Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

Mostrando postagens com marcador Luz. Mais Luz.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Luz. Mais Luz.. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de março de 2010

Os Bobos da Cultura Moderna

“Os bobos das cortes medievais correspondem aos nossos folhetinistas; é a mesma espécie de homens, meio racionais, engraçados, tolos, que só servem para, vez por outra, mitigar o patético da situação por meio de piadas e conversa fiada e ensurdecer com sua gritaria o som demasiadamente pesado e solene do toque dos sinos nos grandes acontecimentos; outrora, a serviço dos príncipes e dos nobres, agora a serviço dos partidos (como no espírito de partido ainda sobrevive hoje uma boa parte da velha obsequiosidade das relações entre povo e príncipes). Mas toda a classe moderna dos literatos está muito próxima dos folhetinistas; são os “bobos da cultura moderna” que julgamos com mais indulgência quando não os tomamos como inteiramente responsáveis. Considerar a atividade de escritor como uma profissão deveria, a bem da verdade, passar por uma espécie de loucura.”

(Nietzsche, Humano, Demasiado Humano – Capítulo IV – Tópico 194)

Admirável, não? Depois de postar esse texto de Nietzsche, eu deveria deletar este blog e ir plantar batatas. Mas, pobre de mim! Quem sou eu, como muitos, senão um bobo fora das cortes? Mas quando leio esse tópico, penso logo em muitos escritores, intelectuais e artistas (deveria colocá-los entre aspas) que costumam frequentar assiduamente a nossa mídia. A descrição, segundo penso, lhes cai perfeitamente.

















Nietzsche e a Embriaguez  -  Marcantonio

sábado, 30 de janeiro de 2010

"Poesia Matemática" em Vídeo de Alunos do Ensino Médio

A primeira vez que vi este vídeo foi no De Rerum Natura. Trata-se de uma versão bem criativa para a extraordinária "Poesia Matemática" de Millôr Fernandes, versão essa realizada por alunos do ensino médio de um colégio de Feira de Santana, Bahia, sob orientação do professor Victor Venas. Pesquisando sobre o professor, descobri tratar-se de profissional premiado que desenvolve um projeto, "Educação para Mídias e Artes", trabalha também com videoarte, tendo tido participações em diversos Salões. Mais sobre ele nos sites GRUPO X, e ARTE NA ESCOLA



POESIA MATEMÁTICA


                                 Millôr Fernandes


Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo retangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
"Quem és tu?", indagou ele
em ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa."
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
retas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidiana
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
um perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum
freqüentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fração,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade.