sexta-feira, 14 de setembro de 2012
BELO MOMENTO
Foram raríssimas as ocasiões em que pude ouvir algum poema meu declamado. E fui surpreendido pelo vídeo abaixo postado no blog Poetas Vivos por Cris de Souza no qual ela recita um poeminha meu, "Entre as orelhas". E o poeminha creceu muito por obra e arte da Cris! Achei o resultado de muito bom gosto. Pareceu-me ótimo, realmente. Agradecido, Cris, por essa partilha e pela sua gentileza com a minha poesia.
Você pode acompanhar o trabalho poético de Cris de Souza nos blogs Trem da Lira e Válvula de Escape
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
RETORNANDO
ANESTESIA
Um poema ceifa a dor:
Sequer sinto a amputação
Do dia.
CHEIA
Com dejetos,
Cascalhos do cotidiano,
Segue assoreado
O rio da minha palavra:
E em vão atua o meu espírito
e seu desejo
feito draga.
FOLCLÓRICO
Não aplique mais às nuvens
A imagem de um rebanho
Conduzido por amoroso pastor:
É algum flautista desmedido
Que as escolta para a queda
No abismo.
OCTETO
Ele queria saber se ela possuía pontos fracos ocultados pelas palavras. Mordia-lhe os tendões de Aquiles.
2
Suas panturrilhas o fascinavam, era como se ela estivesse continuamente na ponta dos pés sem sapatilhas.
3
Perguntava-se sobre sua alma feminina: seria tão doce quanto suas virilhas?
4
Seus grandes lábios, escondidos por um tênue véu de algodão, pulsavam úmidos com vitalidade animal, em incessante oratória.
5
Não era pouca coisa abrir-lhe a pequena concha do sexo, pronta para ser arrebatada pela espuma de uma onda vinda de longe. Afrodite e sua concha sedenta de espumas.
6
Uma grande mulher com pelos pubianos recendendo à embriagante maresia. Mas o púbis de Afrodite não é qualquer território livre, qualquer varanda aberta...
7
Sua nuca parecia uma ilha secreta onde Eros brincava com Psiquê. Eles deslizam por sua espinha, kundalini-onda marinha, fazendo suas nádegas tremer.
8
Ele se deixava arrebatar por aquela liturgia sensual de palavras rebeladas e sedutoras, toda uma poética inesperadamente construída para se repetir e se repetir a cada ato de se despir.
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sábado, 26 de maio de 2012
UM POEMA
ACERCA DE UM MURO
Tudo tem uma razão
E essa parece ser a maior loucura.
Tudo, tudo.
Mesmo esse musgo,
Hemangioma verde na face do muro,
Insurgência de respiros
Esquecidos e mudos.
Há mesmo vida nisso?
Nesse indício de que nada jamais
Está abandonado?
Sequer um muro que separaria
O banal do insignificante.
Mas tem razão suficiente também
Tudo o que não está do lado de lá
Ou de cá do muro, mas em seu íntimo poroso.
Pode haver razão para que um fio de cabelo
Tenha se agregado à argamassa,
Se um cabelo tem biografia
Até o ponto em que fugiu de uma cabeça
Igualmente murada,
E para a alvenaria daquela cabeça eram os cabelos
Como musgo.
E o fio de cabelo antes externo ao crânio,
Agora estaria interno ao muro e haveria razão para isso.
Mas de quem seria tal cabelo ninguém perguntaria,
Sem perceber que ele é uma espécie de digital
Em filamento que o vento leva,
O vento também nunca eventual e cheio de razões.
Pior: pode ser que o muro sepulte
Algum fragmento de pele ou uma gota de sangue
De um pedreiro que se ferira.
Seria uma involuntária assinatura,
Pois nenhum pedreiro assina e data um muro,
Embora possa reter esse muro um afresco invisível
Do esforço inexpressivo do pedreiro,
Num momento de sua vida em que, talvez,
Sua filha estivesse enferma ou sua mulher grávida,
Ou quando estivesse pensando em ter de comprar
Carne para o almoço do dia seguinte,
Tantos e tantos tijolos depois.
E deve ter havido razão para que esse pensamento
Ocorresse à altura do assentamento do nonagésimo
Nono tijolo.
Ah, esses tijolos têm suas razões, e o próprio emboço
Que a eles oculta como ossos ou músculos
De um corpo que não irá a lugar algum,
Salvo quando for demolido e removido
Na forma de entulho,
Tal como os corpos que se movem e têm vontade
Também o serão.
Tem igualmente a demolição razões que julgamos sombrias.
E esse monturo prolixo que se acumula na base do muro,
Partes reagrupadas sob o desígnio de lixo,
Também tem sua razão.
A ratazana que percorre o muro à noite e alcança um telhado
Também tem sua razão.
E o pardal que nele pousa e ali bica qualquer coisa,
Uma merdinha de grão,
Também tem sua razão.
Só a palavra que grafitei de passagem no muro,
Embora as tenha, não quer ter razões.
E isso é uma loucura maior ainda.
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sábado, 28 de abril de 2012
Poema a Quatro Mãos
CURTO INTERNO
Na tomada de consciência
tomo experiência
em apagão
Se me choca o sentido
tateio o desconhecido
seguindo o fio
da interrogação.
(Cris de Souza & Marcantonio)
Na tomada de consciência
tomo experiência
em apagão
Se me choca o sentido
tateio o desconhecido
seguindo o fio
da interrogação.
(Cris de Souza & Marcantonio)
| Marcantonio, Noturno, arte digital (com interferência tonal de Cris de Souza). |
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Dois Poemas
TIRÂNICO
Neste poema instauro
Um despotismo cosmológico:
Com férreo domínio sobre o sol,
Eu o condeno a brilhar para sempre
Nesta página,
Feito áurea roldana
Que aqui içou o esplendor da iluminura,
E em seguida travou-se como mecanismo.
Assim condeno a noite ao ostracismo
Para além da literatura,
Com boca, olhos e ouvidos selados,
Ato poético de ordinária censura.
À NOITINHA
Já ouço os soluços vindos
Do berço da noite.
Ela começa a chorar.
Teria fome de pesadelos?
Todos juntos poderíamos levar aos seus lábios
Um enorme duto
Pelo qual ela sugararia o oceano
Dos nossos medos.
Talvez ela tenha dores no ventre
Inflado de gases nebulosos e astronômicos
Ou farto da loucura, do mal e da morte
Ainda por digerir.
Teria se mirado no espelho côncavo,
Suspenso móbile,
E descoberto ter ela mesma medo de si?
Choro insuportável. Como aguentamos?
Onde estará a mãe da noite?
Dizem que ela tem apenas um pai
Ausente e operoso
Em trabalho eterno no vão entre a luz e a escuridão.
Pobre noite.
Vamos aceitar o encargo de sermos suas babás?
Balancemos seu berço,
Cada qual toque a parte dele
Que lhe chega à janela,
E afinados sussurremos um acalanto:
Dorme...
Neste poema instauro
Um despotismo cosmológico:
Com férreo domínio sobre o sol,
Eu o condeno a brilhar para sempre
Nesta página,
Feito áurea roldana
Que aqui içou o esplendor da iluminura,
E em seguida travou-se como mecanismo.
Assim condeno a noite ao ostracismo
Para além da literatura,
Com boca, olhos e ouvidos selados,
Ato poético de ordinária censura.
À NOITINHA
Já ouço os soluços vindos
Do berço da noite.
Ela começa a chorar.
Teria fome de pesadelos?
Todos juntos poderíamos levar aos seus lábios
Um enorme duto
Pelo qual ela sugararia o oceano
Dos nossos medos.
Talvez ela tenha dores no ventre
Inflado de gases nebulosos e astronômicos
Ou farto da loucura, do mal e da morte
Ainda por digerir.
Teria se mirado no espelho côncavo,
Suspenso móbile,
E descoberto ter ela mesma medo de si?
Choro insuportável. Como aguentamos?
Onde estará a mãe da noite?
Dizem que ela tem apenas um pai
Ausente e operoso
Em trabalho eterno no vão entre a luz e a escuridão.
Pobre noite.
Vamos aceitar o encargo de sermos suas babás?
Balancemos seu berço,
Cada qual toque a parte dele
Que lhe chega à janela,
E afinados sussurremos um acalanto:
Dorme...
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terça-feira, 20 de março de 2012
Cinco Poemas Em Outro Outono
EXERCÍCIO
A insônia pode ser
Um salto mental
Em busca de sol.
MISSIVA
Juntei quinhentas palavras,
Granítico vocabulário
Para erguer rígida muralha
Entre nós.
Fracasso de engenharia,
Este discurso de alvenaria
Não resiste ao sopro quente
Da tua voz.
PARA AMANHÃ
Preciso mudar o tom
E o suporte:
Não será no chão da ágora,
Com algum cinza neutro.
Dispensarei a parede sombria
Do cárcere onde grafitar-me
Sombrio redundante,
Sombra sobre sombra
Simula o transparente.
Será mudança meteorológica:
Um céu tão claro
Sobre um vinco apagando-se
Que ninguém diria horizonte-
Oriente-orientar,
E mar!
Com as palavras o sobrevoando,
Livres de sentido,
Ensinando às gaivotas, enfim,
O não-
Mergulhar.
QUANDO REPRESENTA A AÇÃO
Algumas palavras mudam de grau
Sem que nada se lhes acrescente.
Por exemplo:
Não é falada,
Mas escrita,
Que a palavra escrever
Exulta e se realiza.
Haverá outras?
Talvez a palavra pintar
Anotada com pincel e tinta.
Haverá outras?
Talvez a palavra sangrar
Realizada por um Pollock
Num dripping
Com um filete de sangue.
Haverá outras?
Não sei, não vou pensar.
Mas uma exceção extrema
CORRIDA*
A temporalidade
É a minha Atalanta,
E sou seu Hipômenes.
Preciso superá-la na corrida
Porque a quero desposar.
Ela é tão mais veloz...
Jogo-lhe uns pomos de ouro
À frente!
Mas, contra o mito de outrora,
Ela não os nota,
Passa rente sem lhes dar bola...
* Sobre a história de Atalanta e Hipômenes, ver aqui
A insônia pode ser
Um salto mental
Em busca de sol.
MISSIVA
Juntei quinhentas palavras,
Granítico vocabulário
Para erguer rígida muralha
Entre nós.
Fracasso de engenharia,
Este discurso de alvenaria
Não resiste ao sopro quente
Da tua voz.
PARA AMANHÃ
Preciso mudar o tom
E o suporte:
Não será no chão da ágora,
Com algum cinza neutro.
Dispensarei a parede sombria
Do cárcere onde grafitar-me
Sombrio redundante,
Sombra sobre sombra
Simula o transparente.
Será mudança meteorológica:
Um céu tão claro
Sobre um vinco apagando-se
Que ninguém diria horizonte-
Oriente-orientar,
E mar!
Com as palavras o sobrevoando,
Livres de sentido,
Ensinando às gaivotas, enfim,
O não-
Mergulhar.
QUANDO REPRESENTA A AÇÃO
Algumas palavras mudam de grau
Sem que nada se lhes acrescente.
Por exemplo:
Não é falada,
Mas escrita,
Que a palavra escrever
Exulta e se realiza.
Haverá outras?
Talvez a palavra pintar
Anotada com pincel e tinta.
Haverá outras?
Talvez a palavra sangrar
Realizada por um Pollock
Num dripping
Com um filete de sangue.
Haverá outras?
Não sei, não vou pensar.
Mas uma exceção extrema
Me vem à consciência,
Uma que plena apenas se realiza
Quando não falada nem escrita:
A palavra ausência.
Uma que plena apenas se realiza
Quando não falada nem escrita:
A palavra ausência.
CORRIDA*
A temporalidade
É a minha Atalanta,
E sou seu Hipômenes.
Preciso superá-la na corrida
Porque a quero desposar.
Ela é tão mais veloz...
Jogo-lhe uns pomos de ouro
À frente!
Mas, contra o mito de outrora,
Ela não os nota,
Passa rente sem lhes dar bola...
![]() |
| Guido Reni, Atalanta e Hipômenes, óleo sobre tela, 1616. |
* Sobre a história de Atalanta e Hipômenes, ver aqui
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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Poemas de Ar Comprimido 2
TERCEIRA PESSOA
Descrer em mim,
Ainda que
Me descrevendo.
INFÂNCIA
A fruta fossilizada,
fosse ainda
o sumo mel...
MONITOR
Não tem este ecrã
a variação luminosa
de uma página de papel:
Aqui fixou-se a manhã,
de forma que a palavra
não se esforça
para não entardecer.
Ademais, e a maciez
da pele que registra
o arrependimento?
Aqui não há.
Meu rascunho
já tem cunho de arte final.
Não transparece
a tatuagem involuntária
da palavra removida,
como no papel que acumula
novas fibras.
EM REDE
Já havia tanto o que pensar
sobre o mundo objetivo
e suas normas e leis sociais.
E agora essa dúvida a mais:
darei crédito a tantos éditos
pessoais?
VALOR
Eu queria ter guardado
aquela hora-horizonte
que foi valiosa e nobre...
Porém, o dia já se vai
e não deixou o segredo
do cofre
de ontem.
EU-OUTRO
Como é difícil simular a alteridade
quando o pensamento ensaia uma ação
contrária, que para efetivar-se
requer prévia ocultação:
não consigo jogar xadrez comigo mesmo
pois para a estratégia que prevejo
já há uma adversária antecipação.
Fosse partida de pôquer
jogaríamos eu e o eu-outro
totalmente a descoberto,
e eu não poderia ser no blefe
mais que eu mesmo esperto.
Mas em se tratando apenas de pensar,
ter comigo mesmo livre conversação,
não ao pé, mas entre os ouvidos,
surgem debatedores desconhecidos,
(sem querer interromper, e já interrompendo)
e monta-se o seminário da alter-multidão.
RECONHECIMENTO
Pensando bem,
o que posso acrescentar ao todo?
Um suplemento elementar,
um apêndice-engodo.
PARTITURA
Onde a pauta, maestro?
Em que claves por as vozes
que de ouvido mal orquestro?
INSANO OFÍCIO
Talvez não me custe imaginar
o que foi a Inquisição:
tenho um tribunal na mente
e lenha já acumulada
na praça do meu coração.
TRAGICOMÉDIA
Quer saber de uma coisa?
Não creio na existência
de um pássaro dionisíaco
que jamais pousa.
CINZA
Dia chuvoso.
Diria o poeta:
céu plúmbeo.
Parece uma síntese
de nuvens antitéticas:
plumas de chumbo.
ÍRIS
Tens olhos
de fundo de xícara.
Vitrificada faiança
com sobra
de doce chá.
Descrer em mim,
Ainda que
Me descrevendo.
INFÂNCIA
A fruta fossilizada,
fosse ainda
o sumo mel...
MONITOR
Não tem este ecrã
a variação luminosa
de uma página de papel:
Aqui fixou-se a manhã,
de forma que a palavra
não se esforça
para não entardecer.
Ademais, e a maciez
da pele que registra
o arrependimento?
Aqui não há.
Meu rascunho
já tem cunho de arte final.
Não transparece
a tatuagem involuntária
da palavra removida,
como no papel que acumula
novas fibras.
EM REDE
Já havia tanto o que pensar
sobre o mundo objetivo
e suas normas e leis sociais.
E agora essa dúvida a mais:
darei crédito a tantos éditos
pessoais?
VALOR
Eu queria ter guardado
aquela hora-horizonte
que foi valiosa e nobre...
Porém, o dia já se vai
e não deixou o segredo
do cofre
de ontem.
EU-OUTRO
Como é difícil simular a alteridade
quando o pensamento ensaia uma ação
contrária, que para efetivar-se
requer prévia ocultação:
não consigo jogar xadrez comigo mesmo
pois para a estratégia que prevejo
já há uma adversária antecipação.
Fosse partida de pôquer
jogaríamos eu e o eu-outro
totalmente a descoberto,
e eu não poderia ser no blefe
mais que eu mesmo esperto.
Mas em se tratando apenas de pensar,
ter comigo mesmo livre conversação,
não ao pé, mas entre os ouvidos,
surgem debatedores desconhecidos,
(sem querer interromper, e já interrompendo)
e monta-se o seminário da alter-multidão.
RECONHECIMENTO
Pensando bem,
o que posso acrescentar ao todo?
Um suplemento elementar,
um apêndice-engodo.
PARTITURA
Onde a pauta, maestro?
Em que claves por as vozes
que de ouvido mal orquestro?
INSANO OFÍCIO
Talvez não me custe imaginar
o que foi a Inquisição:
tenho um tribunal na mente
e lenha já acumulada
na praça do meu coração.
TRAGICOMÉDIA
Quer saber de uma coisa?
Não creio na existência
de um pássaro dionisíaco
que jamais pousa.
CINZA
Dia chuvoso.
Diria o poeta:
céu plúmbeo.
Parece uma síntese
de nuvens antitéticas:
plumas de chumbo.
ÍRIS
Tens olhos
de fundo de xícara.
Vitrificada faiança
com sobra
de doce chá.
| Marcantonio, óleo sobre tela, 2003. (Clique para ampliar) |
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domingo, 8 de janeiro de 2012
Poemas de Ar Comprimido
INDOLÊNCIA
Lamento
O osso do dia
Que um cão furtivo
Deve ter levado
Entre os dentes
Enquanto eu estava
Domingo.
JARDIM ETIMOLÓGICO
No jardim zoológico
O hipopótamo não tem
Propriamente um rio
Para si.
Mas não o tem também
A própria palavra "rio".
NOTA
Sou rebelde sem efeito:
Não encontro uma causa
Que não tenha defeito.
AERO-SIMBOLISTA
De névoas acirrado
(O cúmulo de sensações vaporosas)
Flutuo em nimbo poético
A quilômetros do solo da prosa.
AUSPICIOSO
No céu que azul transborda,
Solitária nuvem clara
Em forma de escorpião:
Que boa nova! Um signo do medo
Com textura de algodão!
CABO BRANCO, PB.
De saudade me bronzeio
Com o primeiro sol nordestino
Que não me alcança aqui,
Mas em mim brilha, sob a pele,
De permeio.
DESPERDÍCIO
Talvez perca,
Falando,
O tempo encantado
De ficar sem palavras.
DESPERDÍCIO 2
No tempo em que a palavra
Ilusória surja,
E com esforço se implante,
Talvez alguma oportunidade
De vivo desplante nos fuja.
PUERIL
Não sei em que galho
Ainda está pendurado
O adulto maduro
No qual eu deveria
Ter me consumado.
NEON
Estranho
Que ao fechar os olhos,
Eu veja contra as pálpebras
Uma palavra luzindo íntima:
- Estrela!
Como pude fazê-la tão ínfima?
UM PELO OUTRO
Quando penso no alfabeto,
De A à Z enfileirado,
Talvez cometa um engano:
Me ocorre ver um teclado
De piano.
TEMPO GANHO
Lírico
Limbo,
O relógio
Digital
Parado
Torna
Analógico
O azul celeste.
Lamento
O osso do dia
Que um cão furtivo
Deve ter levado
Entre os dentes
Enquanto eu estava
Domingo.
JARDIM ETIMOLÓGICO
No jardim zoológico
O hipopótamo não tem
Propriamente um rio
Para si.
Mas não o tem também
A própria palavra "rio".
NOTA
Sou rebelde sem efeito:
Não encontro uma causa
Que não tenha defeito.
AERO-SIMBOLISTA
De névoas acirrado
(O cúmulo de sensações vaporosas)
Flutuo em nimbo poético
A quilômetros do solo da prosa.
AUSPICIOSO
No céu que azul transborda,
Solitária nuvem clara
Em forma de escorpião:
Que boa nova! Um signo do medo
Com textura de algodão!
CABO BRANCO, PB.
De saudade me bronzeio
Com o primeiro sol nordestino
Que não me alcança aqui,
Mas em mim brilha, sob a pele,
De permeio.
DESPERDÍCIO
Talvez perca,
Falando,
O tempo encantado
De ficar sem palavras.
DESPERDÍCIO 2
No tempo em que a palavra
Ilusória surja,
E com esforço se implante,
Talvez alguma oportunidade
De vivo desplante nos fuja.
PUERIL
Não sei em que galho
Ainda está pendurado
O adulto maduro
No qual eu deveria
Ter me consumado.
NEON
Estranho
Que ao fechar os olhos,
Eu veja contra as pálpebras
Uma palavra luzindo íntima:
- Estrela!
Como pude fazê-la tão ínfima?
UM PELO OUTRO
Quando penso no alfabeto,
De A à Z enfileirado,
Talvez cometa um engano:
Me ocorre ver um teclado
De piano.
TEMPO GANHO
Lírico
Limbo,
O relógio
Digital
Parado
Torna
Analógico
O azul celeste.
| Marcantonio, Canto do Atelier, Óleo sobre tela, 1995 (clique p/ ampliar). |
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quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Dezoito Anos em Doze Autorretratos
(Clique na imagem para ampliar)
| Desenho a carvão, 1993 |
| Pastel seco sobre papel, 1993. |
| Pastel oleoso, 1995 |
| Pastel oleoso sobre cartão, 1995. |
| Acrílica sobre cartão, 96. |
| Acrílica e pilot, 1996 |
| Acrílica sobre cartão, 96. |
| Óleo sobre papel, 1997. |
| Óleo sobre papel, 1997. |
| Óleo sobre tela, 2000. |
![]() |
| Óleo sobre tela, 2001 |
![]() |
| Desenho com programa digital, 2011 |
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terça-feira, 11 de outubro de 2011
EPIGRAMAS E HORTALIÇAS
EPIGRAMAS E HORTALIÇAS
1-INCIDENTAL
Não tenho continuidade
presumida
para fazer-me autoridade
em qualquer altura
da vida.
2- AMULETO
Afinal, para quê?
Eis a questão!
É por mim
ou por você?
3- ANTÍTESE
Humor
tal
e tanto
que é feito
dor.
4- CONTA COMIGO
Vou ficar aqui lendo
o livro das faces
o dia inteiro
para ver se me dou
na última página
com o meu paradeiro.
5- VIDA VERBAL
Posso improvisar
ao vivo
um vício
em que não estou
pensando
agora.
6-
Diga-me, ó Caos
tu és tudo mesmo?
Essa bagunça?!
Então como pus ordem
nesta pergunta?
7- E LA NAVE VA (Outra Vez)
Mas,
para quê
essa nau
que atravesse
o mar banal,
se há um cabo
das tormentas
no meu quintal?
8-
É muito que quero
a poética viagem.
Só me desanima
levar-me na bagagem.
9-
Sou um lenço descartável
onde Cronos, constipado,
Assoou o nariz.
10- LAOCOONTE NÃO CONTAVA
A serpente deve ser
bicho divino,
criado para ensinar
o bote ao destino.
11-
Nem sempre o capital
promove a desigualdade.
Às vezes consolida
o encontro das diversidades.
Reúne, por exemplo,
ao circo dos contentes
o coro dos contestadores,
contratando-lhes a atração
da rebelião aparente.
Fosse ambicioso eu investiria
no mercado da rebeldia.
Mas é outra a minha especulação.
12-
Então!
Que contrariedade!
Que contradição!
Defendo a irracionalidade
com argumentos
cheios de razão!
14-
Eu poderia fazer tanta arte!
Por que não quero poder?
15-
Res - pirar:
viver é coisa
muito louca.
16-
Aos que querem me editar:
lamento!
O meu papel é fragmento.
17-
Que estranha contradição:
Eu falando contra o vau
do rio
em que faço folgada navegação.
18- ÓTICA
Há horas em que diferenciar
um anjo de um demônio
é como distinguir
o super-homem do Clark Kent:
uma mera questão de lentes.
19-
Como aniquilar
o ressurgimento
desse precipício?
Vejo renascer sempre,
do cinzeiro nojento,
a fênix do vício.
20-
Não é falta de empatia
supor para o mundo
um tamanho extremo.
Mania de grandeza
é abraçá-lo pequeno.
21-
Reencarnar deveria ser
dar-se conta subitamente
de que era outra
esta mesma vida
não vivida intensamente.
22- VERSOS REBAIXADOS
Para ressaltar
a oculta alegria,
faça uma tonal grafia
com contraste.
23-
Meus amigos, de vós fujo,
Mudo me afasto,
caramujo,
mas lentamente,
e deixo um rastro
de afeto transparente.
24- CÔMICO
Todo palhaço no fundo
é triste
porque sabe da tragédia
da representação:
não pode fazer graça
com o que infelizmente
não existe.
O grotesco não é pura
imaginação.
25- JARDIM ETIMOLÓGICO
No jardim zoológico
o hipopótamo não tem
propriamente um rio.
Mas também não o tem
a própria palavra "rio".
26- ESFINGINDO
Adio a decifração
do mistério que há
no sorriso do sol
e na lágrima lunar.
27- RATIFICAÇÃO
A errata é desnecessária,
não houve erro gráfico,
quis mesmo dizer fugir
e não "fulgir".
Eu não roubei fogo algum:
Só a estrelas fugiriam fulgindo.
28- INCOMPATIBILIDADE
Tenho alma de almanaque
e tu és contra gotas
de elixir da verdade.
1-INCIDENTAL
Não tenho continuidade
presumida
para fazer-me autoridade
em qualquer altura
da vida.
2- AMULETO
Afinal, para quê?
Eis a questão!
É por mim
ou por você?
3- ANTÍTESE
Humor
tal
e tanto
que é feito
dor.
4- CONTA COMIGO
Vou ficar aqui lendo
o livro das faces
o dia inteiro
para ver se me dou
na última página
com o meu paradeiro.
5- VIDA VERBAL
Posso improvisar
ao vivo
um vício
em que não estou
pensando
agora.
6-
Diga-me, ó Caos
tu és tudo mesmo?
Essa bagunça?!
Então como pus ordem
nesta pergunta?
7- E LA NAVE VA (Outra Vez)
Mas,
para quê
essa nau
que atravesse
o mar banal,
se há um cabo
das tormentas
no meu quintal?
8-
É muito que quero
a poética viagem.
Só me desanima
levar-me na bagagem.
9-
Sou um lenço descartável
onde Cronos, constipado,
Assoou o nariz.
10- LAOCOONTE NÃO CONTAVA
A serpente deve ser
bicho divino,
criado para ensinar
o bote ao destino.
11-
Nem sempre o capital
promove a desigualdade.
Às vezes consolida
o encontro das diversidades.
Reúne, por exemplo,
ao circo dos contentes
o coro dos contestadores,
contratando-lhes a atração
da rebelião aparente.
Fosse ambicioso eu investiria
no mercado da rebeldia.
Mas é outra a minha especulação.
12-
Então!
Que contrariedade!
Que contradição!
Defendo a irracionalidade
com argumentos
cheios de razão!
14-
Eu poderia fazer tanta arte!
Por que não quero poder?
15-
Res - pirar:
viver é coisa
muito louca.
16-
Aos que querem me editar:
lamento!
O meu papel é fragmento.
17-
Que estranha contradição:
Eu falando contra o vau
do rio
em que faço folgada navegação.
18- ÓTICA
Há horas em que diferenciar
um anjo de um demônio
é como distinguir
o super-homem do Clark Kent:
uma mera questão de lentes.
19-
Como aniquilar
o ressurgimento
desse precipício?
Vejo renascer sempre,
do cinzeiro nojento,
a fênix do vício.
20-
Não é falta de empatia
supor para o mundo
um tamanho extremo.
Mania de grandeza
é abraçá-lo pequeno.
21-
Reencarnar deveria ser
dar-se conta subitamente
de que era outra
esta mesma vida
não vivida intensamente.
22- VERSOS REBAIXADOS
Para ressaltar
a oculta alegria,
faça uma tonal grafia
com contraste.
23-
Meus amigos, de vós fujo,
Mudo me afasto,
caramujo,
mas lentamente,
e deixo um rastro
de afeto transparente.
24- CÔMICO
Todo palhaço no fundo
é triste
porque sabe da tragédia
da representação:
não pode fazer graça
com o que infelizmente
não existe.
O grotesco não é pura
imaginação.
25- JARDIM ETIMOLÓGICO
No jardim zoológico
o hipopótamo não tem
propriamente um rio.
Mas também não o tem
a própria palavra "rio".
26- ESFINGINDO
Adio a decifração
do mistério que há
no sorriso do sol
e na lágrima lunar.
27- RATIFICAÇÃO
A errata é desnecessária,
não houve erro gráfico,
quis mesmo dizer fugir
e não "fulgir".
Eu não roubei fogo algum:
Só a estrelas fugiriam fulgindo.
28- INCOMPATIBILIDADE
Tenho alma de almanaque
e tu és contra gotas
de elixir da verdade.
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011
Dois Poemas para Duas Imagens
![]() |
| Caravaggio, O Sacrifício de Isaac, óleo s/ tela - 1603 |
Abraão, nos nervos da tua mão
Tão humanamente tensionados,
Todo um pasmo
Diante do absurdo do sagrado.
Agora sabes da estupidez
De todo sacrifício?
A tua verdade testada é insana,
Um anjo te toca e te chama
À realidade veraz;
Acorda para o pesadelo,
Isaac não vale mais
Do que esse pobre cordeiro.
Tu foste o primeiro a percebê-lo:
Humanos, não somos divinos,
Mas meros animais.
![]() |
| Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, óleo s/ tela - 1620 |
Dr. Tulp, o artista não te fez um logro?
Pôs o teu olhar suspenso num limbo
Entre a ciência e o ogro da morte,
Nenhum anatomista pode se perguntar
Sobe os desígnios da sorte.
O que pinças, tendão ou nervo,
Começa no morto,
Mas termina em ti mesmo.
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Serei Poeta?
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Um Poema Triste e Dois Bem-humorados
ENTRE A CANÇÃO ÍNTIMA E O SILÊNCIO PÚBLICO
Parece que aguardam de mim
Uma fala inusitada,
Recitativo oficial
Que reunisse ao familiar uma revelação
Contente,
Como se eu fosse um pássaro
Dentro do ovo transparente do dia,
E lhe rompesse a casca como um raio de luz
Ainda mais luminoso do que o ambiente.
Às vezes um estranho me pára na rua
E põe-se a fazer um gesto de maestro
Penteando o ar para determinar a cadência
Sobre a qual iniciarei a música:
- O que temos para hoje? Vamos homem!
Comece a cantar!
Não, meu senhor, tenho dentro de mim uma canção
Tão triste...
E é para a tua alegria que não sou profeta
E não a poço tornar audível.
Tu não me serias solidário, ninguém seria.
Mas deixa-me chegar à praça,
Sentar-me num banco solitário
A aguardar que algum deus zombeteiro
Espane do alto um dicionário universal.
E será lindo,
Essa chuva particular só sobre mim caindo,
As palavras como cinzas vulcânicas,
Ocultando-me sob camadas,
Transtornada a ordem alfabética.
Quando ouvires se espalhar a notícia desse rito,
Desse ofício,
Corre à praça para ver
O meu sepultamento público no silêncio,
Sob o enorme monturo
De todas as palavras existentes.
ANTES DO ALMOÇO
Dedicado a Tuca Zamagna
Enquanto descasco
Abobrinhas italianas -
Zucchini! –
Reflito sobre Dante:
Serão duas poéticas
Conflitantes?
Não sei, mas me concentro
Na primeira
Antes que estrague o almoço
E tenha de ir a um restaurante.
Apêndice:
Este poema poderia
Ter outras versões condignas:
Fosse o poeta outra pessoa,
Seria o prato à moda do Porto;
Ou fosse um poeta gauche
E um acepipe mineiro;
Um arroz de carreteiro
Conviria para duelar
Com um poeta gaúcho;
Um oponente de luxo
Para Mallarmé?!
Fricassé!
Para Augusto dos Anjos
Poeta soturno de um Eu sozinho,
Poderia convir carne-de-sol
E arrumadinho?
Que pensar do russo Maiakovski?
Seria blasfemo opô-lo a strogonoff?
E Bashô? Arroz havia de consumir?
Haicaístas modernos é que apreciam
A extensão de uma bandeja de sushi;
Com João Cabral não se daria
Unívoca cozinha:
Seria uma paella
Ou algo oriundo da casa de farinha?
Pedra não há de ser,
Que, embora poética,
É dura de roer.
E com que prato devanearia
Junto a Charles Bukowski?
Uma sobremesa? Pudim de whisky?
Maior dilema estaria por vir:
O que pôr à mesa
Pensando em Blake ou Shakespeare?
A minha ignorância da cozinha inglesa...
Mas hei de parar por aqui
Embora muitos os poetas e os pratos,
Um Lorca, Poe, Baudelaire, Valéry...
Convém fechar o cardápio
Antes que me venha a dúvida
Sobre que poeta associar
Ao preparo do carpaccio...
Haveria algum perigo,
Vá que seja um poeta ainda vivo!
POR FALAR EM COZINHA
Falam tanto de poemas
E gavetas!
Os meus guardo-os no forno.
Editá-los seria levá-los à mesa?
Parece que aguardam de mim
Uma fala inusitada,
Recitativo oficial
Que reunisse ao familiar uma revelação
Contente,
Como se eu fosse um pássaro
Dentro do ovo transparente do dia,
E lhe rompesse a casca como um raio de luz
Ainda mais luminoso do que o ambiente.
Às vezes um estranho me pára na rua
E põe-se a fazer um gesto de maestro
Penteando o ar para determinar a cadência
Sobre a qual iniciarei a música:
- O que temos para hoje? Vamos homem!
Comece a cantar!
Não, meu senhor, tenho dentro de mim uma canção
Tão triste...
E é para a tua alegria que não sou profeta
E não a poço tornar audível.
Tu não me serias solidário, ninguém seria.
Mas deixa-me chegar à praça,
Sentar-me num banco solitário
A aguardar que algum deus zombeteiro
Espane do alto um dicionário universal.
E será lindo,
Essa chuva particular só sobre mim caindo,
As palavras como cinzas vulcânicas,
Ocultando-me sob camadas,
Transtornada a ordem alfabética.
Quando ouvires se espalhar a notícia desse rito,
Desse ofício,
Corre à praça para ver
O meu sepultamento público no silêncio,
Sob o enorme monturo
De todas as palavras existentes.
ANTES DO ALMOÇO
Dedicado a Tuca Zamagna
Enquanto descasco
Abobrinhas italianas -
Zucchini! –
Reflito sobre Dante:
Serão duas poéticas
Conflitantes?
Não sei, mas me concentro
Na primeira
Antes que estrague o almoço
E tenha de ir a um restaurante.
Apêndice:
Este poema poderia
Ter outras versões condignas:
Fosse o poeta outra pessoa,
Seria o prato à moda do Porto;
Ou fosse um poeta gauche
E um acepipe mineiro;
Um arroz de carreteiro
Conviria para duelar
Com um poeta gaúcho;
Um oponente de luxo
Para Mallarmé?!
Fricassé!
Para Augusto dos Anjos
Poeta soturno de um Eu sozinho,
Poderia convir carne-de-sol
E arrumadinho?
Que pensar do russo Maiakovski?
Seria blasfemo opô-lo a strogonoff?
E Bashô? Arroz havia de consumir?
Haicaístas modernos é que apreciam
A extensão de uma bandeja de sushi;
Com João Cabral não se daria
Unívoca cozinha:
Seria uma paella
Ou algo oriundo da casa de farinha?
Pedra não há de ser,
Que, embora poética,
É dura de roer.
E com que prato devanearia
Junto a Charles Bukowski?
Uma sobremesa? Pudim de whisky?
Maior dilema estaria por vir:
O que pôr à mesa
Pensando em Blake ou Shakespeare?
A minha ignorância da cozinha inglesa...
Mas hei de parar por aqui
Embora muitos os poetas e os pratos,
Um Lorca, Poe, Baudelaire, Valéry...
Convém fechar o cardápio
Antes que me venha a dúvida
Sobre que poeta associar
Ao preparo do carpaccio...
Haveria algum perigo,
Vá que seja um poeta ainda vivo!
POR FALAR EM COZINHA
Falam tanto de poemas
E gavetas!
Os meus guardo-os no forno.
Editá-los seria levá-los à mesa?
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quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Três Poemas no Final de Agosto
CONTEXTO
Confesso-te que falar das nuvens
Reais
É só o pretexto de aludir àquelas
Virtuais
Que passam pelos teus olhos.
Ah, o tempo muda!
E esses cúmulos nimbos me comovem,
Teu céu se fecha e tuas dores humanas
Chovem.
Mas também falar da tua chuva súbita
É outro artifício:
Quero dizer da possível fecundidade
Que se seguirá à pluviosidade
Do teu sacrifício.
Ah, cessa a precipitação e teu olhos
Ficam claros:
Os córregos sinuosos reverdecem
Um solo cansado e deste surge broto
Raro.
É evidente que este broto será flor
Persuasiva,
Surgida na intenção de engendrar
Metáfora viva.
Ah, essa flor fenecerá
Como todas as rosas surpreendentes
Da vida.
Mas são também dádivas estranhas
De que é possível se impregnar.
Não tomes esta flor metafórica
Por decorativa,
Urge despetalá-la, esmagá-la nas palmas
Abrasivas,
Pois não era da flor que eu quisera falar,
Mas do odor que ela deixa nas tuas mãos
Queridas.
LOGRO
Atraiçoou-me
A inspiração
Na qual mergulhara
Insone.
De volta à tona
Do dia,
Verídica não era
A rútila pérola:
Outro poema areado,
Mera pedra-pomes.
REVER DEVIR
O olhar trás.
O olhar leva.
O olhar vivo
Subleva
Em mim,
O ponto-de-vista
Triste do artista:
Tanto olhar
Treva
Só
Entrevendo fim.
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domingo, 7 de agosto de 2011
DOIS POEMAS
CANTOCHÃO
É tão breve o eco das antífonas em meus ouvidos.
Não têm o rumor de mil garças alçando vôo
Após a salva de tiros de timbales,
Mas o chiado ardido
De uma rocha ígnea afogando-se num lago.
Não invejo os que ouvem o coro dos anjos
Porque beatificam a dúvida
E não sabem se o retiram de si mesmos
Como quem vê vazar o sangue dos próprios
Pulsos
E o estranha como a um desconhecido.
Meu coro angelical é essa salmodia de pássaros
Urbanos
Saudando a dessacralização da tarde
Sem que eu possa vê-los como arautos exilados
Ou como escravos bardos de uma elegia,
Tão natural é sua lida com a luz real do dia,
Aquela que lenta se transmuda, térmico relógio.
Não sei se retiro de mim, víscera que não estranho,
Essa concretude profana da tarde, banal tarde;
Mas dentro dela, verdadeiro, fico muito à vontade.
LARGO
É tão serenamente que Proserpina
Sobe à superfície da terra,
Tão logicamente,
Tão maquinalmente,
Tão inexoravelmente!
Nada da humana ansiedade
De evadir-se da escuridão.
Como são impacientes as lâmpadas
Que querem cegar os olhos da noite.
De outro modo,
Uso óculos escuros ao dia
Para me afeiçoar ao meu destino.
É tão breve o eco das antífonas em meus ouvidos.
Não têm o rumor de mil garças alçando vôo
Após a salva de tiros de timbales,
Mas o chiado ardido
De uma rocha ígnea afogando-se num lago.
Não invejo os que ouvem o coro dos anjos
Porque beatificam a dúvida
E não sabem se o retiram de si mesmos
Como quem vê vazar o sangue dos próprios
Pulsos
E o estranha como a um desconhecido.
Meu coro angelical é essa salmodia de pássaros
Urbanos
Saudando a dessacralização da tarde
Sem que eu possa vê-los como arautos exilados
Ou como escravos bardos de uma elegia,
Tão natural é sua lida com a luz real do dia,
Aquela que lenta se transmuda, térmico relógio.
Não sei se retiro de mim, víscera que não estranho,
Essa concretude profana da tarde, banal tarde;
Mas dentro dela, verdadeiro, fico muito à vontade.
LARGO
É tão serenamente que Proserpina
Sobe à superfície da terra,
Tão logicamente,
Tão maquinalmente,
Tão inexoravelmente!
Nada da humana ansiedade
De evadir-se da escuridão.
Como são impacientes as lâmpadas
Que querem cegar os olhos da noite.
De outro modo,
Uso óculos escuros ao dia
Para me afeiçoar ao meu destino.
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sexta-feira, 29 de julho de 2011
Dois Poemas do Final de Julho
PLANAR E POUSAR
1 - Pluma
Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.
Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.
Ó pluma randômica, em que esquina de vôo poderias escapar
Da idéia de pássaro que te aprisiona?
2 - Osso
Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.
É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.
3 - Pouso
O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.
RECEPÇÃO
Ouvidos insetívoros
Captam zumbidos:
Com astúcias de flores vistosas
E um néctar ressentido
Atraem artrópodes melíferos
E os asfixiam no silêncio.
1 - Pluma
Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.
Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.
Ó pluma randômica, em que esquina de vôo poderias escapar
Da idéia de pássaro que te aprisiona?
2 - Osso
Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.
É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.
3 - Pouso
O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.
RECEPÇÃO
Ouvidos insetívoros
Captam zumbidos:
Com astúcias de flores vistosas
E um néctar ressentido
Atraem artrópodes melíferos
E os asfixiam no silêncio.
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