Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?
Não tenho continuidade
presumida
para fazer-me autoridade
em qualquer altura
da vida.
2- AMULETO
Afinal, para quê?
Eis a questão!
É por mim
ou por você?
3- ANTÍTESE
Humor
tal
e tanto
que é feito
dor.
4- CONTA COMIGO
Vou ficar aqui lendo
o livro das faces
o dia inteiro
para ver se me dou
na última página
com o meu paradeiro.
5- VIDA VERBAL
Posso improvisar
ao vivo
um vício
em que não estou
pensando
agora.
6-
Diga-me, ó Caos
tu és tudo mesmo?
Essa bagunça?!
Então como pus ordem
nesta pergunta?
7- E LA NAVE VA (Outra Vez)
Mas,
para quê
essa nau
que atravesse
o mar banal,
se há um cabo
das tormentas
no meu quintal?
8-
É muito que quero
a poética viagem.
Só me desanima
levar-me na bagagem.
9-
Sou um lenço descartável
onde Cronos, constipado,
Assoou o nariz.
10- LAOCOONTE NÃO CONTAVA
A serpente deve ser
bicho divino,
criado para ensinar
o bote ao destino.
11-
Nem sempre o capital
promove a desigualdade.
Às vezes consolida
o encontro das diversidades.
Reúne, por exemplo,
ao circo dos contentes
o coro dos contestadores,
contratando-lhes a atração
da rebelião aparente.
Fosse ambicioso eu investiria
no mercado da rebeldia.
Mas é outra a minha especulação.
12-
Então!
Que contrariedade!
Que contradição!
Defendo a irracionalidade
com argumentos
cheios de razão!
14-
Eu poderia fazer tanta arte!
Por que não quero poder?
15-
Res - pirar:
viver é coisa
muito louca.
16-
Aos que querem me editar:
lamento!
O meu papel é fragmento.
17-
Que estranha contradição:
Eu falando contra o vau
do rio
em que faço folgada navegação.
18- ÓTICA
Há horas em que diferenciar
um anjo de um demônio
é como distinguir
o super-homem do Clark Kent:
uma mera questão de lentes.
19-
Como aniquilar
o ressurgimento
desse precipício?
Vejo renascer sempre,
do cinzeiro nojento,
a fênix do vício.
20-
Não é falta de empatia
supor para o mundo
um tamanho extremo.
Mania de grandeza
é abraçá-lo pequeno.
21-
Reencarnar deveria ser
dar-se conta subitamente
de que era outra
esta mesma vida
não vivida intensamente.
22- VERSOS REBAIXADOS
Para ressaltar
a oculta alegria,
faça uma tonal grafia
com contraste.
23-
Meus amigos, de vós fujo,
Mudo me afasto,
caramujo,
mas lentamente,
e deixo um rastro
de afeto transparente.
24- CÔMICO
Todo palhaço no fundo
é triste
porque sabe da tragédia
da representação:
não pode fazer graça
com o que infelizmente
não existe.
O grotesco não é pura
imaginação.
25- JARDIM ETIMOLÓGICO
No jardim zoológico
o hipopótamo não tem
propriamente um rio.
Mas também não o tem
a própria palavra "rio".
26- ESFINGINDO
Adio a decifração
do mistério que há
no sorriso do sol
e na lágrima lunar.
27- RATIFICAÇÃO
A errata é desnecessária,
não houve erro gráfico,
quis mesmo dizer fugir
e não "fulgir".
Eu não roubei fogo algum:
Só a estrelas fugiriam fulgindo.
28- INCOMPATIBILIDADE
Tenho alma de almanaque
e tu és contra gotas
de elixir da verdade.
Caravaggio, O Sacrifício de Isaac, óleo s/ tela - 1603
Abraão, nos nervos da tua mão
Tão humanamente tensionados,
Todo um pasmo
Diante do absurdo do sagrado.
Agora sabes da estupidez
De todo sacrifício?
A tua verdade testada é insana,
Um anjo te toca e te chama
À realidade veraz;
Acorda para o pesadelo,
Isaac não vale mais
Do que esse pobre cordeiro.
Tu foste o primeiro a percebê-lo:
Humanos, não somos divinos,
Mas meros animais.
Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, óleo s/ tela - 1620
Dr. Tulp, o artista não te fez um logro?
Pôs o teu olhar suspenso num limbo
Entre a ciência e o ogro da morte,
Nenhum anatomista pode se perguntar
Sobe os desígnios da sorte.
O que pinças, tendão ou nervo,
Começa no morto,
Mas termina em ti mesmo.
Parece que aguardam de mim
Uma fala inusitada,
Recitativo oficial
Que reunisse ao familiar uma revelação
Contente,
Como se eu fosse um pássaro
Dentro do ovo transparente do dia,
E lhe rompesse a casca como um raio de luz
Ainda mais luminoso do que o ambiente.
Às vezes um estranho me pára na rua
E põe-se a fazer um gesto de maestro
Penteando o ar para determinar a cadência
Sobre a qual iniciarei a música:
- O que temos para hoje? Vamos homem!
Comece a cantar!
Não, meu senhor, tenho dentro de mim uma canção
Tão triste...
E é para a tua alegria que não sou profeta
E não a poço tornar audível.
Tu não me serias solidário, ninguém seria.
Mas deixa-me chegar à praça,
Sentar-me num banco solitário
A aguardar que algum deus zombeteiro
Espane do alto um dicionário universal.
E será lindo,
Essa chuva particular só sobre mim caindo,
As palavras como cinzas vulcânicas,
Ocultando-me sob camadas,
Transtornada a ordem alfabética.
Quando ouvires se espalhar a notícia desse rito,
Desse ofício,
Corre à praça para ver
O meu sepultamento público no silêncio,
Sob o enorme monturo
De todas as palavras existentes.
Enquanto descasco
Abobrinhas italianas -
Zucchini! –
Reflito sobre Dante:
Serão duas poéticas
Conflitantes?
Não sei, mas me concentro
Na primeira
Antes que estrague o almoço
E tenha de ir a um restaurante.
Apêndice:
Este poema poderia
Ter outras versões condignas:
Fosse o poeta outra pessoa,
Seria o prato à moda do Porto;
Ou fosse um poeta gauche
E um acepipe mineiro;
Um arroz de carreteiro
Conviria para duelar
Com um poeta gaúcho;
Um oponente de luxo
Para Mallarmé?!
Fricassé!
Para Augusto dos Anjos
Poeta soturno de um Eu sozinho,
Poderia convir carne-de-sol
E arrumadinho?
Que pensar do russo Maiakovski?
Seria blasfemo opô-lo a strogonoff?
E Bashô? Arroz havia de consumir?
Haicaístas modernos é que apreciam
A extensão de uma bandeja de sushi;
Com João Cabral não se daria
Unívoca cozinha:
Seria uma paella
Ou algo oriundo da casa de farinha?
Pedra não há de ser,
Que, embora poética,
É dura de roer.
E com que prato devanearia
Junto a Charles Bukowski?
Uma sobremesa? Pudim de whisky?
Maior dilema estaria por vir:
O que pôr à mesa
Pensando em Blake ou Shakespeare?
A minha ignorância da cozinha inglesa...
Mas hei de parar por aqui
Embora muitos os poetas e os pratos,
Um Lorca, Poe, Baudelaire, Valéry...
Convém fechar o cardápio
Antes que me venha a dúvida
Sobre que poeta associar
Ao preparo do carpaccio...
Haveria algum perigo,
Vá que seja um poeta ainda vivo!
POR FALAR EM COZINHA
Falam tanto de poemas
E gavetas!
Os meus guardo-os no forno.
Editá-los seria levá-los à mesa?
Confesso-te que falar das nuvens
Reais
É só o pretexto de aludir àquelas
Virtuais
Que passam pelos teus olhos.
Ah, o tempo muda!
E esses cúmulos nimbos me comovem,
Teu céu se fecha e tuas dores humanas
Chovem.
Mas também falar da tua chuva súbita
É outro artifício:
Quero dizer da possível fecundidade
Que se seguirá à pluviosidade
Do teu sacrifício.
Ah, cessa a precipitação e teu olhos
Ficam claros:
Os córregos sinuosos reverdecem
Um solo cansado e deste surge broto
Raro.
É evidente que este broto será flor
Persuasiva,
Surgida na intenção de engendrar
Metáfora viva.
Ah, essa flor fenecerá
Como todas as rosas surpreendentes
Da vida.
Mas são também dádivas estranhas
De que é possível se impregnar.
Não tomes esta flor metafórica
Por decorativa,
Urge despetalá-la, esmagá-la nas palmas
Abrasivas,
Pois não era da flor que eu quisera falar,
Mas do odor que ela deixa nas tuas mãos
Queridas.
LOGRO
Atraiçoou-me
A inspiração
Na qual mergulhara
Insone.
De volta à tona
Do dia,
Verídica não era
A rútila pérola:
Outro poema areado,
Mera pedra-pomes.
REVER DEVIR
O olhar trás.
O olhar leva.
O olhar vivo
Subleva
Em mim,
O ponto-de-vista
Triste do artista:
É tão breve o eco das antífonas em meus ouvidos.
Não têm o rumor de mil garças alçando vôo
Após a salva de tiros de timbales,
Mas o chiado ardido
De uma rocha ígnea afogando-se num lago.
Não invejo os que ouvem o coro dos anjos
Porque beatificam a dúvida
E não sabem se o retiram de si mesmos
Como quem vê vazar o sangue dos próprios
Pulsos
E o estranha como a um desconhecido.
Meu coro angelical é essa salmodia de pássaros
Urbanos
Saudando a dessacralização da tarde
Sem que eu possa vê-los como arautos exilados
Ou como escravos bardos de uma elegia,
Tão natural é sua lida com a luz real do dia,
Aquela que lenta se transmuda, térmico relógio.
Não sei se retiro de mim, víscera que não estranho,
Essa concretude profana da tarde, banal tarde;
Mas dentro dela, verdadeiro, fico muito à vontade.
LARGO
É tão serenamente que Proserpina
Sobe à superfície da terra,
Tão logicamente,
Tão maquinalmente,
Tão inexoravelmente!
Nada da humana ansiedade
De evadir-se da escuridão.
Como são impacientes as lâmpadas
Que querem cegar os olhos da noite.
De outro modo,
Uso óculos escuros ao dia
Para me afeiçoar ao meu destino.
Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.
Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.
Ó pluma randômica, em que esquina de vôo poderias escapar
Da idéia de pássaro que te aprisiona?
2 - Osso
Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.
É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.
3 - Pouso
O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.
RECEPÇÃO
Ouvidos insetívoros
Captam zumbidos:
Com astúcias de flores vistosas
E um néctar ressentido
Atraem artrópodes melíferos
E os asfixiam no silêncio.
Eu nunca havia escutado a leitura de um poema meu. Mas a experiência aconteceu-me agora: tive o poema Solidão lido no blog Me and You por Beth/Lilás. Devo dizer que é uma sensação curiosíssima - tão acostumado que sou à leitura silenciosa, à abordagem visual - me pareceu que o poema se tornara autônomo, livre, e o percebi de uma forma diferente, mais intensa. Realmente curioso isso.
A leitura de Beth é muito boa, sensível, mas límpida, sem excessos interpretativos. E o projeto dela é bastante interessante: propõe a leitura de poemas não apenas de poetas consagrados, mas daqueles que atuam na blogosfera; e ela almeja um espaço integrativo em torno da poesia.
O que não se cansa?
Acaso a flor sente fadiga
De anunciar o advento
De uma cor que é dividida?
Fica exausto o córrego
De atritar suas vértebras
Contra as pedras?
E o mar? Sonha se opor ao vento
E fazer-se inerte dentro do abismo?
E esse ciclo das águas não quer cessar?
Não cansam as águas da metamorfose
Que as exila no céu?
E ali tornadas nuvens
Não enjoam de passar por anjos que quedam?
2
Aquela árvore parece um pêndulo de ponta-cabeça.
Um berço inarredável que balança.
Um rito obsessivo de acalanto mínimo,
Berceuse quase sem esperança.
As raízes tolas tremem temendo o vôo suicida,
Mas o tronco sabe que permanecerá de pé
Sob as veleidades da copa: por que cria ela
Vértices ilusórios em seus galhos?
Não cansa de implorar?
3
Ainda há o lago estável e desesperado,
Anti-Tântalo afogado que sonha com a secura
De não ter que sustentar o reflexo do cenário.
4
O edifício se envergonha de seu destino
De ponte inacabada, de pilar fracassado?
Céu o seu capitel...
5
As ruas não se cansam de suas visões interrompidas?
De não ver o destino que vira a esquina?
6
Portões se abrem e se fecham.
Não estão exaustos de serem páginas nunca viradas?
7
O jogo. A mesa de bilhar.
As esferas sonham naufragar nas caçapas.
A bola vencedora se regozija da sua solidão?
Não se cansa?
Não canto para encantar as frontes
Nem para abafar o incêndio das pálpebras,
Ou para fazer nevar entre os lábios,
Ou para amortecer o tremor dos queixos.
Canto porque não sei eu mesmo
Chorar ou rir sem cantar,
Como uma engrenagem que range,
Como uma planta que se volta para o sol
Sem intenção de se iluminar.
E eu cantaria sozinho ou louco
Não fosse o canto ele próprio
Um ninho para o humano outro.
ARREBATAMENTO
(Para Assis Freitas)
Esperemos: o poema não demora.
Surge dum crepúsculo ao contrário,
Encerra-se suspenso, uma aurora.
ABANDONO
A rainha capturada,
O rei espera acuado,
Defendido pela torre
E espaçados peões.
Já se foram os bispos
Com suas mitras
E supostos condões.
E no descampado,
Derreado, submetido,
O último dos cavalos,
Pelo qual o monarca
Não poderia trocar
Reino algum,
Pois apenas lhe restou
Um quadrado exíguo.
Cai uma neve cinza
Há semanas no fixo
E quadriculado
Teatro de guerra:
E o jogo abandonado
Antes do lance final
Parece ter tornado
A partida
Uma derrota eterna.
Por vaidade não seria, embora ninguém esteja livre dela, mas por uma agradável sensação de pertencimento que algo assim provoca em mim, pelo prazer de trocar e propor a troca de idéias e sobretudo para agradecer essa generosidade. Por isso falo aqui da entrevista dada ao Roxo-violeta (e simultaneamente publicada no Mínimo Ajuste) da Tânia R. Contreiras, e da qual participaram pessoas pelas quais tenho o maior apreço, às quais leio assiduamente e que também me honram como leitores que dão sentido a este blog.
É de ressaltar a inteligência da fórmula adotada para a entrevista, multifacetada, plural. Que seja a primeira de uma série com outros entrevistados que certamente têm muito a dizer.
A Tânia é pessoa muito querida, generosa, cujo amor pela poesia , pela literatura e pela arte, é de chamar atenção. E sou muito agradecido a ela por sua leitura, por seus comentários, que desde os primeiros tempos do Diário Extrovertido significaram para mim um inestimável incentivo e apoio. Obrigado a ela e a todos que participaram dessa experiência tão gratificante. E, claro, em se tratando da semana do meu aniversário, é um presente e tanto.
Este é o meu poema mais verdadeiro,
Aquele que já estava lá enquanto escrevia outros,
O solo que o sol cobria de dúvidas
Antes de se abrirem as estradas,
Não há, meu amigo, nada que não seja antigo
Porque quando tu chegaste tudo já estava aqui,
E não fizeste nada de inaugural:
A areia já se tornava vidro;
O carvão já se fazia palavra;
Cada folha de papel já vivera numa árvore
E todos os dedos já haviam beijado uma estrela,
Numerando-a.
Teus passos até aqui não fizeram mais
Do que cobrir uma linha pontilhada.
E quando o sol chegava a tua janela,
Inocente saudavas o dia-menino,
Mas era um ancião que te visitava.
Sossega. A tua palavra nunca fora um eremita
Que tornara do deserto com a boa nova.
E a argila que tanto maceras
Vem de um terreno
Que fora mais torturado pelos pés
Do que as uvas que não podem se transmudar em água.
Não te agrada que esse barro lhe escape entre as mãos
Como um bagaço de nervos.
E quando a figura com que sonharas se engendra,
Requer cuidado, o toque suave e polidor
Da polpa dos dedos,
Porque o disforme espera dentro da forma,
E qualquer resquício de poro o faria escapar.
Mas se deixas a tua estatueta secando ao sol
E sais para tomar um trago, ou fumar um cigarro,
Percebes que estás caminhando numa galeria
De estátuas frias iguais a tua.
É à noite que entendemos melhor o dito
De que não há nada de novo sob o sol,
Pois a rede de estrelas seca repetidamente
Sobre o céu azul de cada manhã,
Tal qual o meu crânio se oculta, uma lua
De fundas crateras sob a cortina da carne.
E o meu crânio já fora esquadrinhado
Antes mesmo que eu nascesse,
Um pequeno satélite onde se gravaram por sulcos
Meridianos, equadores e trópicos.
Digo-te que não é senão quando as coisas se suspendem,
Esfaceladas numa nuvem de poeira,
Que se pode vislumbrar a latência de outro cosmo;
Mas é tão rápido tão rápido! E não podes respirar
Esse ar repleto de fragmentos de mundos desconhecidos.
E logo a poeira se assenta, e a paisagem se refaz
Como um vaso que nunca caíra da beirada da mesa.
No entanto, no entanto,
Queria eu aceder à ilusão
De um poema em destroços
Que revelasse a relação
Entre as unhas e os ossos.
E eu nunca entendi o porquê
Das unhas crescerem como se estivessem partindo
E a língua permanecer sempre do mesmo tamanho
Dentro da boca,
Aprisionada pelos fios natos das palavras.
Tiveram antes de mim
Essa ânsia tola e gigante
Que agora aguarda diminuída, domesticada,
Por trás das lombadas nas estantes
Ou nos alvéolos abstratos dos arquivos
Que, como o sangue não pode circular fora das veias,
Nunca foram de fato vivos.
Há contradições que você mesmo gera:
Como a pedra que no caminho não o espera,
Mas você põe zelosamente no sapato
Antes de calçá-lo.
REPLICANDO
Não, de uma vez por todas,
Eu não ando nas nuvens!
Trilho caminhos terrenos.
São meus pés nefelibatas
Que pisam em poças d’águas
Reflexos de céu que iludem.
COMUNHÃO
Vinde palavras,
Vinde
Para esta ceia.
Comei deste pão,
Minha razão.
Bebei deste vinho,
Meu inconsciente.
Assim saciadas,
Alguma dentre vós
Ainda
Há de me trair?
PROGRAMA
Estou preparado para estar aqui.
Estou preparado para voltar
À Idade Moderna.
Estou preparado para voltar
À Idade Média.
Estou preparado para voltar
À antiguidade.
Estou preparado para voltar
À pré-história.
Só não fui preparado para alcançar
A eternidade.
Tudo o que faço é um símbolo da minha própria esperança, tal como a garrafa lançada ao mar com uma mensagem é para o náufrago. Mas posso andar na praia apenas ouvindo o discurso definitivo das ondas…
Artista plástico.
Supõe-se poeta, ainda que menor e sem livro editado. Um curioso desambientado, blasé, interessado em filosofia e em todas as formas de arte. Um pessimista esperançoso.