PLANAR E POUSAR
1 - Pluma
Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.
Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.
Ó pluma randômica, em que esquina de vôo poderias escapar
Da idéia de pássaro que te aprisiona?
2 - Osso
Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.
É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.
3 - Pouso
O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.
RECEPÇÃO
Ouvidos insetívoros
Captam zumbidos:
Com astúcias de flores vistosas
E um néctar ressentido
Atraem artrópodes melíferos
E os asfixiam no silêncio.
sexta-feira, 29 de julho de 2011
sábado, 23 de julho de 2011
Um Poema meu Ganhou Voz
Eu nunca havia escutado a leitura de um poema meu. Mas a experiência aconteceu-me agora: tive o poema Solidão lido no blog Me and You por Beth/Lilás. Devo dizer que é uma sensação curiosíssima - tão acostumado que sou à leitura silenciosa, à abordagem visual - me pareceu que o poema se tornara autônomo, livre, e o percebi de uma forma diferente, mais intensa. Realmente curioso isso.
A leitura de Beth é muito boa, sensível, mas límpida, sem excessos interpretativos. E o projeto dela é bastante interessante: propõe a leitura de poemas não apenas de poetas consagrados, mas daqueles que atuam na blogosfera; e ela almeja um espaço integrativo em torno da poesia.
Beth também mantém o blog Mãe Gaia: http://www.supremamaegaia.blogspot.com/ , e há lá uma interessante justificativa de seu novo projeto.
sábado, 16 de julho de 2011
Um Poema
ANIMAÇÕES
O que não se cansa?
Acaso a flor sente fadiga
De anunciar o advento
De uma cor que é dividida?
Fica exausto o córrego
De atritar suas vértebras
Contra as pedras?
E o mar? Sonha se opor ao vento
E fazer-se inerte dentro do abismo?
E esse ciclo das águas não quer cessar?
Não cansam as águas da metamorfose
Que as exila no céu?
E ali tornadas nuvens
Não enjoam de passar por anjos que quedam?
2
Aquela árvore parece um pêndulo de ponta-cabeça.
Um berço inarredável que balança.
Um rito obsessivo de acalanto mínimo,
Berceuse quase sem esperança.
As raízes tolas tremem temendo o vôo suicida,
Mas o tronco sabe que permanecerá de pé
Sob as veleidades da copa: por que cria ela
Vértices ilusórios em seus galhos?
Não cansa de implorar?
3
Ainda há o lago estável e desesperado,
Anti-Tântalo afogado que sonha com a secura
De não ter que sustentar o reflexo do cenário.
4
O edifício se envergonha de seu destino
De ponte inacabada, de pilar fracassado?
Céu o seu capitel...
5
As ruas não se cansam de suas visões interrompidas?
De não ver o destino que vira a esquina?
6
Portões se abrem e se fecham.
Não estão exaustos de serem páginas nunca viradas?
7
O jogo. A mesa de bilhar.
As esferas sonham naufragar nas caçapas.
A bola vencedora se regozija da sua solidão?
Não se cansa?
O que não se cansa?
Acaso a flor sente fadiga
De anunciar o advento
De uma cor que é dividida?
Fica exausto o córrego
De atritar suas vértebras
Contra as pedras?
E o mar? Sonha se opor ao vento
E fazer-se inerte dentro do abismo?
E esse ciclo das águas não quer cessar?
Não cansam as águas da metamorfose
Que as exila no céu?
E ali tornadas nuvens
Não enjoam de passar por anjos que quedam?
2
Aquela árvore parece um pêndulo de ponta-cabeça.
Um berço inarredável que balança.
Um rito obsessivo de acalanto mínimo,
Berceuse quase sem esperança.
As raízes tolas tremem temendo o vôo suicida,
Mas o tronco sabe que permanecerá de pé
Sob as veleidades da copa: por que cria ela
Vértices ilusórios em seus galhos?
Não cansa de implorar?
3
Ainda há o lago estável e desesperado,
Anti-Tântalo afogado que sonha com a secura
De não ter que sustentar o reflexo do cenário.
4
O edifício se envergonha de seu destino
De ponte inacabada, de pilar fracassado?
Céu o seu capitel...
5
As ruas não se cansam de suas visões interrompidas?
De não ver o destino que vira a esquina?
6
Portões se abrem e se fecham.
Não estão exaustos de serem páginas nunca viradas?
7
O jogo. A mesa de bilhar.
As esferas sonham naufragar nas caçapas.
A bola vencedora se regozija da sua solidão?
Não se cansa?
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sexta-feira, 1 de julho de 2011
Três Poemas no Início de Julho
ÁRIA E CORAL
( Para Tânia R. Contreiras)
Não canto para encantar as frontes
Nem para abafar o incêndio das pálpebras,
Ou para fazer nevar entre os lábios,
Ou para amortecer o tremor dos queixos.
Canto porque não sei eu mesmo
Chorar ou rir sem cantar,
Como uma engrenagem que range,
Como uma planta que se volta para o sol
Sem intenção de se iluminar.
E eu cantaria sozinho ou louco
Não fosse o canto ele próprio
Um ninho para o humano outro.
ARREBATAMENTO
(Para Assis Freitas)
Esperemos: o poema não demora.
Surge dum crepúsculo ao contrário,
Encerra-se suspenso, uma aurora.
ABANDONO
A rainha capturada,
O rei espera acuado,
Defendido pela torre
E espaçados peões.
Já se foram os bispos
Com suas mitras
E supostos condões.
E no descampado,
Derreado, submetido,
O último dos cavalos,
Pelo qual o monarca
Não poderia trocar
Reino algum,
Pois apenas lhe restou
Um quadrado exíguo.
Cai uma neve cinza
Há semanas no fixo
E quadriculado
Teatro de guerra:
E o jogo abandonado
Antes do lance final
Parece ter tornado
A partida
Uma derrota eterna.
( Para Tânia R. Contreiras)
Não canto para encantar as frontes
Nem para abafar o incêndio das pálpebras,
Ou para fazer nevar entre os lábios,
Ou para amortecer o tremor dos queixos.
Canto porque não sei eu mesmo
Chorar ou rir sem cantar,
Como uma engrenagem que range,
Como uma planta que se volta para o sol
Sem intenção de se iluminar.
E eu cantaria sozinho ou louco
Não fosse o canto ele próprio
Um ninho para o humano outro.
ARREBATAMENTO
(Para Assis Freitas)
Esperemos: o poema não demora.
Surge dum crepúsculo ao contrário,
Encerra-se suspenso, uma aurora.
ABANDONO
A rainha capturada,
O rei espera acuado,
Defendido pela torre
E espaçados peões.
Já se foram os bispos
Com suas mitras
E supostos condões.
E no descampado,
Derreado, submetido,
O último dos cavalos,
Pelo qual o monarca
Não poderia trocar
Reino algum,
Pois apenas lhe restou
Um quadrado exíguo.
Cai uma neve cinza
Há semanas no fixo
E quadriculado
Teatro de guerra:
E o jogo abandonado
Antes do lance final
Parece ter tornado
A partida
Uma derrota eterna.
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domingo, 19 de junho de 2011
Uma Entrevista, um Agradecimento
Por vaidade não seria, embora ninguém esteja livre dela, mas por uma agradável sensação de pertencimento que algo assim provoca em mim, pelo prazer de trocar e propor a troca de idéias e sobretudo para agradecer essa generosidade. Por isso falo aqui da entrevista dada ao Roxo-violeta (e simultaneamente publicada no Mínimo Ajuste) da Tânia R. Contreiras, e da qual participaram pessoas pelas quais tenho o maior apreço, às quais leio assiduamente e que também me honram como leitores que dão sentido a este blog.
É de ressaltar a inteligência da fórmula adotada para a entrevista, multifacetada, plural. Que seja a primeira de uma série com outros entrevistados que certamente têm muito a dizer.
A Tânia é pessoa muito querida, generosa, cujo amor pela poesia , pela literatura e pela arte, é de chamar atenção. E sou muito agradecido a ela por sua leitura, por seus comentários, que desde os primeiros tempos do Diário Extrovertido significaram para mim um inestimável incentivo e apoio. Obrigado a ela e a todos que participaram dessa experiência tão gratificante. E, claro, em se tratando da semana do meu aniversário, é um presente e tanto.
Roxo-violeta:
E uma agradecimento também ao Mínimo Ajuste, à Bípede Falante e à Cirandeira:
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Este é o meu Poema mais Verdadeiro
Este é o meu poema mais verdadeiro,
Aquele que já estava lá enquanto escrevia outros,
O solo que o sol cobria de dúvidas
Antes de se abrirem as estradas,
Não há, meu amigo, nada que não seja antigo
Porque quando tu chegaste tudo já estava aqui,
E não fizeste nada de inaugural:
A areia já se tornava vidro;
O carvão já se fazia palavra;
Cada folha de papel já vivera numa árvore
E todos os dedos já haviam beijado uma estrela,
Numerando-a.
Teus passos até aqui não fizeram mais
Do que cobrir uma linha pontilhada.
E quando o sol chegava a tua janela,
Inocente saudavas o dia-menino,
Mas era um ancião que te visitava.
Sossega. A tua palavra nunca fora um eremita
Que tornara do deserto com a boa nova.
E a argila que tanto maceras
Vem de um terreno
Que fora mais torturado pelos pés
Do que as uvas que não podem se transmudar em água.
Não te agrada que esse barro lhe escape entre as mãos
Como um bagaço de nervos.
E quando a figura com que sonharas se engendra,
Requer cuidado, o toque suave e polidor
Da polpa dos dedos,
Porque o disforme espera dentro da forma,
E qualquer resquício de poro o faria escapar.
Mas se deixas a tua estatueta secando ao sol
E sais para tomar um trago, ou fumar um cigarro,
Percebes que estás caminhando numa galeria
De estátuas frias iguais a tua.
É à noite que entendemos melhor o dito
De que não há nada de novo sob o sol,
Pois a rede de estrelas seca repetidamente
Sobre o céu azul de cada manhã,
Tal qual o meu crânio se oculta, uma lua
De fundas crateras sob a cortina da carne.
E o meu crânio já fora esquadrinhado
Antes mesmo que eu nascesse,
Um pequeno satélite onde se gravaram por sulcos
Meridianos, equadores e trópicos.
Digo-te que não é senão quando as coisas se suspendem,
Esfaceladas numa nuvem de poeira,
Que se pode vislumbrar a latência de outro cosmo;
Mas é tão rápido tão rápido! E não podes respirar
Esse ar repleto de fragmentos de mundos desconhecidos.
E logo a poeira se assenta, e a paisagem se refaz
Como um vaso que nunca caíra da beirada da mesa.
No entanto, no entanto,
Queria eu aceder à ilusão
De um poema em destroços
Que revelasse a relação
Entre as unhas e os ossos.
E eu nunca entendi o porquê
Das unhas crescerem como se estivessem partindo
E a língua permanecer sempre do mesmo tamanho
Dentro da boca,
Aprisionada pelos fios natos das palavras.
Tiveram antes de mim
Essa ânsia tola e gigante
Que agora aguarda diminuída, domesticada,
Por trás das lombadas nas estantes
Ou nos alvéolos abstratos dos arquivos
Que, como o sangue não pode circular fora das veias,
Nunca foram de fato vivos.
Aquele que já estava lá enquanto escrevia outros,
O solo que o sol cobria de dúvidas
Antes de se abrirem as estradas,
Não há, meu amigo, nada que não seja antigo
Porque quando tu chegaste tudo já estava aqui,
E não fizeste nada de inaugural:
A areia já se tornava vidro;
O carvão já se fazia palavra;
Cada folha de papel já vivera numa árvore
E todos os dedos já haviam beijado uma estrela,
Numerando-a.
Teus passos até aqui não fizeram mais
Do que cobrir uma linha pontilhada.
E quando o sol chegava a tua janela,
Inocente saudavas o dia-menino,
Mas era um ancião que te visitava.
Sossega. A tua palavra nunca fora um eremita
Que tornara do deserto com a boa nova.
E a argila que tanto maceras
Vem de um terreno
Que fora mais torturado pelos pés
Do que as uvas que não podem se transmudar em água.
Não te agrada que esse barro lhe escape entre as mãos
Como um bagaço de nervos.
E quando a figura com que sonharas se engendra,
Requer cuidado, o toque suave e polidor
Da polpa dos dedos,
Porque o disforme espera dentro da forma,
E qualquer resquício de poro o faria escapar.
Mas se deixas a tua estatueta secando ao sol
E sais para tomar um trago, ou fumar um cigarro,
Percebes que estás caminhando numa galeria
De estátuas frias iguais a tua.
É à noite que entendemos melhor o dito
De que não há nada de novo sob o sol,
Pois a rede de estrelas seca repetidamente
Sobre o céu azul de cada manhã,
Tal qual o meu crânio se oculta, uma lua
De fundas crateras sob a cortina da carne.
E o meu crânio já fora esquadrinhado
Antes mesmo que eu nascesse,
Um pequeno satélite onde se gravaram por sulcos
Meridianos, equadores e trópicos.
Digo-te que não é senão quando as coisas se suspendem,
Esfaceladas numa nuvem de poeira,
Que se pode vislumbrar a latência de outro cosmo;
Mas é tão rápido tão rápido! E não podes respirar
Esse ar repleto de fragmentos de mundos desconhecidos.
E logo a poeira se assenta, e a paisagem se refaz
Como um vaso que nunca caíra da beirada da mesa.
No entanto, no entanto,
Queria eu aceder à ilusão
De um poema em destroços
Que revelasse a relação
Entre as unhas e os ossos.
E eu nunca entendi o porquê
Das unhas crescerem como se estivessem partindo
E a língua permanecer sempre do mesmo tamanho
Dentro da boca,
Aprisionada pelos fios natos das palavras.
Tiveram antes de mim
Essa ânsia tola e gigante
Que agora aguarda diminuída, domesticada,
Por trás das lombadas nas estantes
Ou nos alvéolos abstratos dos arquivos
Que, como o sangue não pode circular fora das veias,
Nunca foram de fato vivos.
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sexta-feira, 27 de maio de 2011
Quatro Poemas de Final de Maio
LITO PLANTAR
Há contradições que você mesmo gera:
Como a pedra que no caminho não o espera,
Mas você põe zelosamente no sapato
Antes de calçá-lo.
REPLICANDO
Não, de uma vez por todas,
Eu não ando nas nuvens!
Trilho caminhos terrenos.
São meus pés nefelibatas
Que pisam em poças d’águas
Reflexos de céu que iludem.
COMUNHÃO
Vinde palavras,
Vinde
Para esta ceia.
Comei deste pão,
Minha razão.
Bebei deste vinho,
Meu inconsciente.
Assim saciadas,
Alguma dentre vós
Ainda
Há de me trair?
PROGRAMA
Estou preparado para estar aqui.
Estou preparado para voltar
À Idade Moderna.
Estou preparado para voltar
À Idade Média.
Estou preparado para voltar
À antiguidade.
Estou preparado para voltar
À pré-história.
Só não fui preparado para alcançar
A eternidade.
Há contradições que você mesmo gera:
Como a pedra que no caminho não o espera,
Mas você põe zelosamente no sapato
Antes de calçá-lo.
REPLICANDO
Não, de uma vez por todas,
Eu não ando nas nuvens!
Trilho caminhos terrenos.
São meus pés nefelibatas
Que pisam em poças d’águas
Reflexos de céu que iludem.
COMUNHÃO
Vinde palavras,
Vinde
Para esta ceia.
Comei deste pão,
Minha razão.
Bebei deste vinho,
Meu inconsciente.
Assim saciadas,
Alguma dentre vós
Ainda
Há de me trair?
PROGRAMA
Estou preparado para estar aqui.
Estou preparado para voltar
À Idade Moderna.
Estou preparado para voltar
À Idade Média.
Estou preparado para voltar
À antiguidade.
Estou preparado para voltar
À pré-história.
Só não fui preparado para alcançar
A eternidade.
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domingo, 22 de maio de 2011
Dois Poemas Fora de Hora
MENSAGEM
Meu amor,
Deixo aqui um grande fardo,
Depois em silêncio aguardarei.
É tudo tão simples
E nos enganavam:
Nunca se tratou da botânica,
Mas da flor particular
Que contivesse um universo
Sem esperas.
Não era a arquitetura,
Mas a casa,
Qualquer casa arejada.
Jamais foi a lingüística
Ou a gramática,
Mas a palavra,
Célula da carne dos anjos
Que nada nomeava.
E nada fora arte,
Senão as linhas
Das palmas de nossas mãos
Que não são cartas náuticas.
REVENDO
À vezes a palavra
É marca d’água
Nas fibras do papel,
Faz-se ruga úmida
No deserto sem cor.
Se a mesma palavra
Escrita for falada,
Será como peixe
Que salta na água
Das mãos do pescador.
Meu amor,
Deixo aqui um grande fardo,
Depois em silêncio aguardarei.
É tudo tão simples
E nos enganavam:
Nunca se tratou da botânica,
Mas da flor particular
Que contivesse um universo
Sem esperas.
Não era a arquitetura,
Mas a casa,
Qualquer casa arejada.
Jamais foi a lingüística
Ou a gramática,
Mas a palavra,
Célula da carne dos anjos
Que nada nomeava.
E nada fora arte,
Senão as linhas
Das palmas de nossas mãos
Que não são cartas náuticas.
REVENDO
À vezes a palavra
É marca d’água
Nas fibras do papel,
Faz-se ruga úmida
No deserto sem cor.
Se a mesma palavra
Escrita for falada,
Será como peixe
Que salta na água
Das mãos do pescador.
Mesmo que renove
O anzol e a isca,
Não sabe à risca,
Se pescará a arisca
Que antes lhe escapou.
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quinta-feira, 19 de maio de 2011
Quatro Novos Poemas
SAUDADE
Dias alquebrados,
Céus comprimidos,
Noite engavetada,
Estrelas prepotentes,
Sono preterido.
Chuva sem som,
Abismos os braços,
Escadas estáticas,
Janelas asmáticas,
Ar sem espaço.
Espelhos visitados,
Relógio crescente,
Parcelas, subtrações,
Artéria convulsiva,
Fome inconsciente.
Cisternas ao relento,
Sombras no assoalho,
Outras fotografias,
Cascas de poesia
Que recolho espalho.
Propagar-me em vão,
Queimar sem luz,
Transpor portais
Com ânsias postais
Carregando a cruz.
Vírgula, dois pontos,
Eqüidistância clara,
Formas inalteráveis,
Frases inabitáveis
Na boca que calara.
PONTO-PARÁGRAFO
Meus lábios atrevidos,
Na tua boca entreaberta,
Concluirão previdentes
Com beijos emudecidos,
A tua fala incompleta.
MY FAIR LADY
Meu beijo
Um sopro,
E o teu peito ofega,
Galathea que dormia
Na pedra.
ANTES DE EXISTIR
É impossível dizer positivamente
o que quero
Desde que não posso retornar
Ao nada,
Ao nulo,
Ao marco zero.
Cena do filme "A Cor da Romã" (1968) de Sergei Paradjanov
Dias alquebrados,
Céus comprimidos,
Noite engavetada,
Estrelas prepotentes,
Sono preterido.
Chuva sem som,
Abismos os braços,
Escadas estáticas,
Janelas asmáticas,
Ar sem espaço.
Espelhos visitados,
Relógio crescente,
Parcelas, subtrações,
Artéria convulsiva,
Fome inconsciente.
Cisternas ao relento,
Sombras no assoalho,
Outras fotografias,
Cascas de poesia
Que recolho espalho.
Propagar-me em vão,
Queimar sem luz,
Transpor portais
Com ânsias postais
Carregando a cruz.
Vírgula, dois pontos,
Eqüidistância clara,
Formas inalteráveis,
Frases inabitáveis
Na boca que calara.
PONTO-PARÁGRAFO
Meus lábios atrevidos,
Na tua boca entreaberta,
Concluirão previdentes
Com beijos emudecidos,
A tua fala incompleta.
MY FAIR LADY
Meu beijo
Um sopro,
E o teu peito ofega,
Galathea que dormia
Na pedra.
ANTES DE EXISTIR
É impossível dizer positivamente
o que quero
Desde que não posso retornar
Ao nada,
Ao nulo,
Ao marco zero.
Cena do filme "A Cor da Romã" (1968) de Sergei Paradjanov
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quarta-feira, 11 de maio de 2011
Dois Poemas
POEMA EM LINHA ROTA
Mais um dia de tortura
Antes da euforia futura
Do perdão.
Mergulho na névoa fria
Da estrada,
Num surto me insulto:
Sou o nada
Sendo autocomiseração.
Ostento tantas máscaras,
Elásticas, flácidas caretas,
Facetas de animal feroz
Que não espantam mais.
Entre sorrisos refrigerados,
Incauto, subo ao cadafalso
Das obrigações temporais.
E quando explode o grito
Das aspirações preteridas
- Anúncio absurdo de mim -
Faço-me de surdo, mouco,
Mudo, um louco sabotador
Do alto sol que iluminaria
O abismo sob os penhascos
De cujas bordas eu antecipo
O eventual post escriptum
Ao golpe do mundo carrasco.
SOLIDÃO
Quando a solidão chegou,
Ela me tornou único.
Eu que me julgava vários,
Eu, de muitos itinerários
Compartilhados,
Não era mais que um!
Sem partes, sem pontes,
Sem frações, sem múltiplos,
Sem púlpitos.
Quando a solidão chegou,
Ela me amarrou a mim.
Reforçou a membrana
Das minhas fronteiras
Donde calado percebo
Que o fronteiriço é outro
Perambulando cego
Preso aos fios da rede
De solidões unitárias:
A solidão dos nomes;
A solidão dos números;
A solidão dos olhos;
A solidão das sequências;
A solidão das alternâncias;
A solidão dos adjetivos;
Dos adjuntos temporários
E a solidão dos solidários.
Quando a solidão chegou,
Ela urinou nos meus pés
E demarcou um território.
Mais um dia de tortura
Antes da euforia futura
Do perdão.
Mergulho na névoa fria
Da estrada,
Num surto me insulto:
Sou o nada
Sendo autocomiseração.
Ostento tantas máscaras,
Elásticas, flácidas caretas,
Facetas de animal feroz
Que não espantam mais.
Entre sorrisos refrigerados,
Incauto, subo ao cadafalso
Das obrigações temporais.
E quando explode o grito
Das aspirações preteridas
- Anúncio absurdo de mim -
Faço-me de surdo, mouco,
Mudo, um louco sabotador
Do alto sol que iluminaria
O abismo sob os penhascos
De cujas bordas eu antecipo
O eventual post escriptum
Ao golpe do mundo carrasco.
SOLIDÃO
Quando a solidão chegou,
Ela me tornou único.
Eu que me julgava vários,
Eu, de muitos itinerários
Compartilhados,
Não era mais que um!
Sem partes, sem pontes,
Sem frações, sem múltiplos,
Sem púlpitos.
Quando a solidão chegou,
Ela me amarrou a mim.
Reforçou a membrana
Das minhas fronteiras
Donde calado percebo
Que o fronteiriço é outro
Perambulando cego
Preso aos fios da rede
De solidões unitárias:
A solidão dos nomes;
A solidão dos números;
A solidão dos olhos;
A solidão das sequências;
A solidão das alternâncias;
A solidão dos adjetivos;
Dos adjuntos temporários
E a solidão dos solidários.
Quando a solidão chegou,
Ela urinou nos meus pés
E demarcou um território.
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domingo, 1 de maio de 2011
Quatro Poemas Desocupados No Dia do Trabalho
MARINHA
Teu ser, palavra,
De tocar a orla
E retornar;
De verter-te ao seco
E o enlamear;
De trazer à praia
Um fundo de mar.
Ter seu, palavra,
De concha sem par.
ÁUGURE
Sonhei
Que de um céu azul
Nunca antes tão azul,
Chovia
Pássaros mortos.
Caiam durante o vôo,
Aniquilados por ataque
Cardíaco,
Aérea catalepsia
Ou falta de combustível.
Era o mundo da poesia
Onde a vida fora impossível.
MONÓLOGOS
No pátio,
Um menino claudicante
Corre entre brinquedos
Espalhados,
E gritinhos incontidos
De chamar atenção:
Uma onomatopéia aflita,
Reiterada.
O pai, um idiota monoglota,
Fala ao celular há hora e meia:
É o seu brinquedo?
Seu serviço?
Seu compromisso?
O filho
É tão pequeno,
Tão pequeno,
Tão pequeno,
Quase invisível,
Quase inaudível.
KLEE
De miniaturas
Seria feita a eternidade,
E tu, engenheiro da exigüidade,
Ainda almejarias mais singeleza.
Com caligrafia lúdica,
Uma criança perpassa
Tudo o que fizeste:
Múltipla beleza,
Mínima escrita,
Máxima poiésis.
Teu ser, palavra,
De tocar a orla
E retornar;
De verter-te ao seco
E o enlamear;
De trazer à praia
Um fundo de mar.
Ter seu, palavra,
De concha sem par.
ÁUGURE
Sonhei
Que de um céu azul
Nunca antes tão azul,
Chovia
Pássaros mortos.
Caiam durante o vôo,
Aniquilados por ataque
Cardíaco,
Aérea catalepsia
Ou falta de combustível.
Era o mundo da poesia
Onde a vida fora impossível.
MONÓLOGOS
No pátio,
Um menino claudicante
Corre entre brinquedos
Espalhados,
E gritinhos incontidos
De chamar atenção:
Uma onomatopéia aflita,
Reiterada.
O pai, um idiota monoglota,
Fala ao celular há hora e meia:
É o seu brinquedo?
Seu serviço?
Seu compromisso?
O filho
É tão pequeno,
Tão pequeno,
Tão pequeno,
Quase invisível,
Quase inaudível.
KLEE
De miniaturas
Seria feita a eternidade,
E tu, engenheiro da exigüidade,
Ainda almejarias mais singeleza.
Com caligrafia lúdica,
Uma criança perpassa
Tudo o que fizeste:
Múltipla beleza,
Mínima escrita,
Máxima poiésis.
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sábado, 16 de abril de 2011
Quatro Poemas Amorosos em Meados de Abril
I
Tu te lembras de mim
No teu futuro?
Tu me recordas
No augúrio que o tempo
Do enfim em ti cerzirá?
Tu me evocas
Na raiz
Das tuas preces
Quando, parece,
Sabes voar?
Tu me convocas
Nos redemoinhos
De presságios
Que te sugarão
Na fronteira
Entre o pretérito
E a alucinação?
Então te lembras
Da hora viva,
Da hora clara,
Em que perdido
Te encontrei,
Me encetando
Entre tuas coxas,
Me germinando
Nos gemidos
Da tua boca
Onde chorei
E num lampejo
Eternizado
Um universo
Em ti herdei.
II
A tua pele murmurosa
Impele pétalas de luz adocicada
A flutuarem, halo, ao teu redor.
Exultação de reflexos,
A loucura das nuances solares,
Fragrantes,
Dum instante submerso
Em amorenado ardor.
III
No varal da área,
Calcinha e sutiã,
Mistérios do teu corpo
Abertos à luz da manhã.
IV
São os filtros do amor,
Ver-te assim surreal,
Uma Vênus de Paul Delvaux
A flutuar na avenida central.
Tu te lembras de mim
No teu futuro?
Tu me recordas
No augúrio que o tempo
Do enfim em ti cerzirá?
Tu me evocas
Na raiz
Das tuas preces
Quando, parece,
Sabes voar?
Tu me convocas
Nos redemoinhos
De presságios
Que te sugarão
Na fronteira
Entre o pretérito
E a alucinação?
Então te lembras
Da hora viva,
Da hora clara,
Em que perdido
Te encontrei,
Me encetando
Entre tuas coxas,
Me germinando
Nos gemidos
Da tua boca
Onde chorei
E num lampejo
Eternizado
Um universo
Em ti herdei.
II
A tua pele murmurosa
Impele pétalas de luz adocicada
A flutuarem, halo, ao teu redor.
Exultação de reflexos,
A loucura das nuances solares,
Fragrantes,
Dum instante submerso
Em amorenado ardor.
III
No varal da área,
Calcinha e sutiã,
Mistérios do teu corpo
Abertos à luz da manhã.
IV
São os filtros do amor,
Ver-te assim surreal,
Uma Vênus de Paul Delvaux
A flutuar na avenida central.
![]() |
| Paul Delvaux, Entry in The City, ost, 1940 |
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sábado, 9 de abril de 2011
Três Poemas
SEM TÍTULO
Com o que sonhas quando o desespero te acossa
E angústia te espreme as vísceras?
Com o que sonhas se deambulas na rua cinzenta
E em cada rosto, atenta, uma sentinela te grita:
“Alto lá!” em vez de “Alvíssaras!”?
Com o que sonhas se já é alta a noite e teu sono
Um remoto anseio entre a insônia aguda dos objetos?
Com o que sonhas se vês do passado o furor quieto,
Resíduos, dejetos vivos de cada ação contrafeita,
A palavra engolida e o pré-fim dos teus projetos?
Com o que sonhas na rota dos algozes, se as ruas
Estacam nomeadas e as esquinas escuras vêm velozes?
Com o que sonhas de teu se o televisor rebelado
Permanece ligado e impõe a mitomania dos simulacros?
Com o que sonhas entre a ânsia retardada e a esperança
De voltar a qualquer ponto neutro, a qualquer rito sacro?
Com o que sonhas se tudo é fato e conformidade
Na paisagem fria das pequenas normas, mosaico
De geométricas formas de enganosa diversidade?
Com o que sonhas se nos corredores ermos e solenes
Perdes o riso, folguedo inválido da inocência proscrita?
Com o que sonhas se a cidade está repleta de acenos
Cínicos e mensagens bifrontes em que não acreditas?
Com o que sonhas se não és o dono das palavras, das horas,
Do acaso, e todos vêem nu o rei vestido em que te arvoras?
Com o que sonhas se tudo parece sempre o mesmo
Que se repetirá ainda hoje, amanhã e mais adiante,
E tu permaneces indivíduo que se vê não-semelhante?
Com o que sonhas de duradouro, em quadro sinóptico,
Se em ti guardas a morte constituindo-se, feto osmótico?
Com o que sonhas, ó arcanjo insone de face caída?
Sonhas com algum íntimo horizonte
Do qual não venha a hora perdida?
PROCESSO
Há sempre
versos malditos
que por fora
soçobram.
Enquanto
os bem ditos,
solidários,
não sobram.
ILHA
Aqui não há meio termo,
Ponto delimitado, claro,
Entre o são e o enfermo,
Entre o vulgar e o raro.
Ilha semântica recessiva
Em planos de luz saturada,
Suas bordas imprecisas
Confinam enfim com o nada.
Com o que sonhas quando o desespero te acossa
E angústia te espreme as vísceras?
Com o que sonhas se deambulas na rua cinzenta
E em cada rosto, atenta, uma sentinela te grita:
“Alto lá!” em vez de “Alvíssaras!”?
Com o que sonhas se já é alta a noite e teu sono
Um remoto anseio entre a insônia aguda dos objetos?
Com o que sonhas se vês do passado o furor quieto,
Resíduos, dejetos vivos de cada ação contrafeita,
A palavra engolida e o pré-fim dos teus projetos?
Com o que sonhas na rota dos algozes, se as ruas
Estacam nomeadas e as esquinas escuras vêm velozes?
Com o que sonhas de teu se o televisor rebelado
Permanece ligado e impõe a mitomania dos simulacros?
Com o que sonhas entre a ânsia retardada e a esperança
De voltar a qualquer ponto neutro, a qualquer rito sacro?
Com o que sonhas se tudo é fato e conformidade
Na paisagem fria das pequenas normas, mosaico
De geométricas formas de enganosa diversidade?
Com o que sonhas se nos corredores ermos e solenes
Perdes o riso, folguedo inválido da inocência proscrita?
Com o que sonhas se a cidade está repleta de acenos
Cínicos e mensagens bifrontes em que não acreditas?
Com o que sonhas se não és o dono das palavras, das horas,
Do acaso, e todos vêem nu o rei vestido em que te arvoras?
Com o que sonhas se tudo parece sempre o mesmo
Que se repetirá ainda hoje, amanhã e mais adiante,
E tu permaneces indivíduo que se vê não-semelhante?
Com o que sonhas de duradouro, em quadro sinóptico,
Se em ti guardas a morte constituindo-se, feto osmótico?
Com o que sonhas, ó arcanjo insone de face caída?
Sonhas com algum íntimo horizonte
Do qual não venha a hora perdida?
PROCESSO
Há sempre
versos malditos
que por fora
soçobram.
Enquanto
os bem ditos,
solidários,
não sobram.
ILHA
Aqui não há meio termo,
Ponto delimitado, claro,
Entre o são e o enfermo,
Entre o vulgar e o raro.
Ilha semântica recessiva
Em planos de luz saturada,
Suas bordas imprecisas
Confinam enfim com o nada.
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sexta-feira, 25 de março de 2011
Um Poema em Seis Partes
A IDA
A manhã me desperta,
Resmungona como uma dama da noite,
Exigindo o pagamento dos seus favores.
Tenho o rosto parvo e desiludido
De um adolescente que não sabia dos custos.
A manhã, com olhar oblíquo, cínico
E de sedução forçada, bate o pé e
Levanta a saia para me lembrar
A finalidade do nosso contrato.
Pagarei juntando todos os meus centavos,
Pétalas de flor já desfeita no meu bolso.
Haverá mais amanhã.
2
Aparo as minhas unhas:
Não quero tirar sangue
De outras mãos.
Calço o melhor par de sapatos,
Aquele que oculta o vão
Entre os meus pés e o chão.
Ponho os meus dentes à mostra,
Minha lua segmentada
De que todos querem uma fatia,
Mesmo sob um sol escaldante.
Os óculos! Os óculos!
Sem eles não posso ver
O desespero alheio que me consola.
Pronto. O meu corpo está pronto pra dragar
Os canais assoreados do dia.
3
Urbe et horda.
Está lá fora a hidra de sete cabeças
Multiplicadas em rede de fractais.
Não tenho doze trabalhos a realizar.
Apenas um: sustentar a flor da vontade
Que tomba com cabeleira ensolarada,
A face voltada à sombra memorizada.
Lá vou eu com meu bocado de ardis
Disputado por cães cruéis.
Sigo com a alma içada sobre as ruas,
Personagem ignorado
Dum afresco no topo da nave central
Congestionada de fiéis ou hereges.
Meus olhos aqui e ali aportam
Em alguma ilha fisionômica
(ou cômica):
Uns supercílios ejetados pela dúvida,
Um nariz rebelde, a salina de uma testa,
Uns cabelos que queriam ficar em casa,
Um queixo fugitivo; uma orelha ímpar.
Orelha?
Quando Van Gogh andava pelas ruas de Arles
Era chamado de louco. Fou! Fou! Fou!
Também sou louco, mas quem nota?
Quem sabe da loucura de um cão de Pavlov?
Mas, o meu amado Van Gogh era um ser patético,
(Sabia disso, menina com fones de ouvido?
Sabia? Sabia disso, senhor com óculos escuros?)
Ele era quase desdentado, devia feder
Em suas roupas velhas, em seus sapatos purulentos,
Seus chapéus engordurados de sol.
Em seu quarto cheirando a mofo, soprava teias de aranha.
Sua latrina devia ser fétida. Seu cachimbo tinha nódoas
De tinta seca. Ele nem tinha grana para o fumo.
Um incompetente, o Van Gogh, que largou o amarelo
Para tingir-se de vermelho.
Mas o que tem a ver Van Gogh
Com a faixa de pedestres no sinal de trânsito?
O que tem Van Gogh com serviços bancários
E lugares assépticos com ar condicionado?
O meu estômago nauseado é antiquado,
E inepto para navegações!
Ó amigos argonautas, me despeçam no próximo porto
Desse oceano de gente!
Mas, sigo.
4
Ocorre-me argumento filosófico
Em plena Avenida Rio Branco:
Deve haver um deus
Porque, às vezes, finjo ser ele.
Ou finjo ser o meu pai que me acudia
E morreu sem me consultar?
Prossigo.
5
Tenho o privilégio de saber
De tudo o que não muda nada,
O que não cria atalhos
Para o velo de ouro na área
De trabalho.
Vontade de cuspir uma palavra
Para cada palmo abstrato de chão.
6
Prossigo.
A nuca do ascensorista encaneceu
de susto entre um andar e outro.
Talvez porque ele tenha descoberto
Que era apenas um estranho caronte,
Cordato, pago por atacado.
Os seus dentes foram amarelando
De sorrisos obrigatórios
De tanto dizer bom dia! Boa tarde!
Sobe, desce, sobe, desce!
Todos no elevador olham para o número dos andares
Como se fossem crucifixos em capelas.
Eu não, pois tenho o olfato apurado.
Desembarco e prossigo:
No corredor há uma só porta válida,
As outras são falsas:
Dão para o vazio de outras vidas.
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quarta-feira, 16 de março de 2011
Dois Poema Para Meados de Março
ESPERANDO
Tenho um caderno novo, brochura sem valor,
para encher de versos:
pautas azuladas sobre brancura de dentifrício,
ou do avesso do ovo.
Mas, que garantia há de que esses pássaros adventícios
virão empoleirar-se nas linhas?
Talvez não convenha dizer poleiros,
que sugerem norma ou conduta
de apresentar-se de boa vontade
e no tempo propício.
Melhor seria supor este caderno barato
um aparato de astúcia,
artifício, isca, rede ou arapuca
para pássaros não cordatos, ariscos.
Então essas páginas se abrem ao espaço aéreo?
Seriam rarefeitos os caminhos para a captura das letras
neste território que em urdidura as constrange?
Preferia pensar esta folha um terreno de mistério
fecundo, um habitat já com seus seres ocultos,
e o diria um mangue
para escapar à imagem gasta da semente
que em si já traz a árvore latente.
Portanto, identificaria os versos aos caranguejos:
quem sabe se já estão aqui e não os vejo,
enfronhados na lama branca?
Mas até onde teria de mergulhar os braços neste nada
para trazer à luz uma de tais criaturas articuladas
e com grandes tenazes-lanças?
Sim, eu sei: este solo alvo não é movediço,
e talvez venha ao caso sonhar o mais difícil:
sejam estas folhas francas estradas
com pavimento de mármore, emendadas
em outras vias, uma invisível extensão
do mesmo plano, mas em diverso chão
(talvez, estradas das quais kerouac algum
jamais tenha feito um haibun),
e por elas chegarão os versos, viajantes famintos.
Mas, em se tratando de estradas,
teriam dois sentidos, dupla mão.
Assim, não conviriam:
como são inconstantes, mesmo andarilhos,
poderiam inverter seu caminho os versos,
ou ainda fugirem por sentido transverso.
Hei de esperar novamente
por versos que viriam de cima
para o plano deste caderno
oblíqua ou verticalmente?
Ora, por que não imaginar na verticalidade
um meio termo entre ascensão e pouso,
forma elevada de repouso:
uma construção?
Quem sabe já não estariam aqui
tão claras a planta e a fundação?
Mas aonde eu buscaria o material
para firmes colunas e vigas
que não estão no papel?
E como abrir poético umbral
sem um metafórico dintel?
O que sustentaria de firmamento
sobre a minha extensa planura,
refletindo-se exata na folha pura,
senão um abstrato monumento
ou uma casa escura para o vento?
Não podendo nada construir, edificar,
restaria, quem sabe, corroer o próprio solo,
e o degradar?
Melhor lançar sobre o papel a única palavra
em mim retida: a acidulada palavra silêncio.
Que ela, sem mais demora, se entremeie às fibras!
Que prossiga escavando, fuinha corrosiva,
até que fure a contracapa colada na face da vida,
vazando como palavra úlcera ou, mais eufêmica,
palavra ferida.
NA PRAÇA
Estátua equestre,
ríspido pombal.
Na mão erguida
aguda espada
contra o céu.
Lavoura aérea
de óxidos,
dorme o sono
cinzelado
de condottiere
deserdado
e ao léu.
Marcantonio
Tenho um caderno novo, brochura sem valor,
para encher de versos:
pautas azuladas sobre brancura de dentifrício,
ou do avesso do ovo.
Mas, que garantia há de que esses pássaros adventícios
virão empoleirar-se nas linhas?
Talvez não convenha dizer poleiros,
que sugerem norma ou conduta
de apresentar-se de boa vontade
e no tempo propício.
Melhor seria supor este caderno barato
um aparato de astúcia,
artifício, isca, rede ou arapuca
para pássaros não cordatos, ariscos.
Então essas páginas se abrem ao espaço aéreo?
Seriam rarefeitos os caminhos para a captura das letras
neste território que em urdidura as constrange?
Preferia pensar esta folha um terreno de mistério
fecundo, um habitat já com seus seres ocultos,
e o diria um mangue
para escapar à imagem gasta da semente
que em si já traz a árvore latente.
Portanto, identificaria os versos aos caranguejos:
quem sabe se já estão aqui e não os vejo,
enfronhados na lama branca?
Mas até onde teria de mergulhar os braços neste nada
para trazer à luz uma de tais criaturas articuladas
e com grandes tenazes-lanças?
Sim, eu sei: este solo alvo não é movediço,
e talvez venha ao caso sonhar o mais difícil:
sejam estas folhas francas estradas
com pavimento de mármore, emendadas
em outras vias, uma invisível extensão
do mesmo plano, mas em diverso chão
(talvez, estradas das quais kerouac algum
jamais tenha feito um haibun),
e por elas chegarão os versos, viajantes famintos.
Mas, em se tratando de estradas,
teriam dois sentidos, dupla mão.
Assim, não conviriam:
como são inconstantes, mesmo andarilhos,
poderiam inverter seu caminho os versos,
ou ainda fugirem por sentido transverso.
Hei de esperar novamente
por versos que viriam de cima
para o plano deste caderno
oblíqua ou verticalmente?
Ora, por que não imaginar na verticalidade
um meio termo entre ascensão e pouso,
forma elevada de repouso:
uma construção?
Quem sabe já não estariam aqui
tão claras a planta e a fundação?
Mas aonde eu buscaria o material
para firmes colunas e vigas
que não estão no papel?
E como abrir poético umbral
sem um metafórico dintel?
O que sustentaria de firmamento
sobre a minha extensa planura,
refletindo-se exata na folha pura,
senão um abstrato monumento
ou uma casa escura para o vento?
Não podendo nada construir, edificar,
restaria, quem sabe, corroer o próprio solo,
e o degradar?
Melhor lançar sobre o papel a única palavra
em mim retida: a acidulada palavra silêncio.
Que ela, sem mais demora, se entremeie às fibras!
Que prossiga escavando, fuinha corrosiva,
até que fure a contracapa colada na face da vida,
vazando como palavra úlcera ou, mais eufêmica,
palavra ferida.
NA PRAÇA
Estátua equestre,
ríspido pombal.
Na mão erguida
aguda espada
contra o céu.
Lavoura aérea
de óxidos,
dorme o sono
cinzelado
de condottiere
deserdado
e ao léu.
Marcantonio
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