Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

quinta-feira, 18 de março de 2010

Uma Pequena Fraude

O otimista absoluto agora sabe. Há algo que ele oculta como uma ferida intocável: admitir que o que quer que não seja infinito, não pode ser verdadeiramente ótimo. Sabendo disso, no fundo de si mesmo, o otimista observa o seu vaso de flores, belas e delicadas flores colhidas pela manhã, belas e delicadas flores votivas destinadas ao culto da beleza da vida; e  percebe que elas fenecem. Conclui que para mantê-las como símbolo da beleza da vida, terá que colhê-las todas as manhãs, renovando-as. O otimista verifica o quanto isso pode ser cansativo, ter de recolher todos os dias os símbolos da beleza da vida antes que por si mesmos se convertam em símbolos da decadência e do fenecimento. Isso cansa demais! O otimista que no fundo sabe, comete, então, uma pequena fraude: dispõe no seu delicado vaso um arranjo de flores de plástico, belas e delicadas flores de plástico mantidas como símbolos destinados ao culto da beleza da vida. O pessimista sorri. Sorriso amarelo.

















Imagem: Monotipia de Marcantonio 

Vitalidade

Há momentos em que penso que o meu tempo já passou; não no sentido histórico da expressão, mas naquele em que o tempo é como um crédito existencial, a franquia de um terreno fecundo para realizações. Devo estar sendo severo comigo mesmo. A discrepância entre o muito que almejo realizar e a dificuldade material para fazê-lo, acentua minha melancolia, sendo difícil definir esse mal-estar.
Estava revendo um documentário sobre Frida Kahlo e comecei a pensar sobre os fundamentos da vitalidade. De onde aquela mulher, continuamente acossada por dores terríveis, extraia tanta vontade de viver?
Como é misteriosa essa vitalidade que se mostra dissociada do tempo e alheia às circunstâncias e aparenta não depender do vigor físico, podendo, pelo contrário, até insuflá-lo em um corpo pouco resistente. Que estranho dualismo é esse? É a vontade que o produz?
Essa vitalidade se dá como um desconhecimento de limites temporais para o desejo de existir.
Um espírito que vivifica, que quer se fazer ação, que impõe-se às funções vitais, desperta as aptidões, que faz, enfim, a roda girar; e que tem seu contrário num outro espírito, o de recolhimento, evasivo sem evadir-se, espectador sem expectativas, potência alheia à ação, vítima de um deixar-se ficar. Pois o ser humano, em geral, mentalmente está sujeito a lei da inércia que rege o mundo material. Quem poderia, então, manter um grau de autonomia que o fizesse desejar de modo contínuo e independente das relações de tempo e lugar? Eu costumava crer nessa espécie de impermeabilidade idealista, uma auto-ambiência que poderíamos transportar conosco aonde quer que fôssemos e sob quaisquer circunstâncias; mas isso só seria possível se tivéssemos a capacidade de jamais espelharmos as circunstâncias, e de ignorarmos que, como dizia Aristóteles, não é qualquer vida que valha a pena ser vivida, mas apenas a boa vida.
É necessária, então, uma grande dose de ilusão para ter essa vitalidade? Aqueles que parecem possuí-la devem ser indivíduos capazes de manter sua auto-imagem sempre atualizada, ignorando os entraves que impedem a convergência do ânimo pessoal com o mundo.
Não se trata de conformação, que é justamente a aceitação de uma auto-imagem que não se atualiza, aprisionada que está no tempo passado ou a fatores adversos cuja densidade nos faz abdicar do desejo de agir e nos condena ao imobilismo.
Artistas costumam ter essa vitalidade, embora se sintam com o passar dos anos como que traídos por ela, porque aquilo que fazem parece não corresponder mais àquele impulso vital que, então, permanece independente como um espírito sem forma.



























La Columna Rota - Frida Kahlo

Da Brevidade, do Amor e da Iminente Loucura

1

A brevidade é privilégio
dos iluminados.
Eu,
que vivo na escuridão
do meu próprio firmamento,
preciso ser
prolixo
e lento.

2

Caminhamos de mãos dadas.
A manhã tem a luz corpuscular
das telas de Vermeer.
Rimos como se fôssemos ridículos
e dizemos tolices consentidas.
Extático, eu a olho
como quem vê o mar
da primeira vez.
Deus existe neste momento,
tão efêmero e pródigo
como um filme publicitário.

3

Do nada e tão súbito
o caos ao meu redor.
As perguntas abrem suas grandes asas
de pássaro assustado.
Neste ambiente estreito
a poeira levantada é insuportável.
Ruídos aflitivos de canais não sintonizados
ou de dentes sendo lixados.
Por que o norte tem suas prerrogativas?
Por que desnorteio?
Dou as costas para o centro da sala,
olho nos olhos de minha sombra na parede
e sussurro uma oração:
Oh, não se vá agora coerência minha,
não me abandone suposto sentido do mundo,
não estou pronto ainda para enlouquecer!

















Monotipia de Marcantonio - 2001

terça-feira, 2 de março de 2010

PREFÁCIO

Como devemos ler o livro da vida?

Arrancando as páginas já lidas?
Voltando atrás para recapitular
As passagens esquecidas?
Devemos considerar as notas de rodapé
Que remetem à consulta de outras fontes?

Ou devemos ser como as criancinhas
E os analfabetos
Que apenas lêem as figuras coloridas?

















Monotipia - Marcantonio - 2002

Seis Novos Poemas Meus

1

Aragem marinha

- Na margem
Dança
A linha virtual –

Desalinha
A cabeleira
Desta tarde
Ortogonal.

2 - SOB A SUPERFÍCIE

O meu dia revela
Um embrionário vazio
Em seu avesso:
Como um relógio
Que trabalha sem mostrador;
Como um corpo aberto
Na mesa cirúrgica;
Como um pássaro
Batendo asas depenadas,

Quem suporta
Ver sempre algo oculto
Sob a superfície?

Quem suporta
Ver sempre estrelado
O céu do meio-dia?

Com olhar incisivo
Lacero a trama luzidia
Da manhã efêmera.



Aquele sentido famélico,
Aguardando pela palavra,
Não terá a face iluminada.
Ele sumirá por ti adentro,
Desertando, como calhau
Caído no fosso babélico.

Ah! A tua palavra apurada
Nunca foi ou será encontrada!

4

Estou velando o cadáver
Do meu sonho derrotado:
Os cães
Ainda querem devorá-lo.

5 - QUALQUER HISTÓRIA

Conte-me a sua história
que dela eu farei um livro,
                  farei um circo,
                          um prontuário,
                  farei um relicário,
                  farei sudário,
                         sutra,
          dela farei receita,
                         súmula,
                    ou seita.

Conte-me a sua história:
      dela farei uma aula de anatomia,
                                   de psicologia,
                                   de zoologia,
                                   de teologia,
                                   de orgia.

      Dela farei um drama:
                                      sangue,
                                      vísceras,
                                      glândulas,
                                      canga,
                                      orgânica,
                                      gana.

               Farei comédia,
                        média
                        aritmética,
                        métrica.

       Dela farei um número,
                       um consenso,
                       um túmulo,
                       um prostíbulo,
                       um templo,
                farei um turíbulo,
melhor:     farei       incenso.

6 - MOTIM

Meus pálidos
Dedos
Feitos retalhos
Do gesto instruído.

Meus dedos
Amotinados,
Divergentes,
Cansados
De ser preênseis,
Tenazes
Ou indicativos.

Conflagrados.
Flagrados
Além de mim,
Babélicos
Discursam
Meus dedos
Remotos.

Meus dedos
Têm ânsias
De separação,
Trilhas próprias,
Propensões.

Alegam
Meus dedos
Idiossincrasias:
Dedocracia!!!

Meus dedos
Agora
Têm almas
De animais
Libertados.
Meus dedos!

















Monotipia - 2002 - Marcantonio

segunda-feira, 1 de março de 2010

Da Série "Livros que Amo": CARTAS A THÉO, Uma Seleção das Cartas de Van Gogh


A leitura das cartas de Van Gogh a seu irmão, Théo, teve um impacto profundo sobre mim há anos atrás. Tornou-se uma leitura recorrente. O que temos ali, pode-se presumir, é o Van Gogh verídico, distante do mito, amplamente popularizado, do artista louco e instintivo. As cartas cobrem um período de quinze anos e através delas testemunhamos seus conflitos, dúvidas, paixões, crenças e a precariedade material de sua vida. Mas também nos deparamos com um Van Gogh extremamente lúcido, argumentativo, que reflete sobre arte, literatura, religião e, acima de tudo, sobre a condição humana. É também um privilégio acompanhar o artista autodidata em seus esforços de superação, sua crença no valor do trabalho e, o mais revelador, a longa gestação das idéias e práticas que fizeram dele um artista fundamental para a modernidade.
Vou reproduzir aqui aquela que considero a mais bela de suas cartas. Quando a escreveu, Vincent tinha 27 anos e havia fracassado em todas as tentativas de encontrar um caminho na vida. Estava impossibilitado de voltar a pregar, como missionário, aos mineiros de carvão do Borinage, na Bélgica. Rejeitado sutilmente pela família, inquieto em relação ao seu futuro, acabara de descobrir sua vocação para a pintura. Escreve então ao irmão um comovente e justificado pedido de um voto de confiança. É um texto de franqueza extraordinária, reivindicando o direito de ser diferente e, ainda assim, produtivo, para além das convenções. Eu mesmo, cá com os meus conflitos, sempre me identifiquei com ele e nele me inspirei e busquei forças.
Vale a pena ler essa carta, portanto. Como é muito extensa, omiti algumas passagens consideradas menos relevantes:

Julho de 1880


"Meu caro Théo,


É um pouco a contragosto que lhe escrevo, não o tendo feito há tanto tempo, e isto por muitos motivos.
Até certo ponto você se tornou um estranho para mim, e eu talvez o seja para você mais do que você imagina; talvez fosse melhor para nós dois não continuarmos assim. É impossível que nem mesmo agora eu lhe tivesse escrito, não fosse o fato de eu me sentir na obrigação, na necessidade de lhe escrever; não fosse o fato de você mesmo me fazer sentir esta necessidade. Soube em Etten que você tinha me enviado cinqüenta francos. Pois bem, eu os aceitei. Certamente a contragosto, certamente com um sentimento bem melancólico, mas estou numa espécie de beco sem saída ou de atoleiro, como fazer de outro modo?
E é portanto para agradecer que lhe escrevo.
Como talvez você já saiba, voltei ao Borinage (Região das minas de carvão,na Bélgica, onde Vincent trabalhou como missionário ), meu pai me disse que seria melhor ficar pelas vizinhanças de Etten: eu disse que não e acredito ter agido melhor assim. Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira?
É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse.
O que para os pássaros é a muda, a época em que trocam de plumagem, a adversidade ou o infortúnio, os tempos difíceis, são para nós, seres humanos. Podemos permanecer neste tempo de muda, podemos também deixá-lo como que renovados, mas de qualquer forma isso não se faz em público, é pouco divertido, e por isto convém eclipsar-se. Pois seja.
Agora, por mais que reconquistar a confiança de toda uma família, talvez não totalmente desprovida de preconceitos e outras qualidades igualmente honoráveis e elegantes, seja de uma dificuldade mais ou menos desesperadora, eu ainda tenho algumas esperanças de que pouco a pouco, lenta e seguramente, a cordial compreensão seja restabelecida com uns e outros.(...)
Preciso agora lhe aborrecer com algumas coisas abstratas, no entanto gostaria muito que você as escutasse com paciência. Sou um homem de paixões, capaz de, e sujeito a fazer coisas mais ou menos insensatas, das quais às vezes me arrependo mais ou menos.
Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências.
Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me como um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não. Mas trata-se de por todos os meios tirar destas paixões o melhor partido. Por exemplo, para falar de uma paixão entre outras, tenho uma paixão mais ou menos irresistível pelos livros e preciso me instruir continuamente, estudar, se você quiser, assim como preciso comer meu pão.
Você poderá entender isto. Quando eu estava num ambiente de quadros e de coisas de arte, você sabe muito bem que fui tomado por uma paixão violenta, que chegava ao entusiasmo. E não me arrependo, e ainda agora, longe dele, muitas vezes sinto saudade do mundo dos quadros.
Você talvez se lembre bem que eu sabia perfeitamente (e pode ser que ainda o saiba) o que era um Rembrandt, ou o que era um Millet, um Jules Dupré, um Delacroix, um Millais ou um Maris? Bom – agora não estou mais neste ambiente, no entanto esta coisa que se chama alma pretende-se que não morre jamais, e que vive sempre e busca sempre mais e mais e ainda mais. Em vez de sucumbir de saudades, eu disse: “O país ou a pátria estão em todos os lugares”. Em vez de me deixar levar pelo desespero, tomei o partido da melancolia ativa enquanto a tinha a potência de atividade, ou em outras palavras, preferi a melancolia que espera e que aspira e que busca, àquela que embota e, estagnada, desespera.
Portanto, estudei mais ou menos seriamente os livros ao meu alcance, como a Bíblia e a Revolução Francesa de Michelet, e, no último inverno, Shakespeare e um pouco de Victor Hugo e Dickens, e Beecher Stowe e ultimamente Ésquilo e muitos outros, menos clássicos, vários grandes pequenos mestres. Você bem sabe que, entre os que se classificam como pequenos mestres encontram-se um Fabritius ou um Bida.
Agora quem é absorvido por tudo isto às vezes é chocante, shocking para os outros, e sem querer peca mais ou menos contra os usos e formas e conveniências sociais.
No entanto, é pena que se leve isto a mal. Por exemplo, você sabe que freqüentemente eu negligenciei meu asseio, eu o admito, e admito que isto seja shocking. Mas veja bem, a penúria e a miséria contribuíram de algum modo para isto, e depois às vezes este é um bom método para garantir a solidão necessária, para poder aprofundar mais ou menos este ou aquele estudo que nos preocupa.
Um estudo muito necessário é o da medicina, não há um homem que não tenha desejado conhecê-la um mínimo que seja, que não tenha procurado saber pelo menos de que se trata e, veja, eu ainda não sei nada disto. Mas tudo isto me absorve, tudo isto me preocupa, tudo isto me faz sonhar, imaginar e pensar? Já fazem agora talvez cinco anos, não sei ao certo, que vivo mais ou menos sem lugar, errando aqui e ali. Agora vocês dizem desde tal ou qual época você caiu, você se apagou, você não fez mais nada. Será que isto é totalmente verdade?
É verdade que ora ganhei meu pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o que eu tenho. Mas vocês chamam isso de cair, de não fazer nada?
Talvez você diga: mas por que você não continuou como gostaríamos que continuasse, pelo caminho da universidade? Não responderei mais do que isso: é muito caro; e ademais este futuro não seria melhor do que o de agora, no caminho em que estou.
Mas no caminho em que estou devo continuar – se eu não fizer nada, se não estudar, se não procurar mais, então estarei perdido. Então, ai de mim.
Eis como eu vejo a coisa: continuar, continuar, isso é que é necessário.
Mas qual é o seu objetivo definitivo? Você perguntará. Este objetivo torna-se mais definido, desenhar-se-á lenta e seguramente como o croquis que se torna esboço e o esboço que se torna quadro, à medida que se trabalhe mais seriamente, que se aprofunde mais a idéia, no início e vaga, o primeiro pensamento fugidio e passageiro, a menos que o fixemos.
Você deve saber que entre os missionários acontece o mesmo que com os artistas. Há uma velha escola acadêmica muitas vezes execrável, tirânica, a abominação da desolação, enfim, homens que têm uma espécie de couraça, uma armadura de aço de preconceitos e convenções; estes, quando estão à testa dos negócios, dispõem dos cargos e, por meios indiretos, buscam manter seus protegidos e excluir os homens naturais.
Seu Deus é como o deus do beberrão Falstaff de Shakespeare, “o interior de uma igreja”, “the inside of a church”; na verdade certos senhores missionários (???) se acham por uma estranha coincidência (e talvez eles próprios, se fossem capazes de alguma emoção humana, ficariam um pouco surpresos de aí se acharem) plantados no mesmo ponto de vista que o beberrão típico tem das coisas espirituais. Mas há pouco a temer que algum dia sua cegueira a este respeito se transforme em clarividência.
Este estado de coisas tem seu lado ruim para quem não está de acordo com tudo isto, e que de toda sua alma, de todo coração, e com toda a indignação de que é capaz, protesta contra isto.
Quanto a mim, respeito os acadêmicos que não são como estes; mas os respeitáveis são mais raros do que acreditaríamos à primeira vista. Agora, uma das causas pelas quais eu estou agora deslocado – e por que durante tantos anos estive deslocado – é simplesmente porque tenho idéias diferentes das desses senhores que dão cargos àqueles que pensam como eles. Não se trata de uma simples questão de asseio, como hipocritamente me censuraram, é uma questão mais séria que isto, posso lhe garantir.
Por que lhe digo tudo isto? Não é para me queixar, não é para me desculpar naquilo em que eu possa ter mais ou menos errado, mas simplesmente para lhe dizer isto:
Quando de sua última visita no verão passado, quando nós dois passávamos perto da caverna abandonada. que chama de “A Feiticeira”, você me lembrou que houve uma época em que também passeávamos os dois perto do velho canal e do moinho de Rijswick, “e então”, você me dizia, “nós estávamos de acordo sobre muitas coisas, mas”, você acrescentou, “desde então mudou muito, você já não é mais o mesmo”. Pois bem, isto não é bem assim; o que mudou, é que minha vida era então menos difícil, e meu futuro aparentemente menos sombrio; mas quanto ao meu íntimo, quanto à minha maneira de ver e de pensar, nada disto mudou, e se de fato houvesse alguma mudança, é que agora eu penso e acredito e amo mais serenamente aquilo que na época eu também já pensava, acreditava e amava.
Seria portanto um mal-entendido se você persistisse em acreditar que, por exemplo, agora eu seria menos caloroso por Rembrandt ou Millet ou Delacroix ou quem ou o que quer que fosse, pois acontece justo o contrário, apenas, veja você, há várias coisas em que acreditar e amar, e há algo de Rembrandt em Shakespeare, e de Corrège em Michelet, e de Delacroix em Victor Hugo e ainda há algo de Rembrandt no Evagelho e algo do Evangelho em Rembrandt, como queira, isto dá mais ou menos na mesma, desde que se entenda a coisa como bom entendedor, sem querer desviá-la para o mau sentido e se levarmos em conta os termos da comparação, que não tem a pretensão de diminuir os méritos das personalidades originais.(...) Meu Deus, como é belo Shakespeare. Quem é misterioso como ele? Sua palavra e sua maneira de fazer equivalem a um pincel fremente de febre e emoção. Mas é preciso aprender a ler, como é preciso aprender a ver e aprender a viver.
Portanto, você não deve acreditar que eu renegue isto ou aquilo, sou uma espécie de fiel na minha infidelidade e, embora mudado, sou o mesmo e meu tormento não é mais do que este: no que eu poderia ser bom?
Não poderia eu servir e ser útil de alguma maneira? Como poderia saber mais e aprofundar este ou aquele tema? Como você vê, isto me atormenta continuamente. Além disto, sinto-me como um prisioneiro do meu tormento, excluído de participar nesta ou naquela obra, e tendo estas ou aquelas coisas necessárias fora de meu alcance. Por isto sentimo-nos melancólicos, e sentimos grandes vazios ali onde poderiam existir amizades e elevadas e sérias afeições, e sentimos um terrível desânimo corroendo nossa própria energia moral, e a fatalidade parece poder colocar obstáculos aos instintos de afeição, e uma maré de desgosto nos invade. E então dizemos: até quando, meu Deus?
O que você quer? O que se passa no íntimo revela-se exteriormente? Fulano tem uma grande chama queimando em sua alma, e ninguém jamais vem nela se esquentar, e os transeuntes só percebem um pouquinho de fumaça no alto da chaminé e seguem então seu caminho. E agora, o que fazer? Sustentar esta chama interior, ter substância em si mesmo, esperar pacientemente, e, no entanto, com quanta impaciência, esperar, dizia, a hora que alguém desejará aproximar-se – e ficar? Que sei eu? Quem quer que acredite em Deus, que espere a hora que cedo ou tarde chegará.
Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois de tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça, mas no caso de acontecer alguma mudança para melhor, computaria isto como um ganho, ficaria contente, e diria: “Enfim, afinal havia alguma coisa”. (...)
Mas involuntariamente sou levado a crer que a melhor maneira de conhecer Deus é amarmuito. Ame tal amigo, tal pessoa, tal coisa, o que quiser, e você estará no bom caminho para depois saber mais, eis o que eu digo a mim mesmo. Mas é preciso amar com uma grande e séria simpatia íntima, com vontade, com inteligência, e é preciso sempre procurar saber mais, melhor e mais. Isto conduz a Deus, isto conduz à fé inabalável.
Para citar um exemplo, alguém que ame Rembrandt, mas ame-o seriamente saberá que há um Deus, e Nele terá fé. Alguém que se aprofunde na história da Revolução Francesa – não será incrédulo, verá que também nas grandes coisas há uma potência soberana que se manifesta.
Alguém que tenha assistido, mesmo que por pouco tempo, ao curso gratuito da grande universidade da miséria e que tenha prestado às coisas que seus próprios olhos vêem e que seus ouvidos percebem, e que tenha refletido sobre isto, também acabará por crer e talvez aprenda mais do que imagina. Procure entender a fundo o que dizem os grandes artistas, os verdadeiros artistas, em suas obras-primas, e encontrará Deus nelas. Um o terá dito ou escrito num livro, outro, num quadro.
Depois, leia simplesmente a Bíblia e o Evangelho: isso dá o que pensar, muito em que pensar, tudo em que pensar. Pois bem, pense este muito, pense este tudo, isto eleva seu pensamento acima do nível ordinário, independente de você. Já que sabemos ler, leiamos então.
Depois, às vezes pode-se até ficar um pouco abstraído, um pouco sonhador. Há quem fique abstraído demais, sonhador demais; talvez seja o que ocorre comigo, mas é minha culpa. Afinal, quem sabe, não havia motivo para isto. Estava abstraído, preocupado, inquieto por uma ou outra razão, mas a gente se refaz! O sonhador às vezes cai num poço, mas dizem que logo ele se reergue. (...)
Escrevo-lhe um pouco ao acaso o que me vem à pena, ficaria muito contente se de alguma maneira você pudesse ver em mim mais que um vagabundo.
Acaso haverá vagabundos e vagabundos que sejam diferentes? Há quem seja vagabundo por preguiça e fraqueza de caráter, pela indignidade de sua própria natureza: você pode, se achar justo, me tomar por um destes.
Além deste, há um outro vagabundo, o vagabundo que é bom apesar de si, que intimamente é atormentado por um grande desejo de ação, que nada faz porque está impossibilitado de fazê-lo, porque está como que preso por alguma coisa, porque não tem o que lhe é necessário para ser produtivo, porque a fatalidade das circunstâncias o reduz a este ponto, um vagabundo assim nem sempre sabe por si próprio o que poderia fazer, mas por instinto, sente: “No entanto, eu sirvo para algo, sinto em mim uma razão de ser, sei que poderia ser um homem completamente diferente. No que é que eu poderia ser útil, para o que poderia eu servir; existe algo dentro de mim, o que será então?”.
Este é um vagabundo completamente diferente; você pode, se achar justo, tomar-me por um destes.
Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não se lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
“Vejam que vagabundo”, diz um outro pássaro que passa, “esse aí é um tipo de aposentado”. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios de sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – “mas” dizem as crianças que o criam na gaiola, “afinal ele tem tudo o que precisa”. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. “Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis! Tenho tudo que preciso. Ah! Por bondade, liberdade! ser um pássaro como os outros.”
Aquele homem vagabundo assemelha-se a este pássaro vagabundo...
E os homens ficam freqüentemente impossibilitados de fazer algo, prisioneiros de não sei que prisão horrível, horrível, muito horrível.
Há também, eu sei, a libertação, a libertação tardia. Uma reputação arruinada com ou sem razão, a penúria, a fatalidade das circunstâncias, o infortúnio, fazem prisioneiros.
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros.
Será tudo isto imaginação, fantasia? Não creio; e então nos perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade?
Você sabe o que faz desaparecer a prisão. É toda afeição profunda, séria. Ser amigos, ser irmãos, amar isto abre a porta da prisão por poder soberano, como um encanto muito poderoso. Mas aquele que não tem isto permanece na morte.
Mas onde renasce a simpatia, renasce a vida.
Além disso, às vezes a prisão se chama preconceito, mal-entendido, ignorância, falta disto ou daquilo, desconfiança, falsa vergonha.
Mas para falar de outra coisa, se eu caí, por outro lado você subiu. E se eu perdi simpatias, você por seu lado as ganhou. Eis o que me deixa contente; falo sério e isto sempre me alegrará. Se você fosse pouco sério e pouco profundo, eu poderia temer que isso não durasse muito, mas como acredito que você seja muito sério e muito profundo, sou levado a crer que isto durará.
Só que se lhe fosse possível ver em mim algo mais que um vagabundo da pior espécie eu ficaria muito contente. Então se eu puder alguma vez fazer algo por você, ser-lhe útil em alguma coisa, saiba que estou à sua disposição.
Se aceitei o que você me deu, você também poderia, caso de alguma forma eu puder ajudá-lo, pedir-me: eu ficaria contente e consideraria isso uma prova de confiança. Nós estamos muito distantes um do outro e podemos ter pontos de vista diferentes; contudo, em dado momento, algum dia, poderíamos ajudar-nos um ao outro.
Por hoje eu lhe aperto a mão, agradecendo novamente a bondade que você teve comigo.
Agora, se mais cedo ou mais tarde você quiser me escrever, meu endereço é chez Ch. Decrucq, rue du Pavillon 8, em Cuesmes, perto de Mons.
E saiba que escrevendo-me você me fará bem.
Do seu,


VINCENT "


( CARTAS A THÉO, Van Gogh - Tradução de Pierre Ruprecht - L&PM )


Abaixo um vídeo interessante com slides de obras de Van Gogh acompanhados da leitura de trechos  de suas cartas. Créditos no próprio vídeo.




Links interessantes:

Van Gogh Museum
Vincent Van Gogh - The Letters
Van Gogh em 12 Passos

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Verdade e/ou Ficção


Tenho certo fascínio pelo filme SATORI USO, do diretor paranaense Rodrigo Grota. Considero-o um verdadeiro achado cujo sentido se amplia quando se conhece a história que envolve a sua criação. Nesse sentido é um filme que possui um contra-face literária, digamos assim, ou mesmo conceitual, que, se não é indispensável para apreciá-lo como filme, amplia em muito o seu significado. O curta-metragem,lançado em 2007, “documenta” a estadia do poeta japonês Satori Uso em Londrina, na década de 50, utilizando para tanto trechos de um filme inacabado sobre o poeta, realizado por um cineasta underground americano, Jim Kleist Ocorre que o poeta e o cineasta jamais existiram, mas uma série de artifícios os fazem parecer reais. Logo, o filme é daqueles que relativizam a fronteira entre verdade e ficção, estabelecendo nesta fronteira o território próprio do poético. Agora, se você conhece o fato que deu origem ao roteiro do filme, este se mostra, talvez, como um documentário sobre o próprio ato criativo. Satori Uso, na verdade, foi inventado pelo poeta paranaense Rodrigo Garcia Lopes, que publicou, em 1986, num jornal de Londrina, uma nota sobre a passagem do poeta japonês pela cidade, fornecendo dados biográficos e publicando, inclusive, alguns poemas do “autor”. Quinze anos depois, ele mostrou o jornal a Rodrigo Grota, que teve a idéia de filmar um documentário sobre o poeta fictício. Rodrigo Garcia Lopes e Rodrigo Grota elaboraram o roteiro que só se tornou definitivo quando o diretor teve a idéia de criar o personagem Jim Kleist

Kleist ganha uma biografia que o liga aos poetas beats, como Ginsberg e Burroughs, e ao pintor Edward Hopper. Era um cineasta que se recusava a terminar seus filmes por crer que isso os aprisionava a uma forma fixa contrária a fluidez da vida. Suicidou-se em 1992. Já Satori, definido como poeta das sombras, é mostrado no momento em que estabelece uma relação com uma mulher, Satine. Após o rompimento, o poeta acentua ainda mais o seu isolamento, seu desejo de desaparecer. Tendo lançado um único livro, decide-se a não fazê-lo novamente.

Portanto, Satori e Kleist são artistas que se colocam intencionalmente à margem, cuja arte se afirma segundo suas próprias idiossincrasias, atendendo a uma necessidade interna e intimamente ligada à vida. Arte para si que quer prescindir de uma intermediação cultural óbvia, disposta a pagar o preço do esquecimento. Que sejam artistas “esquecidos” é algo imprescindível para que o artifício do filme funcione. Mas também se pode reconhecer nisso a questão sobre até que ponto um artista que faça esse tipo de opção pode ter o direito de existir. Ou, inversamente, sobre até que ponto os artistas canônicos não seriam, de alguma forma, produtos de uma ficção.



Esse ardil de simular uma biografia documentada de um artista que nunca existiu tem um antecedente famoso. Em 1958, o escritor franco-espanhol Max Aub, mais conhecido entre nós pelo livro CRIMES EXEMPLARES, lançou o “romance” JUSEP TORRES CAMPALANS, que revelava para o mundo a existência de um pintor catalão, Campalans, radicado no México, e que teria sido o verdadeiro inventor do cubismo. Católico, anarquista, companheiro de Picasso, Torres Campalans viveu em Paris até o começo da I Guerra, quando, desiludido com a arte, teria se refugiado no México. Aub inclui no livro documentação, anais, referências, um catálogo de uma exposição sobre o artista na Tate de Londres, em 1942, que acabou não sendo realizada; um caderno de notas do artista que teria sido fornecido ao autor por Jean Cassou, crítico respeitado; e, o mais impressionante, várias reproduções de quadros e desenhos do suposto pintor (trabalhos que foram realizados, na verdade, pelo próprio Aub. Há, inclusive, uma foto na qual Campalans aparece ao lado de Picasso.

A fraude de Max Aub tinha, é claro, uma intenção crítica e irônica. Após o lançamento do livro, setores desavisados da intelectualidade francesa chegaram a considerar como real a figura do precursor do cubismo. Isso talvez revele algo sobre a forma como certas tradições são construídas. Algumas frases atribuídas a Campalans expressam divergência e desilusão:

“O que explica se rebaixa. Por isso todos os críticos são pequenos.”

“Mentir de quando em quando para dar com a verdade. Não há outra maneira. Copiar engana sempre: estrada morta.”

“Eu pintava para me salvar. Assim como pretendo salvar minha alma no dia da minha morte que se aproxima. Para salvar-me na terra, supunha fazê-lo entre os homens que, não tinha dúvidas, seriam cada dia melhores. Quando me dei conta do meu equívoco, renunciei."                     
Torres Campalans com Pablo Picasso
     

Obras de Campalans (Max Aub)



Max Aub

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Mudança e Mudanças

Acho muito curiosa a forma como se constroem certos discursos sobre as mudanças do mundo. Gostamos de imaginar processos de ruptura ou descontinuidade como forma de assegurarmos a inevitabilidade de certo andamento das coisas, algo como crer que mudar é morrer para o antes. Mas ignoramos o dado de que se rupturas imediatas ocorressem talvez não tivéssemos sequer como analisá-las por falta de conceitos ou instrumentos apropriados. As coisas não se dão como se despertássemos para um novo mundo saindo de um longo coma. O princípio de continuidade segundo o qual a natureza não dá saltos é também aplicável a cultura. Mas atendendo a um espírito de combatividade devotado a certos interesses ou predileções, não suportamos períodos de transição nos quais modelos diferentes costumam conviver. Não, é necessária uma espécie de coma conceitual induzido para afastar as consciências refratárias ou incrédulas. Dúvidas? Deixe estar... Ouçamos o piloto do mundo: “Senhores passageiros, estamos passando por uma área de mudança radical, mas fiquem tranqüilos, pois sabemos perfeitamente  aonde estamos indo.” Ora, mas se já sabemos, como podemos dizer que se trata de uma mudança radical? Talvez porque não seja tão radical assim.

Alguns desses discursos seguem então um finalismo otimista pelo qual toda mudança atende ao princípio de razão suficiente, ignorando, porém, o princípio de continuidade pela negação de qualquer historicidade. É um otimismo intolerante que prega a atualidade total, como se o passado fosse um grande necrotério de idéias e práticas. Segundo essa mentalidade, criatividade, inteligência e eficiência e outros valores ideais são prerrogativas do presente, só encontradas no passado, mesmo o recente, em estado primitivo. O passado importuno que ainda alcança o presente, é visto como um modelo estático que precisa ser superado para que possamos dar conta das novas exigências. Só não se explica como um presente tão dinâmico originou-se de um passado tão estático. Mas, provavelmente se lançaria mão do artifício de explicar um presente que acena para um futuro tão formidável, como se fosse o resultado da ação voluntarista de algumas mentes brilhantes.

Então, a pergunta parece ser esta: como afirmar a validade ou existência de valores novos senão como resultante da transformação gradual de valores precedentes? Parece que dispomos de dois modelos de crença a esse respeito. De um lado a concepção de uma realidade complexa onde as mudanças ocorrem de modo relacional e disperso, sem que possamos afirmar de maneira absoluta para onde elas nos levam. De outro, o modelo que quer afirmar a subitaneidade de mudanças das quais já se sabe o sentido e a extensão, isto é, um modelo para fins afirmativos, onde o presente seria descontínuo em relação ao passado, mas contínuo em relação ao futuro. “Daqui pra frente, tudo vai ser diferente...”. Claro que esse futuro diferente nunca chegará, pois então já não será percebido como tal.

Eu estava recentemente lendo um livrinho curioso, adquirido por nada num sebo há anos atrás. Chama-se “O Preço do Futuro” e reúne uma série de entrevistas concedidas por intelectuais e cientistas à Rádio Europa Livre em 1970, sobre suas visões do mundo em face dos avanços tecnológicos. Curiosamente, se descontarmos a questão da guerra fria que polarizava o mundo então, as entrevistas parecerão bem atuais, próximas de discursos encontrados hoje a respeito das tecnologias da informação, da genética, do aquecimento global. Está lá, também, a costumeira divisão entre otimistas e pessimistas, indicando que não há nada como acompanhar uma visão do futuro construída no passado para aprendermos a relativizar o presente. E por que a discussão não teria mudado nesses quarenta anos? Porque ela toca numa questão sensível, a crença otimista própria do cientificismo do século XIX de que a técnica (ou a tecnologia) seria capaz de mudar para melhor o interior do homem; idéia essa que sempre se mostrou indemonstrável, senão falsa, e que ainda permanece por aí, em nossos dias. A função mágica que a tecnologia ocupa em nossas vidas, não dá conta de mudar a consciência humana no seu sentido profundo, que inclui nossas contradições afetivas e morais. Mas se a tecnologia não alcança esse fim, pode, no entanto, contribuir para afastar o homem da busca da superação dessas contradições ao disfarçá-las, favorecendo certo esvaziamento humano. Ou seja, falar do novo homem criado pelo avanço tecnológico terá sentido apenas no que se refere às suas capacidades intelectuais e de domínio material, mas não do homem integral que reúne em si dimensões afetivas e irracionais.
Encontrei também nesse livro um conceito que elucida algumas das minhas sensações cotidianas. Trata-se da “alienação cósmica”,  idéia que tentava explicar a percepção ambivalente do homem comum dos anos sessenta, posto em contato através da TV com a dimensão mítica de uma tecnologia capaz de levar o homem à lua, ao mesmo tempo em que se confrontava com a incapacidade de se organizar os transportes públicos, a coleta do lixo, ou algumas das suas necessidades diárias básicas. Algo semelhante é enfrentado por nós, fascinados diante das maravilhas disponibilizadas por um avanço tecnológico contínuo, enquanto somos obrigados a suportar tantas carências e obstáculos que nos parecem alucinatórios em sua mesquinhez.

Por fim, reproduzo um trecho da entrevista de Brian Aldiss no livro citado acima. Aldiss, premiado autor de ficção científica, teve seu conto Super-Toys Last All Summer Long (Superbrinquedos Duram o Verão Todo) utilizado como base para o roteiro de A. I – Inteligência Artificial de Steven Spielberg. No referido trecho ele demonstra, à sua maneira, como a tecnologia pode ser investida na utopia de um homem melhor:

“Mas a criação da maioria culta talvez possa resultar do uso intensivo de computadores. Em The Shape of Further Things, eu descrevo o modo pelo qual os terminais de computadores instalados nas casas – do mesmo modo que os aparelhos de televisão – poderiam livrar os estudantes do trabalho maçante de perseguir fatos escondidos em fontes enganosas. Os terminais de computadores dariam acesso direto às fontes de informação dos grandes centros autorizados do mundo; ou à sua mais próxima biblioteca da rede. A disciplina do aprendizado ainda seria necessária – mas as horas perdidas na procura dos fatos seriam evitadas. Teríamos uma explosão de dados numa escala sem precedentes. Durante o tempo economizado, as crianças poderiam aprender como viver, em vez de como ganhar a vida. Teríamos então uma verdadeira educação para a vida, o prêmio do autoconhecimento chegaria mais cedo em vez de mais tarde, com uma conseqüente diminuição de tensão no indivíduo e na sociedade. Se isto jamais acontecer – e as probabilidades são bastante remotas – será um genuíno passo para a utopia; para termos melhores pessoas vivendo melhor.”

Bem, a explosão de dados já está aí há alguns anos e numa dimensão bem superior, provavelmente, à imaginada por Aldiss. Quanto à educação para a vida, o autoconhecimento, o tempo livre...



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dois Poemas

Faltando-me
um rebanho
de ruminantes
simpáticos,

pastoreio
insetos
peripatéticos
emblemáticos

2

Árvore
com asas
folheadas:

anjo arraigado
escarnecido
pelo vento.


BlogBlogs.Com.Br

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Mais Três Poemas Meus

Trato as palavras
Como figuras de terracota:
Escovo seus óxidos porosos
E tão ancestrais.
Mas, imprudente,
Acabo por parti-las em pedaços.



Há um silêncio onívoro
Que também a mim quer engolir.
Tento escapar de sua gula ampla,
De seu hálito enjoado,
Cheirando a vazios definitivos...

Mas eu sei, eu realmente sei
Que nada faço senão caminhar
Em suas entranhas secas
Seus deambulatórios enormes
De catedral sem clerestório.

Mas se eu puder, se eu puder
Serei indigesto ao silêncio faminto!
Serei como pedras ácidas
No estômago pesado de Crônos,
Gritarei a plenos pulmões: dane-se!


A CIDADE

A cidade em mim tem outra história:
Planisfério de ritos e gestos,
Rosário insular de ilusões, afetos
Que se reestruturam na memória.

Pouco sei de mim sem tal cidade,
Se me percorri em seus trajetos
Que, inconclusos, parecem completos
Na sua ambígua pluralidade.

Linhas quebradas, curvas, aspirais.
Ir, vir, parar nas esquinas casuais
Por onde corre a vida dissolvente.

Nessa alma coletiva, continente,
Cidade que sem fronteira flutua,
Sonora, caótica, ávida e nua.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Condomínio Poético I

QUATRO POEMAS DE DALVA M. FERREIRA

Eu hoje estou assim:
bem pessimista,
bem realista,
bem consciente da minha circunferência.

Mas eu não era assim:
eu tinha sonhos,
tinha desejos,
vivia muito mais além das circunstâncias.

Só sei que, de repente,
(tão de repente)
algo quebrou,
algo deixou de ter, em mim, correspondência.



Um porão,
quarto escuro, sem porta ou janela.
E, mesmo havendo,
não tendo a vontade de olhar...

Quem és tu?
Quem tu és? Donde vens?
O paredão
que bloqueia e impede o meu vôo.

A mão pesada
e cinzenta que fecha o imenso cadeado.
Os fantasmas
porém, de outra vida deveras mais viva.

A memória
adorada e fugaz dumas coisas imensas.
Ferroada
doída e constante das coisas pequenas.



O relógio da sala parou,
certa noite:
era tarde,
chovia e fazia frio.

Sobre a mesa, as migalhas do pão,
umas sobras,
as frutas
e as taças de vinho vazias.

Desde então,
além disso,
e daquilo,
deixo sempre uma lâmpada acesa.

Vai daí que você pense bem,
tenha fome,
ou sede,
vai daí que acaso me queira...



Existem aqueles minutos,
bem poucos,
tão poucos,
em que eu me lembro de mim.

Feliz, como eu era antes:
criança,
e tão simples,
correndo descalça na estrada.

Atrás de uma borboleta
estampada,
amarela
ou branquinha.

Mas isso era antes de agora,
do tempo,
da idade,
e de todas aquelas mentiras.

Mais de Dalva em:   POESIAS SOLTAS 

________________________________________

POEMAS DE PAULA ZIEGLER

Olhei pela janela
e finalmente eu vi
o capim minha alma e todos os tons


drenadas as lágrimas
no rosto-aço surge o vidro
espelho o mundo


Holder-lune

nada me acontece
disse o poeta
só poesia


no sonho
no silêncio
no não
que nunca me encontrem
que nunca me tirem
o meu carnaval


escuto silêncio
porta para o paraíso
música muito minha
som-pausa
silêncio
somente


ela bela letra
no silêncio
pulula pura e só som
lágrima-luxo estrela
universo
humanimado


Extraídos do livro LETRA-ESTRELA

Antigos Desenhos


Remexendo nas gavetas, encontrei um pacote com desenhos realizados em meados da década de noventa. São estudos de movimento, em sua maioria de maestros cujos gestos eu buscava capturar. Utilizava imagens de concertos em vídeo, me valendo das teclas "pause" e "slow". Tinha de desenhar rapidamente, e a questão era sobrepor sequências de movimentos. Nada de original, aquele tipo de idéia que remonta a Edward Muybridge, Jules Marey e a Humberto Boccioni. Mas foi um bom exercício, mais de uma centena de desenhos. E, olhando hoje, não parecem tão desprezíveis.

















Depois realizei estudos semelhantes com a capoeira como tema:




E daí ao esporte:

    S/ Título, técnica mista s/ tela - 70 x150 cm - 2000

     O Chute - Técnica mista s/ tela - 100 x 150 - 2000

Quando, por fim, a questão do movimento deixou de me interessar.

4'33''



Se você não é familiarizado com música de vanguarda do século XX, é provável que nunca tenha ouvido falar e vá achar, a princípio, que o vídeo está com algum problema. Mas é assim mesmo. Trata-se de 4’33’’, uma peça do americano John Cage apresentada pela primeira vez em 1952. A intenção básica do autor era investigar a verdadeira natureza do silêncio, no caso, a “música” incorpora os ruídos da sala e aqueles provocados pelos ouvintes. Antes de “compor” a peça, Cage chegou a meter-se em uma câmara especial em busca do silêncio absoluto, não encontrado, é claro, pois ainda ali podia ouvir o seu próprio coração bater. Enfim, a música estava salva, pois sempre haverá algum ruído que possa ser tomado como música. Parafraseando um famoso dramaturgo inglês, é muito silêncio por nada. E é provável que depois de ouvi-la, leitor, as suas idéias ou sensibilidade a respeito do universo sonoro não se modifiquem um milímetro.  É uma daquelas coisas que pode até ter tido sentido histórico, como a exposição de uma sala vazia, feita pelo artista francês Yves Klein, na década de cinqüenta, mas que, no fundo, você “sente” não passar de uma bobagem que exige de nós uma concessão mental, o que só não é admitido por pudor intelectual de cometer uma heresia. É necessário fingir compreender. Eu gosto de música contemporânea. Gosto do próprio Cage, e simpatizo com as idéias zen-budistas que ele professava, mas... Ele chegou a dizer que 4’33’’ era a sua obra mais importante, o que lembra a idéia de Nietzsche de que “os artistas ignoram o que melhor sabem fazer”.
Se você preferir, há versões para orquestra. A grande questão é saber qual foi até hoje a melhor. Mas, desconfio que deva ter sido a primeira. Por outro lado, diante do que se ouve hoje em dia em termos de música, até que a peça de John Cage tem lá os seus encantos. E também é bem melhor do que ouvir o “Helicopter String Quartett” de Stockhausen.

Um contraponto interessante: em 1772, Haydn compôs a Sinfonia nº 45, apelidada "Do Adeus" em função de no seu último movimento os músicos irem se retirando de cena, aos poucos, só restando ao final dois violinistas que também se retiram deixando atrás de si o silêncio. Este estratagema teria sido usado por Haydn como forma de chamar a atenção de seu protetor, o príncipe Esterházy, para as queixas de seus músicos que não suportavam mais a distância de suas famílias  devido às longas temporadas. Essa solidariedade de Haydn nos proporcionou um momento curiosíssimo na história da música. Abaixo, um vídeo com uma versão bem humorada regida por Daniel Baremboin: 


terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Mais das Minhas Tentativas Poéticas

POEMETO

Um poema pode surgir de  outro
que ficou na estrada, morto.

UMA CÂMERA QUE VAGA

Concreta vivência:
o sol na pele
e o suor inodoro
da indolência.
O vento musicando
a tarde,
com um minueto dançado
pelas sombras, na areia.
A inciência banal
alimentando a vista,
uma câmera que vaga
sem cinegrafista.
O silêncio verbal:
mais ouvir que falar
por hábito;
e se tal for preciso,
ser monossilábico.
Tudo coisificado,
e sem filosofar:
substantivos concretos
como este cigarro
que divido com o ar.

SOL-LUA-SOL

Eu me desfiz dos relógios
e sua solícita crueldade!
Uni as frações das horas
numa  ponte
que atravessa o meu dia
entre dois extremos signos:
sol                               lua

Calendário carnal,
meu corpo anota por si
o retraimento da vida.

UNIDADE

Súbita no cotidiano,
uma epifania:
as células de todas as coisas
se abrem
como pálpebras de uns olhos
benevolentes.

E neste momento
a linha do tempo
se enrola
e suas pontas desaparecem
no emaranhado:
Seria uma eternidade?

FIGURA INFIEL

O sono é um trem no horário
que parte sempre sem mim.
O tempo interno me ilude?
No rosto ardido de frio
resíduos de juventude
sob as pálpebras cansadas:
as finas veias azuladas...
E esses lábios que arquitetam
um tal sorriso distorcido.
Por que afinal me assemelho
à figura infiel do espelho
com semblante impressentido?

RETRATO

Teus olhos são oratórios
de onde a luz ergue uma prece.

RETORNANDO

Uma vez mais as ondas do mar,
metáforas da vida falha:
na margem, perdulárias,
ruidosa espuma espalham.
Força exaurida, mas refém
da urgência em retornar
do limite que fica aquém...

VISÕES

Vejo o que não aflora:
figura contra fundo invisível:
a cor que não tem aura:
o contorno que não retorna:

e a linha que ampara
o inconcebível.

SEM MEMÓRIA

Se eu não tivesse memória
e não retornasse jamais
a qualquer pensamento,
seria como uma duna
que se desfaz e refaz ao vento.

O QUANTO BASTE

Chega de filosofia!
Nada mais de aporias!
Quero apenas a canção-reflexo,
diária,
lavrada em palavras curtas,
diminutas
pedrinhas de mosaico.
Quero ser do meu tamanho.
Uma aquarela de Klee me bastará!
O teto da Sistina é celeste e inalcançável...

PARA LER EM VOZ ALTA

Explique-me o que é o silêncio.
Você sabe o que é o silêncio?
Sabe o que é o silêncio?
O que é o silêncio?
Que é o silêncio?
É o silêncio?
O silêncio?
Silêncio?
(?)
(  )
()

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Da Série "Livros que Amo": CARTAS PERSAS de Montesquieu


Um livro delicioso para heréticos que, como eu, acreditam que no fundo o homem permanece sempre igual a si mesmo, mudando apenas de cenário e de alguns costumes  
superficiais. Publicado em 1721, foi o primeiro sucesso de Montesquieu, notabilizado, como se sabe,  pelo livro "O espírito das Leis", no qual é exposta a famosa teoria da separação dos poderes. Escrito na forma epistolar, muito apreciada por escritores do século  XVIII,  Cartas Persas (Lettres Persanes) descreve as aventuras e impressões de um pequeno grupo de persas em viagem pela Europa, sobretudo Paris. Liderados por Usbek, eles se correspondem  entre si e com amigos que permaneceram na Pérsia.  É quanto basta como pretexto a Montesquieu para empreender uma crítica irreverente e ácida às instituições políticas, aos costumes e práticas sociais da Europa do Século XVIII. Nem mesmo a Igreja escapa, ou, talvez, principalmente ela. Estabelece-se, além disso, uma certa relativização da cultura e da religião a partir das posições dos muçulmanos, que com suas observações de "estrangeiros", aparentemente ingênuas, demonstram uma corrosiva lucidez. Não resisto a citar alguns trechos:

"O Papa é o chefe dos cristãos. Um velho ídolo que é incensado por hábito. Outrora era temível até para os próprios príncipes, pois os depunha tão facilmente como nossos magníficos sultões depõem os reis de Irimete e da Geórgia. Mas ninguém mais os teme. Ele se diz sucessor de um dos primeiros cristãos, chamado São Pedro, e é certamente uma rica sucessão, pois tem tesouros imensos e um grande país sob sua dominação."
(Carta 29, de Rica a Ibben).

"Mas o que me choca nesses belas mentes é que não se tornam úteis à sua pátria e dispersam seus talentos divertindo-se com coisas pueris. Por exemplo, quando cheguei em Paris, vi-os discutir acaloradamente sobre a questão mais ridícula que se possa imaginar; tratava-se da reputação de um antigo poeta grego, do qual, depois de dois mil anos, se ignora a pátria bem como a data de sua morte.. Os dois partidos afirmavam que era um poeta excelente. (...) mas entre esses distribuidores de reputação uns conseguiam se sobrepor aos outros, e essa era toda a discussão (...) eram proferidas, de parte e de outra, injúrias tão grosseiras, eram feitos gracejos tão amargos (...) Acredito que esse zelo tão delicado sobre a reputação dos mortos se incendiaria facilmente para defender aquela dos vivos! (...) Deus me livre de atrair algum dia a inimizade dos censores desse poeta, cuja permanência por dois mil anos no túmulo não conseguiu eliminar um ódio tão implacável! Hoje dão socos no ar, mas o que aconteceria se seu furor fosse provocado pela presença de um inimigo?"
(Carta 36, de Usbek a Redhi).

"Vi pessoas em quem a vrtude era tão natural que não se fazia sequer sentir; se apegavam a seu dever sem sujeitar-se a ele e o cumpriam como por instinto; longe de realçar com seu discursos suas raras qualidades, parece que elas não os havia atingido. São essas pessoas de que gosto; não esses homens virtuosos que parecem se surpreender de o serem e que consideram uma boa ação como um prodígio cujo relato deve deixar todos surpresos. Se a modéstia é uma virtude necessária àqueles a quem o céu concedeu grandes talentos, que se pode dizer desses insetos que ousam demonstrar um orgulho que haveria de desonrar os homens mais destacados?
Vejo em toda parte pessoas que falam sem cessar de si; suas conversas são um espelho impertinente; (...) fizeram de tudo; viram tudo; disseram tudo; pensaram tudo;são um modelo universal; (...) Oh, como o elogio é insípido quando reflete para o local de onde vem!"
(Carta 50, de Rica a ...)

"Outro dia estava num clube social onde me diverti bastante. Havia mulheres de todas as idades; uma de oitenta anos, uma de sessenta, uma de quarenta, acompanhada de uma sobrinha de vinte a vinte e dois anos.
Certo instinto impeliu-me a aproximar-me desta última e ela me disse ao ouvido: "Que dizes da minha tia que, na sua idade procura amantes e ainda pretende ser bonita? -- Está errada, respondi; é uma coisa que só convém a ti." Logo a seguir me encontrava ao lado da sua tia que me disse: "Que achas dessa mulher que tem pelo menos sessenta anos e que hoje passou mais de uma hora na toalete? -- É tempo perdido, disse-lhe; é preciso ter lá seus próprios encantos para poder sonhar." Fui até essa infeliz mulher de sessenta anos e lamentava seu comportamento em minha alma, quando ela me disse ao ouvido: "Há algo de mais ridículo? Vê essa mulher de oitenta anos e que usa fitas cor de fogo; quer mostrar-se jovem e consegue,  pois isso a aproxima da infância." Ah! Bom Deus!, dizia comigo mesmo, sempre haveremos de notar somente o ridículo nos outros?"
(Carta 52, de Rica a Usbek).

"Em Paris, meu caro Redhi, há muitas profissões.(...) Um número infinito de professores de línguas, de arte, de ciências ensina o que não sabe; e esse talento é realmente considerável, pois não é necessária muita inteligência para mostrar o que se sabe, mas dela se necessita em grau infinito para ensinar o que se ignora."
(Carta 58, de Rica a Redhi).

"Aqui todos se dedicam muito às ciências. Mas não sei se são realmente sábios. Aquele que duvida de tudo como filósofo nada ousa negar como teólogo; esse homem contraditório está sempre contente com ele, contanto que se reconheça as suas qualidades.
A ânsia da maioria dos franceses é ter espírito; e a ânsia daqueles que têm espírito é escrever livros.
Mas não há nada tão mal imaginado: a natureza parecia ter sabiamente disposto para que as tolices dos homens fossem passageiras, mas os livros as imortalizam."
(Carta 66, de Rica a ...). Meus Deus! Digo eu, ainda bem que os blogs podem ser deletados!

"Estava outro dia num grupo de pessoas e vi um homem muito contente com ele mesmo. Num quarto de hora resolveu três questões de moral, quatro problemas históricos e cinco pontos de física. Jamais havia visto um solucionador tão universal; seu espírito nunca foi invadido pela menor dúvida. Deixamos as ciências, passamos a falar das novidades do tempo: apresentou soluções para as novidades do tempo. Quis apanhá-lo e falei comigo mesmo: "Preciso entrar em meu forte; vou me refugiar em meu país." Falhei-lhe da Pérsia, mas mal lhe havia dito quatro palavras, já me havia desmentido duas vezes (...) Disse para mim mesmo: "Ah, meu Deus! Que homem é esse? Logo vai conhecer as ruas de Isfahan melhor do que eu." Tomei de imdediato minha decisão: calei, deixei-o falar e está ainda decidindo tudo.
(Carta 72, de Rica a Ibben). E Montesquieu não conheceu certos cronistas do nosso tempo....

" Acho surpreendentes os caprichos da moda entre os franceses. Esqueceram como estavam vestidos no último verão e ignoram ainda mais como estarão neste inverno, mas, de modo particular, não se poderia acreditar em quanto custa a um marido para deixar sua mulher na moda.
De que me serviria dar-te uma descrição exata de seu vestuário e de seus adornos? Uma nova moda viria destruir toda a minha obra como aquela de seus operários e, antes que tivesses recebido a minha carta, tudo já teria mudado. Uma mulher que deixa Paris para passar seis meses no campo retorna tão antiquada como se tivesse passado fora trinta anos."
(Carta 99, de Rica a Redhi) Vemos que o que quer que alimente o nosso consumismo não é próprio apenas de nossa época...

"O grande erro em que incorrem os jornalistas é que só falam de livros novos (...) Parece-me que, atá que alguém tenha lido todos os livros antigos, não tem nenhum motivo para dar preferência aos novos. Mas desde que se impõem a lei de falar das obras ainda quentes, recém-saídas da forja, se impõem outra, que é a de serem muito aborrecidos. Só cuidam de criticat os livros de que fazem extratos, por qualquer razão que seja; com efeito, qual homem é tão ousado para querer angariar dez ou doze inimigos todos os meses?"
(Carta 108, de Usbek a ....).

"A universidade de Paris é a filha mais velha dos reis da França, e muito velha, pois tem mais de novecentos anos; por isso de vez em quando sonha. Contaram-me que ela teve, há algum tempo, uma grande discussão com alguns doutores por causa da letra Q que a universidade queria que fosse pronunciada como K. (...) Era realmente bonito ver os dois organismos mais respeitáveis da Europa ocupados em decidir sobre a sorte de uma letra do alfabeto! Parece-me, meu caro, que as cabeças dos maiores homens se reduzem quando estão reunidas e que onde há mais sábios, há menos sabedoria. Os grandes organismo se apegam sempre tão fortemente às minúcias, aos usos inúteis, que o essencial sempre vem somente em segundo plano."
(Carta 109, de Rica a ...).
* Tradução de Antonio Geraldo da Silva, Editora Escala.

Montesquieu