Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Uma Alegria

Um diálogo que me deu uma súbita alegria : Laura Alberto, do blog Im.Possibilidade, utilizou duas imagens minhas associadas a dois textos seus. A sensação é muito boa, sobretudo porque a escrita dela possui uma atmosfera absolutamente própria, simbólica, que, digamos, sugere uma releitura indireta das imagens que lhe são associadas de maneira não óbvia nem meramente ilustrativa. Sinto-me honrado de ter imagens num espaço que trata a relação imagem/texto de modo tão elegante e sugestivo. E só posso agradecer a ela.
Afora isso, ressalte-se a qualidade de seu texto: seus poemas me impressionam por multifacetados que são, densos, fortes, aqui e ali atravessados por imagens de teor surrealista que destemperam o tom confessional.
Chamo atenção para o poema MANIFESTO VIII - Corcunda, realmente admirável, cujo tom elevado, ergue, por vizinhança, as possibilidades da minha imagem.

Im.Possibilidadehttp://lauraalbertopossiveldiario.blogspot.com/

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Curiosa Dialética

Quando a conversa recaía sobre as relações humanas, ele costumava citar:
- É muito bom ser importante, mas é muito mais importante ser bom! – Sem declinar o autor da frase de efeito.
Era infalível que, dali a instantes, viesse com outra máxima:
- Não me importo com o que os outros pensam de mim, mas sim com o que penso dos outros.
Essa me soava individualista. Além disso, julgava eu que a segunda oração como que reafirmava o sentido da primeira. Eu objetava: ora, mas se é importante o que penso dos outros, daí decorre que o que os outros pensam de mim também é relevante; é uma mera inversão do papel de sujeito em objeto; quando olho o outro, sou sujeito, ele objeto; quando ele me olha se dá o contrário. Não seria melhor a conclusão “me importo com o que penso de mim”?
Que tolice a minha! Sempre tão apegado à definição dos termos e restrito ao meu orgulhoso formalismo filosófico. Pseudo-filosófico, para ser justo. Era simples a questão: o que o outro pensa de mim é importante para ele, não para mim. O sujeito de ambas as orações é o mesmo: eu. E nisso estava toda a diferença. A pessoa deve agir a partir das próprias convicções, e não motivar-se como um objeto que se adéqua ao que o outro predica. Era uma expressão de autonomia, confiança na própria capacidade de agir de modo autêntico e acima das convenções sociais.
Tudo bem. Mas ainda assim soava como um credo individualista.
Posteriormente pude constatar que para ele as duas citações estavam relacionadas por uma curiosa dialética, como se advogasse o seguinte:
- Ser importante é uma ilusão construída pelos outros a meu respeito. Como não me importo com o que pensam de mim, não me julgo importante. Mas, como julgo que o importante é ser bom, então, ao ser bom só me importo com o que penso a respeito dos outros.
Era uma estranha conversão de um suposto individualismo em sentimento altruísta! De deixar órfãs as minhas vaidosas noções livrescas. Se ele tivesse uma maior destreza com as palavras (que, no fundo, é menor do que a destreza de viver), talvez se expressasse assim: só atinjo a total sensação de ser eu mesmo quando vejo no outro um ser igual a mim, não um juiz, e nem mesmo um objeto do meu julgamento.
Pelo que acompanhei da sua vida, posso afirmar que a citação daquelas frases não visava disfarçar qualquer possível ressentimento contra o seu destino de homem comum e “desimportante”. Viveu a vida metendo-se nela dos pés à cabeça, jamais  desnaturalizou a vida como pré ou pós-vida. E morreu sendo bom, o que era importante.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Exercício Básico

1

Escolho uma das grandes causas ou crenças, apenas para que eu possa abandoná-la solenemente, dizendo: “ O meu dia,  em seus efeitos, tem primazia sobre as outras ilusões”. O desertor quer reencontrar a vida anterior à grande causa. Seria isso uma causa pessoal? Não, apenas um exercício básico.

2

Como indivíduo trago em mim mesmo minha própria universalidade: essa fatalidade, essa habilitação para morrer segredando algo inexprimível. O pensamento objetivo pretende me abarcar como se eu já estivesse lá, em algum ponto anterior a mim mesmo. Não, eu não estava. Era apenas algo semelhante.

3

O meu dia, sempre contemporâneo, não migrará para o amanhã. Mesmo que eu viva cem anos, ou morra precocemente; e intentem a biografia do meu anonimato.

4

Jamais me adequarei ao modelo geral. Eu sei disso, mas o outro o ignora. Empurram-me, espremem as minhas ordinárias (des)vivências  para que caibam no tubo de ensaio. Mas, sobro. Sobro abarrotado de mim.

5

As pedras de qualquer ruína me confidenciam que só se recordam de serem pedras amorfas. Não herdaram a memória do formato a que foram submetidas.

6

Menosprezamos a matéria inconformada. Achamos banal a areia, mas o vidro esplende. E, mais acima, os vitrais transpiram luzes inventadas. Se dotarmos a matéria de um corpo, diremos que essa forma era o espírito que a própria matéria aguardava. Quando tal forma começar a se arruinar definitivamente, recordaremos sua genealogia, restauraremos seu espírito, inventando uma memória da eternidade. Assim as ruínas se tornam símbolos da permanência.

















Monotipia s/ título - Marcantonio

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A Visão de Si Mesmo e do Outro

Quem há de negar que, em geral, nos preocupamos em excesso com o que os outros pensam de nós? Uma das preocupações mais estúpidas da vida, pois na maior parte das situações  o julgamento alheio não muda um milímetro do que somos ou sequer ameaça nossas pretensões, mas nem por isso nos livramos dessa ansiedade social que no mais das vezes assume dimensões fantasmagóricas. Costumamos dotar os outros das virtudes e poderes dos quais nos julgamos desprovidos. Por isso mesmo, admiramos como libertária a superação desse temor da desaprovação social, dentro da linha do "só é realmente livre quem não tem medo do ridículo", aqueles que subestimam as convenções, individualistas excêntricos, ou, por outro lado, cultuamos as figuras perfeitamente integradas que parecem dominar ao extremo as convenções, a ponto de aparentarem se sobreporem a elas.
Há momentos na literatura em que essa questão da visão de si mesmo e do outro é posta, a meu ver, de maneira paradigmática, direta e descritiva. Eu destacaria quatro desses momentos que me impressionam particularmente. Primeiro no WERTHER, de Goethe, quando o jovem desiludido vai servir como secretário junto a um embaixador. Werther observa que:
"Nossa imaginação, levada por sua própria natureza a exaltar-se, e, ainda, excitada pelas figuras quiméricas que lhe oferece a poesia, dá corpo a uma escala de seres onde ocupamos sempre um lugar ínfimo. Tudo quanto se acha fora de nós parece mais belo, e todos os homens mais perfeitos do que nós. E isto é natural porque sentimos demasiado as nossas imperfeições e os outros sempre parecem possuir precisamente aquilo que nos falta. Em consequência, nós lhes acrescentamos tudo quanto está em nós mesmos e, para coroar a obra, concedemos-lhe também certa facilidade miraculosa que exclui toda idéia de esforço. E eis esse bem-aventurado mortal convertido num  conjunto de perfeições por nós mesmos criadas".

Segundo, um famoso poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) no qual encontramos uma percepção diferente da encontrada na citação acima, já que o sujeito vê o outro como uma ostentação ilusória de  falsas  qualidades que ironicamente ele, sujeito, nega a si próprio, acentuando sua própria fraqueza humana para revelar a hipocrisia do outro. O poema é todo uma crítica às convenções sociais que nos levam à dissimulação através do uso de máscaras que ocultam nossas fragilidades, contradições e vilezas:

POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos tem sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo e absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes da etiqueta,
Que tenho sido grotesco,  mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,,
Que quando não tenho calado tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe -- todos eles príncipes -- na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!


Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos -- mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
                                           
Eis um poema que nos faz pensar, não? Atente-se para os versos 23 e 24, em que o poeta nos diz que até confessamos com facilidade um pecado e uma violência, mas jamais uma infâmia ou uma covardia, pois a violência pode ser associada à coragem e o pecado à desenvoltura e à ousadia, como no caso do adolescente que prefere vulgarizar a própria sexualidade a ter que confessar-se virgem. O verso "Arre, estou farto de semideuses", revela a tendência do outro a se mitificar diante de nós.

( Roy Lichtenstein - Sweet Dreams, Baby!)
   
O terceiro momento é extraído do ensaio Da Presunção de Montaigne (sim, ele novamente), onde ele se confessa carente das qualidades que um homem incomum deveria ter:

"Há outro tipo de glória que consiste em termos opinião demasiado boa de nós mesmos. Essa afeição imprudente faz com que nos representemos aos nossos próprios olhos diferentes do que somos. E atua como a paixão amorosa, que empresta ao objeto do seu amor a beleza e a graça, turvando e alterando a razão de quem ama e fazendo da pessoa amada um ser muito mais perfeito do que é. 
Não quero, entretanto, que um homem se despreze ou se estime mais do que vale. Nosso julgamento deve conservar sua retidão e é justo que nisso, como em outras coisas, veja em que consiste a verdade. Se é César, que se considere corajosamente o maior guerreiro do mundo. Tudo é convenção;as convenções guiam-nos e nos levam a menoscabar a realidade. Penduramo-nos nos galhos e largamos o tronco, que é essencial.(...)
Sou vítima de uma erro sentimental que me desagrada e se me afigura iníquo e ainda mais importuno. Tento corrigi-lo, mas não posso libertar-me: subestimo o valor das coisas que possuo e, ao contrário, superavalio as que não me pertencem ou se acham fora do meu alcance.(...) Mais ainda, não tenho consciência do que eu possa valer; admiro a segurança que todos exibem e confiança que têm em si, enquanto não há nada que eu imagine saber nem que eu pense poder executar. Quando me proponho a fazer tal ou qual coisa, não tenho de antemão a noção exata dos meios de que posso dispor para obter êxito e somente percebo o que está em minhas forças pelo resultado. Duvido de mim como dos outros. Disso decorre que quando faço um trabalho merecedor de louvores, atribuo-o antes à sorte do que ao meu talento, tanto mais quanto só o acaso me guia, e o temor. (...) Não sei agradar, nem divertir, nem interessar: a melhor história do mundo, dita por mim, perde a graça e o encanto. Só sei falar quando me sinto tomado pelo assunto (...) Na dança, no jogo de bola, na luta, revelei-me sempre fracalhão e vulgar. Era absolutamente nulo na natação, na esgrima, na acrobacia e no salto. Sou tão desajeitado com as mãos que mal consigo reler o que escrevo, a ponto de preferir escrever de novo a ter que decifrar as minhas garatujas. (...) As próprias qualidades de que posso jactar-me são inúteis neste século: a simplicidade dos meus hábitos seria tachadas de covardia e fraqueza; minha fé e meus escrúpulos de superstição; minha franqueza e liberdade de atitude seriam julgadas importunas e ousadas. (...) Quanto a essa nova virtude do artifício e da dissimulação, tão apreciadas nestas eras, odeio-a supremamente. (...) É característico da covardia e do servilhismo, e predispõe à perfídia fantasiar-se e mascarar-se e não se mostrar como se é. Acostumados que andam todos a exprimirem sentimentos falsos, não lhes constitui caso de consciência desmentirem as palavras pelos atos. (...) Não há como dizer sempre tudo; seria tolice; mas o que se diz deve ser o que se pensa."
E por aí prossegue Montaigne na listagem de suas deficiências, tão extensa que não há como reproduzi-la aqui. Quem quiser se aprofundar pode ler o capítulo XVII de seus ENSAIOS. Presumindo a sinceridade de Montaigne, ao ler da primeira vez esse texto, eu me senti gratificado: se ele, que considero tão elevado, se descrevia assim, então não estarei eu totalmente perdido.
Por fim, o quarto momento, um poema de Manuel Bandeira no qual ele se retrata com uma cândida ironia:


AUTO-RETRATO

Provinciano que nunca soube                                                   
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado ( engoliu um dia


Um piano, mas o teclado
Ficou de fora ); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
Em matéria de profissão


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A Construção do Outro e a Visão de Nós Mesmos.

Sempre considerei que no fundo os sujeitos são relativamente impermeáveis. Estamos integrados de maneira orgânica ao ambiente natural, porém, mentalmente distanciados dele, da mesma forma que uma câmera está distante de seu objeto. Registramos,para posteriormente interpretar, editar, criar narrativas. Nossos instrumentos sensórios e cognitivos, tudo o que denominamos como linguagem, essa mediação objetiva entre os indivíduos, não nos habilita a saber o que de fato o outro é em sua total extensão, pois só lidamos com segmentos intervalados desse outro. Não é possível extrair do outro sua verdade, porque é provável que, como eu, ele não a conheça como verdade de si mesmo.Resta-nos, então, ordenar uma visão do outro a partir de evidências parciais e mediações sociais; preenchemos os espaços vazios dessa ordenação com elementos que respondem aos nossos medos e expectativas. A cultura é o terreno comum onde se depositam os produtos objetivos dessa intersubjetividade falha e parcial; dela toda subjetividade está ausente, mas é também dela que retiramos modelos e formatos que aplicamos na construção do outro e de nós mesmos.