Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?
Neste poema instauro
Um despotismo cosmológico:
Com férreo domínio sobre o sol,
Eu o condeno a brilhar para sempre
Nesta página,
Feito áurea roldana
Que aqui içou o esplendor da iluminura,
E em seguida travou-se como mecanismo.
Assim condeno a noite ao ostracismo
Para além da literatura,
Com boca, olhos e ouvidos selados,
Ato poético de ordinária censura.
À NOITINHA
Já ouço os soluços vindos
Do berço da noite.
Ela começa a chorar.
Teria fome de pesadelos?
Todos juntos poderíamos levar aos seus lábios
Um enorme duto
Pelo qual ela sugararia o oceano
Dos nossos medos.
Talvez ela tenha dores no ventre
Inflado de gases nebulosos e astronômicos
Ou farto da loucura, do mal e da morte
Ainda por digerir.
Teria se mirado no espelho côncavo,
Suspenso móbile,
E descoberto ter ela mesma medo de si?
Choro insuportável. Como aguentamos?
Onde estará a mãe da noite?
Dizem que ela tem apenas um pai
Ausente e operoso
Em trabalho eterno no vão entre a luz e a escuridão.
Pobre noite.
Vamos aceitar o encargo de sermos suas babás?
Balancemos seu berço,
Cada qual toque a parte dele
Que lhe chega à janela,
E afinados sussurremos um acalanto:
A insônia pode ser
Um salto mental
Em busca de sol.
MISSIVA
Juntei quinhentas palavras,
Granítico vocabulário
Para erguer rígida muralha
Entre nós.
Fracasso de engenharia,
Este discurso de alvenaria
Não resiste ao sopro quente
Da tua voz.
PARA AMANHÃ
Preciso mudar o tom
E o suporte:
Não será no chão da ágora,
Com algum cinza neutro.
Dispensarei a parede sombria
Do cárcere onde grafitar-me
Sombrio redundante,
Sombra sobre sombra
Simula o transparente.
Será mudança meteorológica:
Um céu tão claro
Sobre um vinco apagando-se
Que ninguém diria horizonte-
Oriente-orientar,
E mar!
Com as palavras o sobrevoando,
Livres de sentido,
Ensinando às gaivotas, enfim,
O não-
Mergulhar.
QUANDO REPRESENTA A AÇÃO
Algumas palavras mudam de grau
Sem que nada se lhes acrescente.
Por exemplo:
Não é falada,
Mas escrita,
Que a palavra escrever
Exulta e se realiza.
Haverá outras?
Talvez a palavra pintar
Anotada com pincel e tinta.
Haverá outras?
Talvez a palavra sangrar
Realizada por um Pollock
Num dripping
Com um filete de sangue.
Haverá outras?
Não sei, não vou pensar.
Mas uma exceção extrema
Me vem à consciência, Uma que plena apenas se realiza Quando não falada nem escrita: A palavra ausência.
CORRIDA*
A temporalidade
É a minha Atalanta,
E sou seu Hipômenes.
Preciso superá-la na corrida
Porque a quero desposar.
Ela é tão mais veloz...
Jogo-lhe uns pomos de ouro
À frente!
Mas, contra o mito de outrora,
Ela não os nota,
Passa rente sem lhes dar bola...
Guido Reni, Atalanta e Hipômenes, óleo sobre tela, 1616.
* Sobre a história de Atalanta e Hipômenes, ver aqui
Não tem este ecrã
a variação luminosa
de uma página de papel:
Aqui fixou-se a manhã,
de forma que a palavra
não se esforça
para não entardecer.
Ademais, e a maciez
da pele que registra
o arrependimento?
Aqui não há.
Meu rascunho
já tem cunho de arte final.
Não transparece
a tatuagem involuntária
da palavra removida,
como no papel que acumula
novas fibras.
EM REDE
Já havia tanto o que pensar
sobre o mundo objetivo
e suas normas e leis sociais.
E agora essa dúvida a mais:
darei crédito a tantos éditos
pessoais?
VALOR
Eu queria ter guardado
aquela hora-horizonte
que foi valiosa e nobre...
Porém, o dia já se vai
e não deixou o segredo
do cofre
de ontem.
EU-OUTRO
Como é difícil simular a alteridade
quando o pensamento ensaia uma ação
contrária, que para efetivar-se
requer prévia ocultação:
não consigo jogar xadrez comigo mesmo
pois para a estratégia que prevejo
já há uma adversária antecipação.
Fosse partida de pôquer
jogaríamos eu e o eu-outro
totalmente a descoberto,
e eu não poderia ser no blefe
mais que eu mesmo esperto.
Mas em se tratando apenas de pensar,
ter comigo mesmo livre conversação,
não ao pé, mas entre os ouvidos,
surgem debatedores desconhecidos,
(sem querer interromper, e já interrompendo)
e monta-se o seminário da alter-multidão.
RECONHECIMENTO
Pensando bem,
o que posso acrescentar ao todo?
Um suplemento elementar,
um apêndice-engodo.
PARTITURA
Onde a pauta, maestro?
Em que claves por as vozes
que de ouvido mal orquestro?
INSANO OFÍCIO
Talvez não me custe imaginar
o que foi a Inquisição:
tenho um tribunal na mente
e lenha já acumulada
na praça do meu coração.
TRAGICOMÉDIA
Quer saber de uma coisa?
Não creio na existência
de um pássaro dionisíaco
que jamais pousa.
CINZA
Dia chuvoso.
Diria o poeta:
céu plúmbeo.
Parece uma síntese
de nuvens antitéticas:
plumas de chumbo.
ÍRIS
Tens olhos
de fundo de xícara.
Vitrificada faiança
com sobra
de doce chá.
Marcantonio, óleo sobre tela, 2003. (Clique para ampliar)
Não tenho continuidade
presumida
para fazer-me autoridade
em qualquer altura
da vida.
2- AMULETO
Afinal, para quê?
Eis a questão!
É por mim
ou por você?
3- ANTÍTESE
Humor
tal
e tanto
que é feito
dor.
4- CONTA COMIGO
Vou ficar aqui lendo
o livro das faces
o dia inteiro
para ver se me dou
na última página
com o meu paradeiro.
5- VIDA VERBAL
Posso improvisar
ao vivo
um vício
em que não estou
pensando
agora.
6-
Diga-me, ó Caos
tu és tudo mesmo?
Essa bagunça?!
Então como pus ordem
nesta pergunta?
7- E LA NAVE VA (Outra Vez)
Mas,
para quê
essa nau
que atravesse
o mar banal,
se há um cabo
das tormentas
no meu quintal?
8-
É muito que quero
a poética viagem.
Só me desanima
levar-me na bagagem.
9-
Sou um lenço descartável
onde Cronos, constipado,
Assoou o nariz.
10- LAOCOONTE NÃO CONTAVA
A serpente deve ser
bicho divino,
criado para ensinar
o bote ao destino.
11-
Nem sempre o capital
promove a desigualdade.
Às vezes consolida
o encontro das diversidades.
Reúne, por exemplo,
ao circo dos contentes
o coro dos contestadores,
contratando-lhes a atração
da rebelião aparente.
Fosse ambicioso eu investiria
no mercado da rebeldia.
Mas é outra a minha especulação.
12-
Então!
Que contrariedade!
Que contradição!
Defendo a irracionalidade
com argumentos
cheios de razão!
14-
Eu poderia fazer tanta arte!
Por que não quero poder?
15-
Res - pirar:
viver é coisa
muito louca.
16-
Aos que querem me editar:
lamento!
O meu papel é fragmento.
17-
Que estranha contradição:
Eu falando contra o vau
do rio
em que faço folgada navegação.
18- ÓTICA
Há horas em que diferenciar
um anjo de um demônio
é como distinguir
o super-homem do Clark Kent:
uma mera questão de lentes.
19-
Como aniquilar
o ressurgimento
desse precipício?
Vejo renascer sempre,
do cinzeiro nojento,
a fênix do vício.
20-
Não é falta de empatia
supor para o mundo
um tamanho extremo.
Mania de grandeza
é abraçá-lo pequeno.
21-
Reencarnar deveria ser
dar-se conta subitamente
de que era outra
esta mesma vida
não vivida intensamente.
22- VERSOS REBAIXADOS
Para ressaltar
a oculta alegria,
faça uma tonal grafia
com contraste.
23-
Meus amigos, de vós fujo,
Mudo me afasto,
caramujo,
mas lentamente,
e deixo um rastro
de afeto transparente.
24- CÔMICO
Todo palhaço no fundo
é triste
porque sabe da tragédia
da representação:
não pode fazer graça
com o que infelizmente
não existe.
O grotesco não é pura
imaginação.
25- JARDIM ETIMOLÓGICO
No jardim zoológico
o hipopótamo não tem
propriamente um rio.
Mas também não o tem
a própria palavra "rio".
26- ESFINGINDO
Adio a decifração
do mistério que há
no sorriso do sol
e na lágrima lunar.
27- RATIFICAÇÃO
A errata é desnecessária,
não houve erro gráfico,
quis mesmo dizer fugir
e não "fulgir".
Eu não roubei fogo algum:
Só a estrelas fugiriam fulgindo.
28- INCOMPATIBILIDADE
Tenho alma de almanaque
e tu és contra gotas
de elixir da verdade.
Caravaggio, O Sacrifício de Isaac, óleo s/ tela - 1603
Abraão, nos nervos da tua mão
Tão humanamente tensionados,
Todo um pasmo
Diante do absurdo do sagrado.
Agora sabes da estupidez
De todo sacrifício?
A tua verdade testada é insana,
Um anjo te toca e te chama
À realidade veraz;
Acorda para o pesadelo,
Isaac não vale mais
Do que esse pobre cordeiro.
Tu foste o primeiro a percebê-lo:
Humanos, não somos divinos,
Mas meros animais.
Rembrandt, A Lição de Anatomia do Dr. Tulp, óleo s/ tela - 1620
Dr. Tulp, o artista não te fez um logro?
Pôs o teu olhar suspenso num limbo
Entre a ciência e o ogro da morte,
Nenhum anatomista pode se perguntar
Sobe os desígnios da sorte.
O que pinças, tendão ou nervo,
Começa no morto,
Mas termina em ti mesmo.
Parece que aguardam de mim
Uma fala inusitada,
Recitativo oficial
Que reunisse ao familiar uma revelação
Contente,
Como se eu fosse um pássaro
Dentro do ovo transparente do dia,
E lhe rompesse a casca como um raio de luz
Ainda mais luminoso do que o ambiente.
Às vezes um estranho me pára na rua
E põe-se a fazer um gesto de maestro
Penteando o ar para determinar a cadência
Sobre a qual iniciarei a música:
- O que temos para hoje? Vamos homem!
Comece a cantar!
Não, meu senhor, tenho dentro de mim uma canção
Tão triste...
E é para a tua alegria que não sou profeta
E não a poço tornar audível.
Tu não me serias solidário, ninguém seria.
Mas deixa-me chegar à praça,
Sentar-me num banco solitário
A aguardar que algum deus zombeteiro
Espane do alto um dicionário universal.
E será lindo,
Essa chuva particular só sobre mim caindo,
As palavras como cinzas vulcânicas,
Ocultando-me sob camadas,
Transtornada a ordem alfabética.
Quando ouvires se espalhar a notícia desse rito,
Desse ofício,
Corre à praça para ver
O meu sepultamento público no silêncio,
Sob o enorme monturo
De todas as palavras existentes.
Enquanto descasco
Abobrinhas italianas -
Zucchini! –
Reflito sobre Dante:
Serão duas poéticas
Conflitantes?
Não sei, mas me concentro
Na primeira
Antes que estrague o almoço
E tenha de ir a um restaurante.
Apêndice:
Este poema poderia
Ter outras versões condignas:
Fosse o poeta outra pessoa,
Seria o prato à moda do Porto;
Ou fosse um poeta gauche
E um acepipe mineiro;
Um arroz de carreteiro
Conviria para duelar
Com um poeta gaúcho;
Um oponente de luxo
Para Mallarmé?!
Fricassé!
Para Augusto dos Anjos
Poeta soturno de um Eu sozinho,
Poderia convir carne-de-sol
E arrumadinho?
Que pensar do russo Maiakovski?
Seria blasfemo opô-lo a strogonoff?
E Bashô? Arroz havia de consumir?
Haicaístas modernos é que apreciam
A extensão de uma bandeja de sushi;
Com João Cabral não se daria
Unívoca cozinha:
Seria uma paella
Ou algo oriundo da casa de farinha?
Pedra não há de ser,
Que, embora poética,
É dura de roer.
E com que prato devanearia
Junto a Charles Bukowski?
Uma sobremesa? Pudim de whisky?
Maior dilema estaria por vir:
O que pôr à mesa
Pensando em Blake ou Shakespeare?
A minha ignorância da cozinha inglesa...
Mas hei de parar por aqui
Embora muitos os poetas e os pratos,
Um Lorca, Poe, Baudelaire, Valéry...
Convém fechar o cardápio
Antes que me venha a dúvida
Sobre que poeta associar
Ao preparo do carpaccio...
Haveria algum perigo,
Vá que seja um poeta ainda vivo!
POR FALAR EM COZINHA
Falam tanto de poemas
E gavetas!
Os meus guardo-os no forno.
Editá-los seria levá-los à mesa?
Confesso-te que falar das nuvens
Reais
É só o pretexto de aludir àquelas
Virtuais
Que passam pelos teus olhos.
Ah, o tempo muda!
E esses cúmulos nimbos me comovem,
Teu céu se fecha e tuas dores humanas
Chovem.
Mas também falar da tua chuva súbita
É outro artifício:
Quero dizer da possível fecundidade
Que se seguirá à pluviosidade
Do teu sacrifício.
Ah, cessa a precipitação e teu olhos
Ficam claros:
Os córregos sinuosos reverdecem
Um solo cansado e deste surge broto
Raro.
É evidente que este broto será flor
Persuasiva,
Surgida na intenção de engendrar
Metáfora viva.
Ah, essa flor fenecerá
Como todas as rosas surpreendentes
Da vida.
Mas são também dádivas estranhas
De que é possível se impregnar.
Não tomes esta flor metafórica
Por decorativa,
Urge despetalá-la, esmagá-la nas palmas
Abrasivas,
Pois não era da flor que eu quisera falar,
Mas do odor que ela deixa nas tuas mãos
Queridas.
LOGRO
Atraiçoou-me
A inspiração
Na qual mergulhara
Insone.
De volta à tona
Do dia,
Verídica não era
A rútila pérola:
Outro poema areado,
Mera pedra-pomes.
REVER DEVIR
O olhar trás.
O olhar leva.
O olhar vivo
Subleva
Em mim,
O ponto-de-vista
Triste do artista:
É tão breve o eco das antífonas em meus ouvidos.
Não têm o rumor de mil garças alçando vôo
Após a salva de tiros de timbales,
Mas o chiado ardido
De uma rocha ígnea afogando-se num lago.
Não invejo os que ouvem o coro dos anjos
Porque beatificam a dúvida
E não sabem se o retiram de si mesmos
Como quem vê vazar o sangue dos próprios
Pulsos
E o estranha como a um desconhecido.
Meu coro angelical é essa salmodia de pássaros
Urbanos
Saudando a dessacralização da tarde
Sem que eu possa vê-los como arautos exilados
Ou como escravos bardos de uma elegia,
Tão natural é sua lida com a luz real do dia,
Aquela que lenta se transmuda, térmico relógio.
Não sei se retiro de mim, víscera que não estranho,
Essa concretude profana da tarde, banal tarde;
Mas dentro dela, verdadeiro, fico muito à vontade.
LARGO
É tão serenamente que Proserpina
Sobe à superfície da terra,
Tão logicamente,
Tão maquinalmente,
Tão inexoravelmente!
Nada da humana ansiedade
De evadir-se da escuridão.
Como são impacientes as lâmpadas
Que querem cegar os olhos da noite.
De outro modo,
Uso óculos escuros ao dia
Para me afeiçoar ao meu destino.
Os dedos trêmulos não conseguem pinçar a pluma,
Mordiscam o vazio, estrangulam a cápsula translúcida
Sem constância.
Nem os olhos conseguem acompanhar os espasmos fugidios
Da ciliada fração de asa, tão branca ocorrência de ignorância
Taxionômica.
Ó pluma randômica, em que esquina de vôo poderias escapar
Da idéia de pássaro que te aprisiona?
2 - Osso
Em vão os dedos intentam escapes diagonais:
Não haverá força centrífuga
Que sagre as falanges distais
Em pterodátilas.
A qualquer quiromancia verruma a artrose
E o vento arrefece nas vias descencionais.
É para o chão que o osso ruma
A despeito da aérea gnose:
Calcifica-se a pluma.
3 - Pouso
O pensamento plumiforme
Não poderá tornar às asas
Do livrepássaro:
Perde impulso,
Pousa palavra,
Falta-lhe espaço.
RECEPÇÃO
Ouvidos insetívoros
Captam zumbidos:
Com astúcias de flores vistosas
E um néctar ressentido
Atraem artrópodes melíferos
E os asfixiam no silêncio.
Eu nunca havia escutado a leitura de um poema meu. Mas a experiência aconteceu-me agora: tive o poema Solidão lido no blog Me and You por Beth/Lilás. Devo dizer que é uma sensação curiosíssima - tão acostumado que sou à leitura silenciosa, à abordagem visual - me pareceu que o poema se tornara autônomo, livre, e o percebi de uma forma diferente, mais intensa. Realmente curioso isso.
A leitura de Beth é muito boa, sensível, mas límpida, sem excessos interpretativos. E o projeto dela é bastante interessante: propõe a leitura de poemas não apenas de poetas consagrados, mas daqueles que atuam na blogosfera; e ela almeja um espaço integrativo em torno da poesia.
O que não se cansa?
Acaso a flor sente fadiga
De anunciar o advento
De uma cor que é dividida?
Fica exausto o córrego
De atritar suas vértebras
Contra as pedras?
E o mar? Sonha se opor ao vento
E fazer-se inerte dentro do abismo?
E esse ciclo das águas não quer cessar?
Não cansam as águas da metamorfose
Que as exila no céu?
E ali tornadas nuvens
Não enjoam de passar por anjos que quedam?
2
Aquela árvore parece um pêndulo de ponta-cabeça.
Um berço inarredável que balança.
Um rito obsessivo de acalanto mínimo,
Berceuse quase sem esperança.
As raízes tolas tremem temendo o vôo suicida,
Mas o tronco sabe que permanecerá de pé
Sob as veleidades da copa: por que cria ela
Vértices ilusórios em seus galhos?
Não cansa de implorar?
3
Ainda há o lago estável e desesperado,
Anti-Tântalo afogado que sonha com a secura
De não ter que sustentar o reflexo do cenário.
4
O edifício se envergonha de seu destino
De ponte inacabada, de pilar fracassado?
Céu o seu capitel...
5
As ruas não se cansam de suas visões interrompidas?
De não ver o destino que vira a esquina?
6
Portões se abrem e se fecham.
Não estão exaustos de serem páginas nunca viradas?
7
O jogo. A mesa de bilhar.
As esferas sonham naufragar nas caçapas.
A bola vencedora se regozija da sua solidão?
Não se cansa?
Não canto para encantar as frontes
Nem para abafar o incêndio das pálpebras,
Ou para fazer nevar entre os lábios,
Ou para amortecer o tremor dos queixos.
Canto porque não sei eu mesmo
Chorar ou rir sem cantar,
Como uma engrenagem que range,
Como uma planta que se volta para o sol
Sem intenção de se iluminar.
E eu cantaria sozinho ou louco
Não fosse o canto ele próprio
Um ninho para o humano outro.
ARREBATAMENTO
(Para Assis Freitas)
Esperemos: o poema não demora.
Surge dum crepúsculo ao contrário,
Encerra-se suspenso, uma aurora.
ABANDONO
A rainha capturada,
O rei espera acuado,
Defendido pela torre
E espaçados peões.
Já se foram os bispos
Com suas mitras
E supostos condões.
E no descampado,
Derreado, submetido,
O último dos cavalos,
Pelo qual o monarca
Não poderia trocar
Reino algum,
Pois apenas lhe restou
Um quadrado exíguo.
Cai uma neve cinza
Há semanas no fixo
E quadriculado
Teatro de guerra:
E o jogo abandonado
Antes do lance final
Parece ter tornado
A partida
Uma derrota eterna.
Tudo o que faço é um símbolo da minha própria esperança, tal como a garrafa lançada ao mar com uma mensagem é para o náufrago. Mas posso andar na praia apenas ouvindo o discurso definitivo das ondas…
Artista plástico.
Supõe-se poeta, ainda que menor e sem livro editado. Um curioso desambientado, blasé, interessado em filosofia e em todas as formas de arte. Um pessimista esperançoso.