quinta-feira, 6 de maio de 2010
Três Poemas
1- Dar as caras.
[ Aqui jaz o meu ressentimento ]
Enquanto fui
oferecer a outra face
ao vento.
2- Ilusão
Agrada-me imaginar,
no avesso do nada,
sensores a captar
o insone atrito
das palavras que alinho
aflito.
3- Em fuga
Se o poeta é neutro,
o poema é vário.
E como inventa,
fugitivo,
nas bordas do mapa,
outro itinerário!
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Serei Poeta?
terça-feira, 4 de maio de 2010
Radiografia
Então, a aurora.
Folha de rosto
sem ex-libris.
Estranhamente bela,
ponto mais claro
de uma chapa
radiográfica.
Monotipia s/ título - Marcantonio
Outros trabalhos meus em: Cadernos de Arte
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segunda-feira, 3 de maio de 2010
Dois Poemas
ELA OU ELA MESMA
Ela não é
exatamente assim
como a descrevo,
posto que à sua discrição
circunscrevo-me.
E eu, que apenas sou,
oitenta vezes oito,
carne,
na insaciedade
deste desejo afoito,
hei de deixá-la se entranhar,
sem pressa, lenta,
na paisagem verídica
que a escrita inventa.
A dor não era a própria Dor.
Então, inconsistente era o riso.
Aquilo que o tempo transmudou
Na origem já não era preciso?
O caminho não fora franqueado,
No porto não pudera apear.
O vôo cintilante das gaivotas
Fazia todo o céu oscilar.
O rastro numérico das coisas
Que ganho deixara ou deixará?
Somaram-se as asas erradias
Das aves que não podem voar.
De tudo que fora necessário,
Pouco, quase nada consistiu:
Um presságio extraordinário
Que senti... Consenti. Quem sentiu?
Monotipia s/ título - Marcantonio
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Exercício Básico
1
Escolho uma das grandes causas ou crenças, apenas para que eu possa abandoná-la solenemente, dizendo: “ O meu dia, em seus efeitos, tem primazia sobre as outras ilusões”. O desertor quer reencontrar a vida anterior à grande causa. Seria isso uma causa pessoal? Não, apenas um exercício básico.
2
Como indivíduo trago em mim mesmo minha própria universalidade: essa fatalidade, essa habilitação para morrer segredando algo inexprimível. O pensamento objetivo pretende me abarcar como se eu já estivesse lá, em algum ponto anterior a mim mesmo. Não, eu não estava. Era apenas algo semelhante.
3
O meu dia, sempre contemporâneo, não migrará para o amanhã. Mesmo que eu viva cem anos, ou morra precocemente; e intentem a biografia do meu anonimato.
4
Jamais me adequarei ao modelo geral. Eu sei disso, mas o outro o ignora. Empurram-me, espremem as minhas ordinárias (des)vivências para que caibam no tubo de ensaio. Mas, sobro. Sobro abarrotado de mim.
5
As pedras de qualquer ruína me confidenciam que só se recordam de serem pedras amorfas. Não herdaram a memória do formato a que foram submetidas.
6
Menosprezamos a matéria inconformada. Achamos banal a areia, mas o vidro esplende. E, mais acima, os vitrais transpiram luzes inventadas. Se dotarmos a matéria de um corpo, diremos que essa forma era o espírito que a própria matéria aguardava. Quando tal forma começar a se arruinar definitivamente, recordaremos sua genealogia, restauraremos seu espírito, inventando uma memória da eternidade. Assim as ruínas se tornam símbolos da permanência.
Monotipia s/ título - Marcantonio
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Nós e os Outros,
Posso Pensar
quinta-feira, 29 de abril de 2010
No Miolo Dos Livros
1
Como é bela
a página que se amarelou
atravessando tantos outonos.
Folha que não caiu,
como se permanecesse
entre a flora viva.
2
Algumas retiveram
a pálida silhueta
de marcadores
tardiamente removidos:
Involuntário rubor
pela dissidência do leitor.
3
Espremida entre as páginas,
mata-borrões da seiva viva,
a flor secou, trancada
na escuridão bidimensional.
Mas urdiu à força
uma ilustração intrusa
e temporal.
Monotipia s/ título - Marcantonio
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Mínimos Múltiplos Comuns
1- efeito colateral
Classificar um rio como PERENE,
é como fazê-lo parar.
E se o dizemos TEMPORÁRIO,
infundimos em sua águas
o desespero de chegar.
2- quem me prometeu?
Quem irá me atar
ao rochedo de meu destino
sob um céu isento de abutres?
Enquanto aguardo
construo, com fogo e medo,
um simulacro.
3- bem sorrir
Se me levarem a sério,
me farão gargalhar.
Quero apenas mostrar
os meus dentes externos
ternamente.
4- vagabundear
A pretensão nos impõe
carregar um fardo desnecessário
já largado por outro
no meio da estrada.
Mas a despretensão vagabundeia,
leve,
olhos postos na beleza do chão.
5- sem racionamento
A imaginação é uma torneira
aberta em todas as residências.
Mas muitos não toleram seu forte fluxo
e os inevitáveis respingos:
pensando no preço a pagar,
adotam um triste racionamento.
Monotipia s/ Título - Marcantonio
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Serei Poeta?
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Quixotescas
1
Após ler o Dom Quixote,
planejei transformar meu ego gigante
num moinho de ilusões.
2
Entre as nossas tristes figuras
nunca houve conflito de gerações.
3
Rocinante, dormindo em pé,
sonhou que era um cavaleiro
ajuizado, de preclara fé.
4
Se a minha vida é quixotesca,
cabe, entretanto, num opúsculo:
aventuras de bolso.
5
Pelo menos a minha dulcíssima
Dulcinéia del Toboso é real.
Sério. Palavra de cavaLHeiro.
6
Conheci um Sancho:
era um fotógrafo lambe-lambe.
Mal sabia de seu homônimo
literário.
Era magro, não tinha pança,
mas engordava de esperança.
7
Ao ter testada a minha fé,
eu pensaria:
- Não saia da jaula leãozinho,
Quietinho, não saia!
E fecharia os olhos do meu temor.
Daumier - Dom Quixote e Sancho Pança
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sábado, 24 de abril de 2010
3,5 Poemas
ANTIFOTOGENIA
Saio mal em fotografias:
Não sobressaio aos cenários.
Aquela cara de indivíduo
Sem valia,
demissionário.
Congelado antes do disparo,
Mal sorrio, não digo ”x!”
Nem percebo o tal passarinho
E, sem preparo...
Eis o infeliz!
É a custo que desfaço a pose,
Por tentar me reencontrar:
O flash que turva meus olhos
Sequer chega a me iluminar.
NATUREZA-MORTA
Negro, incerto
Um cachimbo
Sobre a estante.
Quase perto
Desse anfíbio
Petulante,
Um binóculo,
Outro módulo
De visão.
O cachimbo
Só conspira,
Não expira
Mais fumaça.
Já o binóculo,
Cientista,
Vê (revista)
O que passa:
- Precaução!
REMINISCÊNCIAS
Unicamente na infância sonhamos
Porque enxergamos no escuro.
Quando adultos, alugamos
Os sonhos verbais dos poetas
Que, embora cegos, ainda recordam.
DISCURSO SEM MÉTODO
A memória é uma Penélope sem método:
Faz, desfaz e refaz por nada esperar.
Marcantonio, Carpe Diem - Téc. Mista s/ Tela - 2005
Para ver imagens de outros trabalhos meus:
http://cadernosdearte.wordpress.com/galeria/
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terça-feira, 20 de abril de 2010
Sem Remédio
Ah, pudesse qualquer poema
aliviar esta apreensão.
Acalmar-me a mente
que febricita
e, aflita,
inventa sombras na escuridão.
Pudesse, pudesse um só poema,
feito remédio,
placebo ou poção,
anular o tédio
que a tudo anula,
e já vir com bula,
posologia
e prescrição.
Monotipia s/ título - Marcantonio
aliviar esta apreensão.
Acalmar-me a mente
que febricita
e, aflita,
inventa sombras na escuridão.
Pudesse, pudesse um só poema,
feito remédio,
placebo ou poção,
anular o tédio
que a tudo anula,
e já vir com bula,
posologia
e prescrição.
Monotipia s/ título - Marcantonio
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Serei Poeta?
Ainda Kieslowski
Um pequeno vídeo com cenas e trechos de entrevistas de Kieslowski, relizado por alunos da disciplina Teoria da Comunicação(créditos no YouTube). Há uma passagem em que o diretor explica a função da cena do torrão de açúcar no filme Bleu (A Liberdade é Azul).
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segunda-feira, 19 de abril de 2010
Coincidência para Matar a Saudade
Há dias, na casa de amigos queridos, assisti ao primeiro filme do "Decálogo" de Kieslowski. Fascinante. Na noite seguinte, ao passar pelo canal Futura, reconheci imagens de alto teor poético: estava sendo exibido A Dupla Vida de Véronique. Não fiz pouco caso da coincidência e assisti uma vez mais a esse filme belíssimo. Dizer que aprecio o cinema de Kieslowski seria pouco. Seus filmes me deixam num estado de alerta estético, pois cada imagem parece ocupar o lugar de uma palavra num poema; há sutilíssimos vínculos que podem ser descobertos a cada exibição. E desconfio que poderia assisti-los com prazer partindo de qualquer cena, pois é mais uma questão de sentir do que propriamente entender, e sempre temos a sensação de sermos arrebatados por uma atmosfera integral, profunda. Poesia, metafísica, sentidos flutuantes que podem se inverter subitamente ao mapear as relações dos seres humanos entre si e com os "mistérios" de um mundo tomado por objetos nunca banais.
O filme trata da inquietante noção de duplo. Duas mulheres (interpretadas por Irène Jacob) aparentemente iguais, uma polonesa, Weronike; a outra francesa, Véronique. Ambas lidam com música e têm a estranha sensação de que jamais estão sozinhas. Acompanhamos, a princípio, a vida da polonesa que morre de um ataque do coração em plena apresentação como solista em um concerto. Neste ponto a ação muda para a França, onde a vida de Véronique parece mudar de rumo.
A trilha sonora do filme, composta por Zbigiew Preisner, inacreditavelmente bela, se torna também personagem e atinge um climax maravilhoso na cena da morte de Weronike. O compositor foi colaborador assíduo de Kieslowski.
Em uma dessas estranhas sincronicidades tão caras a ele, Kieslowski também morreu de ataque cardíaco em 1996.
Abaixo, a cena da morte de Weronike e, em seguida, o belo trecho das marionetes, espécie de intermezzo poético que mostra de maneira simbólica a morte no palco e um renascimento, além de dar início ao interesse de Véronique pelo misterioso performer e escritor.
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Olhar: Cinema
domingo, 18 de abril de 2010
Sob as Raízes dos Meus Cabelos
Ouvia as gotas frias
da torneira defeituosa
como vocativos lúcidos.
De resto, era um silêncio
em arcada flácida
sobre a sala vazia.
Eu ensaiava posturas de sombras
nas paredes que pareciam recuar
sobre trilhos fluidos.
Pensei que fosse a vertigem final
surgida assim, estúpida, simplificada,
de dentro de mim.
Mas não era. E permaneci
no centro eqüidistante
aos meus quatro cantos.
Então, meus pés dançavam,
em espasmos sobre o chão já oblíquo,
alheios ao meu tronco rígido.
Quis expulsar o silêncio,
já enraizado na minha laringe
com um grito, um uivo, um vômito seco!
Em vão.
Devo permanecer sob as raízes dos meus cabelos.
Devo esquecer os meus sapatos cosmopolitas.
Colar o selos no íntimo dos envelopes.
Devo edulcorar os meus símbolos irascíveis.
E polir a prataria da memória com os forros dos meus bolsos.
Nasce o dia agora
(ou nunca, ao menos o esperado)
e ainda me vejo aqui
conforme a luz fraca da manhã
revela as ninharias
do meu degredo farsesco.
Meus olhos, ainda límpidos,
descarnam de vez o sono.
Monotipia s/ título - Marcantonio
da torneira defeituosa
como vocativos lúcidos.
De resto, era um silêncio
em arcada flácida
sobre a sala vazia.
Eu ensaiava posturas de sombras
nas paredes que pareciam recuar
sobre trilhos fluidos.
Pensei que fosse a vertigem final
surgida assim, estúpida, simplificada,
de dentro de mim.
Mas não era. E permaneci
no centro eqüidistante
aos meus quatro cantos.
Então, meus pés dançavam,
em espasmos sobre o chão já oblíquo,
alheios ao meu tronco rígido.
Quis expulsar o silêncio,
já enraizado na minha laringe
com um grito, um uivo, um vômito seco!
Em vão.
Devo permanecer sob as raízes dos meus cabelos.
Devo esquecer os meus sapatos cosmopolitas.
Colar o selos no íntimo dos envelopes.
Devo edulcorar os meus símbolos irascíveis.
E polir a prataria da memória com os forros dos meus bolsos.
Nasce o dia agora
(ou nunca, ao menos o esperado)
e ainda me vejo aqui
conforme a luz fraca da manhã
revela as ninharias
do meu degredo farsesco.
Meus olhos, ainda límpidos,
descarnam de vez o sono.
Monotipia s/ título - Marcantonio
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Serei Poeta?
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Viver em Prosa
Talvez eu conceba a minha vida como uma narrativa, dessas carregadas de detalhes irrelevantes e descrições obsessivas e desnecessárias. De tal modo me impaciento com a passagem natural dos dias e suas incontornáveis 24 horas, que gostaria de poder suprimir os circunlóquios, as tramas secundárias costuradas pelos minutos e os intermináveis diálogos dos personagens coadjuvantes.
É insuportável viver assim, almejando pular capítulos. Pudesse dar aos meus dias as feições circunstanciais dos poemas, autônomos, bastantes a si mesmos! Abandonar a lógica conectiva da prosa que pressupõe culminâncias e desfechos! Mas é impossível. Os dias são tão solidários em causalidades e consequências...
Talvez a alternativa seja tentar a prosa-poética.
É insuportável viver assim, almejando pular capítulos. Pudesse dar aos meus dias as feições circunstanciais dos poemas, autônomos, bastantes a si mesmos! Abandonar a lógica conectiva da prosa que pressupõe culminâncias e desfechos! Mas é impossível. Os dias são tão solidários em causalidades e consequências...
Talvez a alternativa seja tentar a prosa-poética.
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Tentativas Crônicas
sábado, 10 de abril de 2010
Pássaro, passa, passará...
Eu não deveria ter de buscar o sentido das coisas. Ele deveria me ser dado tão franca e naturalmente como o ar que me adentra pelas narinas e preenche os meus pulmões, se incorporando ao que quer que eu seja.
Mas sou tolo o bastante para, se algo cheira mal, querer saber do que se trata.
Não me bastaria apenas ver esse pássaro súbito e anônimo que atravessa o quadro da minha janela sem ter de nomeá-lo? Mas, porque suponho que ele retornará, que possua semelhantes, que tenha genealogia e que siga um intuito, eu o nomeio como ser e não como evento: pássaro em vez de passou ou passará. Assim suponho que o retenho, pássaro que fica, pássaro substantivo.
Não traímos a coisa quando fazemos o intercâmbio entre seu estado e seu suposto ser?
Sim, as coisas são levadas sobre a correnteza densa de um rio para longe-longe, onde cremos que elas ainda serão exatamente as mesmas. Mas o que importa realmente não é que, em sua fuga, as coisas estejam passando diante de nós agora? Este momento nos pertence preso a nós, ou cada coisa traz e leva consigo o momento?
Eu me pergunto se a poesia se nutre desse suposto mistério por detrás das coisas ou de sua original obviedade que há muito decidimos ignorar...
Monotipia s/ Título - Marcantonio
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segunda-feira, 5 de abril de 2010
Quatro Poemas
1- SE É OUTONO
Lâmina vegetal,
Vibrátil,
Viva folha.
Despenca
Solitária
Sendo, já,
Outra coisa.
2- INVENTÁRIO
São numerosas as palavras ilhadas
Por mares mortos.
E infindas as palavras dúbias,
Frágeis insetos coletados
Por entomólogos cuidadosos.
Quantas palavras são solventes
Para lavar conceitos adiposos!
Inúmeras palavras-peixes:
Solidárias ao trajeto do cardume.
Ai, ai! Muitas palavras soterradas
Vivas
Sob a pirâmide dos costumes.
3- A MESMA LUZ
Esse mar é o mesmo
Em toda parte,
Afora o seu verde
Instável e pálido.
Esse sol é o mesmo
Que noutra parte
Decompõe a noite,
Tirante o maior ardor
Do seu louro pálio.
E quando esse sol
Absoluto verte
Sua nata prateada
Sobre esse mar
Que a inflecte,
Tal beleza maior não é
Do que a da espiral de luz
Dentro da xícara de café.
4-
Sobre o papel,
Breve feição,
Qualquer traço
É sempre o epitáfio
De uma intenção.
Monotipia s/ Título - Marcantonio
Lâmina vegetal,
Vibrátil,
Viva folha.
Despenca
Solitária
Sendo, já,
Outra coisa.
2- INVENTÁRIO
São numerosas as palavras ilhadas
Por mares mortos.
E infindas as palavras dúbias,
Frágeis insetos coletados
Por entomólogos cuidadosos.
Quantas palavras são solventes
Para lavar conceitos adiposos!
Inúmeras palavras-peixes:
Solidárias ao trajeto do cardume.
Ai, ai! Muitas palavras soterradas
Vivas
Sob a pirâmide dos costumes.
3- A MESMA LUZ
Esse mar é o mesmo
Em toda parte,
Afora o seu verde
Instável e pálido.
Esse sol é o mesmo
Que noutra parte
Decompõe a noite,
Tirante o maior ardor
Do seu louro pálio.
E quando esse sol
Absoluto verte
Sua nata prateada
Sobre esse mar
Que a inflecte,
Tal beleza maior não é
Do que a da espiral de luz
Dentro da xícara de café.
4-
Sobre o papel,
Breve feição,
Qualquer traço
É sempre o epitáfio
De uma intenção.
Monotipia s/ Título - Marcantonio
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