar,
     e se contraíra na metamorfose de outro ser alado
     em torno do indicador, súbito bico de colibri
     parado no ar para... Para quê? Sugar a última seiva
     das entranhas expostas da flor do horizonte
     esmagada entre o céu e a terra?

B- Talvez pudesses ouvir um coro de anjos,
     desejoso de acompanhar com o dedo
     as notas saltitando numa partitura invisível.

C- Quem sabe não seria um único anjo a se se aproximar,
     confirmando que de fato usa um capuz
     e traz uma foice ao ombro?

D- Ou tentavas tocar os ponteiros de um relógio
     para retrocedê-los a um ponto virgem
     do mostrador?

E- Seria aquele túnel? O tal túnel, o famigerado túnel.

F- Ou a descoberta de algo que não deverias deixar para trás,
     aquele rosto redivivo, aquele amor não vivido,
     algum erro irreparável?

G- Seria possível que tudo voltasse subitamente, de uma só vez
     a vida em roldão, uma onda concentrada, embriagante,
     um anestésico?

H- Seria apenas o botão liga/desliga? Off: já é hora
     de dormir.

Foi quando reparei na tua outra mão
que se agarrara a tua própria coxa.
Ela não era um pássaro, era talvez um ser terrestre
com fortes mandíbulas, e que não queria partir.

Então, o último suspiro,
a devolução do beijo roubado à vida,
e a mão direita abatida em pleno ar.
Teus olhos já na tinham velas
e o mar parara.
Tua cabeça já era um fruto sem polpa.
Na testa uma tatuagem que começava
a se apagar com o fim de todas as perguntas.

E eu fiquei um hermeneuta impossível
do teu último gesto.

Friso interior do Partenon (detalhe) - Museu Britânico, Londres

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O Bigode de Nietzsche e Mais Dois Poemas

O BIGODE DE NIETZSCHE

Parece haver algo
De um estranho sorriso
No bigode de Nietzsche.

O bigode de Nietzsche
Parece um arco ogival
Sobre o abismo.

O bigode de Nietzsche
Parece um desejo
Involuntário de calar.

O bigode de Nietzsche
Parece
Sombrear um segredo
De antes do meio-dia.

O bigode de Nietzsche
Parece uma esponja
Umedecida em vinagre.

O bigode de Nietzsche
Parece martelar
Seu queixo.

O bigode de Nietzsche
Parece um viajante
Solitário
Que chega à cidade
Antes que Nietzsche.

O bigode de Nietzsche
Parece transcendê-lo,
Metafísico.

O bigode de Nietzsche
Parece augurar
Sua loucura
Às caricaturas.

O bigode de Nietzsche
Parece ao senso comum
A orelha-de-van-gogh
De Nietzsche.

O bigode de Nietzsche
Parece dizer a Nietzsche:
In hoc signo vinces.

O bigode de Nietzsche
Parece uma túnica
De corifeu.
Ou uma máscara
Humana
De Dioniso.


FALTAM OS NEXOS

Na atmosfera do museu,
Meus artefatos convivem,
Como inimigos civilizados.

Sou um arqueólogo triste
Das primeiras camadas
De um dia que entardece,
Lá, naquele terreno extinto
Das horas enterradas vivas;
Lá, onde todos os utensílios
Tinham  nexos espontâneos,
Os mesmos nós que emendam
As águas soltas num rio,
Ou o potente adesivo
Que adere a flor ao ar.


O SINAL

O sol às vezes me acorda
Tocando-me a face
Com um beijo de Judas.

Friedrich Nietzsche, jovem.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Janeiro pelo Meio, Três Novos Poemas

TOM SOBRE TOM

O eu é o pronome mais opaco.
Tinta saturada de pigmento,
Pode cobrir uniformemente
A camada chamada mundo.

Chega um ponto, entretanto,
Em que ele não poderá mais
Ser aplicado de forma distinta,
Embora possa produzir texturas
Por acumulação de mesmice:
Serão grumos, calos, sulcos,
Sombras na superfície pleonástica
De uma mesmo cor. Matiz infeliz?


ASSIM FOI

Alguma coisa assim
De passos metafísicos
De formigas sem olfato
Caminhando sobre o açúcar;
De pasmo de abelhas
Deprimidas em colméias
Dietéticas.

No solo
Sombras de nuvens:
A barca tão plana e móvel
De quase-crepúsculos
Sobre a paisagem.

Na água
A lua enrugada,
Luar senil.

E ao longe
A ríspida oração de tudo
Que não está no meu âmbito,
Aquelas montanhas pairantes,
Aquela liga de estrelas,
Aquele espelho inundado de silêncio,

E a palavra não indigitada
Por uma mão divina
Já revogada sobre todas as coisas.


ALUCINADO

Não raro, sinto-me como se delirasse
Ao ver todas as coisas exatamente
Como os outros dizem que elas são.


Marcantonio, Hierarquia Relativa, Téc. Mista (2005)
(Clique na imagem para vê-la ampliada)
Outras imagens minhas Aqui

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

NOVOS POEMAS

ELES

Ah, os especialistas
E suas listas de dogmas.
Ah, os especialistas
E seus dogs raivosos
Em prontidão.
Ah, os especialistas
Com o cu na mão.
Os especialistas
E suas problemáticas
E seus conta-gotas
E sua secura desértica.

Ah, os especialistas
E seu tédio mecânico.
Os especialistas
E sua ignorância
Em pânico.
Os especialistas
E seu vinhos azedos,
Sua contenção urinária,
Seu medo
De sujar as calças raras.
Os especialistas
E seus feudos-segredos.


ASSALTO

É a própria vida
com suas tropas de assalto,
esmurrando a porta:

- Vamos levar algo de ti.

- Não!

- Ordens superiores!

Não me tranqüilizo
pelo saldo de balanço
da esperança:

amanhã eles voltarão
derrubando a porta.


VERBI GRATIA

1- De dentro

Sinto o caos,
Mas não posso descrevê-lo:
Precisaria ter de mim mesmo
A perspectiva do outro.

2- Dormência

Meu sonho entrevado,
em decúbito dorsal,
com escaras
nas asas dormentes.

3- Nunca consumado

Ó filosofia,
eu apenas te bolino
em intermináveis preliminares.

Rembrandt, A Aula da Anatomia do Dr. Tulp, 1632 

sábado, 1 de janeiro de 2011

Três Poemas no Primeiro Dia do Ano

COMUM

Sentado de frente para o mar
Não espero uma mensagem terrível;
Ele jamais a trará.

Já não temo abismos e maremotos
Nem a desafiadora escuridão
Que dominava o fundo remoto;

Pois o mar agora é somente planura
Como plano é o mundo,
Isento de loucura.

As nuvens ascendem
Como letreiros de um filme.
Não há mais diários de náufragos,
Ou o terror inconfessável
Vivido entre o zarpar e o aportar.
Nada de náuseas a bordo,
Sorvedouros, arrecifes e míticas fráguas;

Pois o mar agora é sólida planície
Como plano é o mundo,
E nada há de incomum
Em andar sobre as águas.


INCOMUM

Tenho medo de ver um morto,
Duas asas de pássaro
Sem corpo de pássaro,
Uma raiz sublevada no deserto
Como se fosse uma copa nua,
Umas conchas a quilômetros
De distância do mar.

Um morto:
Uma chave que não serve
Em mil fechaduras,
Uma nuvem recortada do céu
Que baixasse ao centro da cidade,
Um velocímetro sem ponteiro.

Um morto:
Um veleiro num vale seco,
Um dicionário sem ordem alfabética,
Uma criança que nunca mentiu,
Um cálice cheio de esterco.

Um iguana estático sobre a mesa do almoço.
Um morto.


EXTRAORDINÁRIO

O teu sorriso
Surge com a velocidade
Da luz.

O teu sorriso
É a ilustração rara,
Ardente iluminura,
Que eu tanto procurara
Para um poema
Que jamais serei
Capaz de escrever.