Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Quatro Poemas de Meados de Fevereiro

ASFIXIAR-SE

[Publicado também em OGATODAODETE]

Estou exausto.
Corri para selar
todas as entradas do poema
antes que o mundo a ele retornasse.

Preguei madeiras em todas as portas,
janelas.
Vedei com cera cada fresta.
E os ralos. Sim! Sobretudo os ralos!

Não sei quanto ar ainda me resta.


EDÊNICO

Cidade pequena,
Pequena cidade,
Os olhares
Das tuas janelas
Querem me desnudar.
Mas por que me devo
Envergonhar
Com essa falta de siso
Se sempre quis voltar
Nu ao paraíso?


VANTAGEM

Vontade de me ver virando uma esquina
E me dar uns quinze minutos de dianteira,
Para que, ainda que eu vá no meu encalço,
Já não me encontre mais pela vida inteira.


BERCEUSE

Em pé na orla. Olhos fechados.
O horizonte me sopra a face.
O horizonte me chega às narinas.
O horizonte murmura aos ouvidos.
O horizonte envolve os meus pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia fui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés
e
a areia flui fina sob os meus dedos
e
outra onda me toca os pés


13 comentários:

  1. de marés se asfixia aos olhos da pequena cidade. o que fazer de mim se não me pego?
    não importa, fevereiro me traz a poesia a quatro!
    abraço, poeta!

    ResponderExcluir
  2. pérola, esse desaparecimento ao mar é tão belo ver como a tua poesia além de sonora é toda visual! Esse desaparecimento é sempre um existir em outro canto, em outra dimensão penso. Espetacular a tríade dos vais e vens da vida.

    Beijo grande.

    ResponderExcluir
  3. Uma linha tênue une os poemas e conduz o leitor nesse caminho edênico.

    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Ah, poemas que fluem como areias na dunas.

    Gostei, Marco!

    Beijinho.

    ResponderExcluir
  5. As imagens dos poemas. As ideias loucas. O lirismo. A forma e o conteúdo. Tudo perfeito, meu poeta, tudo perfeito.

    ResponderExcluir
  6. a sombra dentro d'água
    não se molha
    ...

    (teus poemas
    são sagrados)

    forte abraço,
    irmão.

    ResponderExcluir
  7. quinze minutos, às vezes mais.

    abraços.

    ResponderExcluir
  8. E ainda assim ele foi entrando sorrateiramente, letras, palavras, frases...,
    calor, suor, sede, todos os sentidos, o ar, o ar, o mar e a brisa, passo a passo as janelas de todos os sentidos escancararam-se para receber os quatros poemas que são UM, UNO, InTeIrOs como os grãos de areia no infinito do
    poeta. Lindíssimo!!

    beijo

    ResponderExcluir
  9. Ah, após a última linha, o último verso do Berceuse, continuo sentindo a areia e a onda, infinitamente....mas viajei mesmo nisso aqui:

    "Vontade de me ver virando uma esquina
    E me dar uns quinze minutos de dianteira,
    Para que, ainda que eu vá no meu encalço,
    Já não me encontre mais pela vida inteira"... Nossa, adorei!
    Beijos,

    ResponderExcluir
  10. esse lento fade-out em Berceuse atiçou-me a areia nos olhos, derramo lágrimas por esse asfalto que não me deixa desencontrar, nessa cidade cheia de ventos que quero asfixiar,


    abração

    ResponderExcluir
  11. Poetíssimo!

    Com quatro poemas conseguiste me asfixiar. Sempre tive vontade de ter a "vantagem" do poema.
    BERCEUSE - Lindo, triste, belo, louco.

    Bravíssimo!

    Mirze

    ResponderExcluir
  12. marco,

    vou começar pelo lirismo plástico do desenho de infinito sugerido no BERCEUSE. fabuloso! a vertigem de se perder/entregar/ir. torna-se já um dos meus prediletos (já tenho uma lista, imagina se não teria...)

    EDÊNICO

    é sutil, delicado, brisa na cortina...

    VANTAGEM

    é meu sonho de consumo!
    a materialização lírica do abandono do "eu". fantástico.


    ASFIXIAR-SE

    mostra a angustiante luta para não perder-se o poema.... deu para partilhar a augustia.

    por aqui, os versos continuam nos sublimando.

    belas composições, poeta!


    PS: ah! claro e a bela apresentação em paisagem fixa de madredeus. esplêndido!

    ResponderExcluir
  13. CLAP! CLAP! CLAP! CLAP!CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP! CLAP!...(Infelizmente não conto aqui com o recurso de tonalidades, para repetir com ênfase crescente os aplausos.)

    Quatro tiros, um pra cada lado, e todos no alvo. Você se supera, Marcantonio. Acho que esta é a melhor postagem sua que já li.

    Abraço

    ResponderExcluir