Como ter a disponibilidade criativa e lúdica de um anônimo construtor de castelos de cartas que se submete apenas às injunções do próprio medo (sagrado medo!) de que eles desabem diante dos seus próprios olhos?

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Poemas de Final de Junho

ENTRE SÍTIOS (7)

(Para Bípede Falante)

Bípide, posto que da espécie
humana sapiens.
Mas, artrópode pela escrita
que em rede de si estende
para a captura dos sentidos
        desavisados.

Aracne desiste da disputa.
Athena se retira.
            E a teia,
             ao sol,
             brilha
   revestida de orvalho.



SETE HAIKAIS (NA PAISAGEM)

a

Árvores urbanas.
O sol sobre espesso muro.
Pássaro banal.

b

Vento em desconcerto
dedilha fios elétricos.
As nuvens já dançam.

c

Perpendicular
a chuva de pontos frios.
Inunda-se o plano.

d

Janela vazia.
Paisagem suprematista.
Branco sobre branco.

e

Úmido papel.
Pincel amarrado à cor,
correndo liberta-se.

f

Tarde desbotada.
A pele da fruta em chamas:
interino sol.

g

O dia desmaiou.
Ócio das alavancas.
O poema acorda.



DESALENTO (check out)

Agora não me vem
A palavra final
Que passe o troco às sensações.

















Sem Título - Marcantonio - Óleo sobre tela - 1997

Mais imagens minhas em Cadernos de Arte

42 comentários:

  1. ...e vai a homenagem (me junto e faço coro) à nossa Bípede, que me ensina o devaneio das palavras sempre! Salve, salve Helena!!!

    Mas, Marquinho, sempre faço minha "eleição", que não é minha de fato, porque os versos me escolhem primeiro. Ei-los:

    "Tarde desbotada.
    A pele da fruta em chamas:
    interino sol."

    Lindo, lindo, lindo, poeta que eu gosto tanto!
    Abraços,
    Tânia

    ResponderExcluir
  2. Tânia, nesses Entre Sítios eu não poderia deixar de lembrar da Bípede, né?

    Quanto à sua "eleição", geralmente a sua escolha, o seu "voto" coincide com o meu. Rs.

    Obrigado, querida.

    Abraços.

    ResponderExcluir
  3. Marcantonio, estou tão envaidecida que hei de acabar fazendo alguma bipedice :)
    Se o meu tecido tem tramas é porque, na minha cabeça, habitam marcas feitas por poetas, por muitos, muitos antonios, e um único Marcantonio.
    Super hiper tri bípede obrigada.
    Vou levar a homenagem para a coluna lateral e permanente do meu bloguinho, tá?
    Beijo :)

    ResponderExcluir
  4. Tania, obrigada :)
    Vocês dois têm sido fonte de muita inspiração e fé na espécie humana.

    ResponderExcluir
  5. P.S. Esqueci de comentar o quadro, mas também acarinhou-me muito, como uma pena passeando pela pele :)

    ResponderExcluir
  6. Não há troco para a poesia que vc nos apresenta, porque ela já começa impagável.

    Lindos demais os haikais, nossa =).

    Abraço.

    ResponderExcluir
  7. Bípede, o que pretendo sinceramente é homenagear leituras e frisar admirações. O seu não é um bloguinho. Há ali facetas muito humanas, escrita da boa, significativas perquirições e, de entremeio, insigths incríveis. Bem, somando isso tudo, o importante é que você continue com essa bipedice inspirada.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  8. Mas Lara, se não há troco, há sim retornos tão significativos e estimulantes como esse seu.

    Obrigado, querida.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  9. pobre haicai: se achata todo pra dizer tanto
    nobre poeta: construtor de haicais

    POESIA DE GOSTO!

    Abraço, POETA

    ResponderExcluir
  10. bela des-construção para a Bípede, estranhamento que também me peja, haicais em sete-sedes, a poesia não cede, "que passe o troco às sensações" me remete aos ares da terrinha e do fado,


    abração

    ResponderExcluir
  11. Ô Ribeiro, que tanto esse que você deixou aqui!

    Obrigado!

    E um grande abraço.

    ResponderExcluir
  12. Assis, passar pelo crivo da sua leitura é sempre receber algo inspirado em troca!

    Abração!

    ResponderExcluir
  13. Marcantonio:
    muito obrigada pela sua vista/comentário no meu blogue.
    Acabei por vir aqui dar uma olhadela e gostei bastante do que vi. Fui também ao site http://cadernosdearte.wordpress.com/galeria/melancolia/
    e fiquei de boca aberta com os seus trabalhos! Será que tenho a sua autorização para usar alguns deles no meu blogue? Mediante a identificação do autor, claro!
    Beijos
    LauraAlberto

    ResponderExcluir
  14. Laura, muito obrigado por suas palavras. É bom vê-la aqui. Claro que pode utilizar, será uma honra.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  15. caro amigo, esta galeria de homenagens com que nos presenteias de modo sempre tão vivo e singular tem, entre mil e uma virtudes, uma milésima segunda: contactar com blogues que, por uma qualquer razão, ainda se não cruzaram com os nossos olhos, é o caso deste "bípede falante" que vou tratar, já, de visitar!
    um agradecimento e um forte abraço!

    ResponderExcluir
  16. Olá poeta, lindos haikais e marcante poema com expressivas e belas imagens poéticas... é sempre bom "te ler". Um abraço e obrigada pelo carinho,

    Úrsula

    ResponderExcluir
  17. Marco, merecida essa homenagem a bípede, que além de falante é, ainda mais, pensante - grande Helena,conterrânea minha!(Humm...sou bairrista, já me disseram...rs)

    adorei os haikais, principalmente "o vento em desconcerto", "a janela vazia" e o "poema que acorda quando o dia desmaia".

    Gostei muito também da gravura, no início, ví um entrelace de espinhos formando uma floresta, depois, muitas janelas abertas para o sempre azul. Gostei de ambas.

    um beijo

    ResponderExcluir
  18. As nuvens já dançam
    Pássaro banal se encanta
    E dança também

    Sou pássaro banal, tímido , emudecido, que se encanta com todos os seus escritos, amigo Marcantonio. Sempre!
    Enorme abraço!

    ResponderExcluir
  19. Jorge, é verdade; já percebi algumas dessas pontes estabelecidas a partir daqui. Ainda bem. Na correria, nem sempre nos dispomos a clicar no link que está ali ao nosso lado nas páginas de comentário, não é?

    Grande abraço.

    ResponderExcluir
  20. Andrea, se você é bairrista, não aparenta. Rs. A Bípede tem suas bipedices encantadoras e, sim, pensantes.
    Tento fazer um haikai aqui, outro ali; mas esses como que caíram em fila lá do céu ou do espaço.
    Gosto muito das suas menções e "leituras" das imagens.

    Um beijo, Andrea.

    ResponderExcluir
  21. Zélia, você não é pássaro banal. Suas asas a levam, em expedições, a outros territórios do sentido.
    O seu haikai ficou encantador!

    Obrigado, querida.

    Grande abraço!

    ResponderExcluir
  22. Bravíssimo!

    Generoso és tu, nos brindando com tão ilustres cantares.

    Abraço sonoro, Marcantonio.

    ResponderExcluir
  23. Adorei seu espaço,
    estou chegando pra conhecer
    e ja disposta
    a ficar por aqui conhecendo
    mais.
    Depois da arte escrita
    as artes plasticas
    sãominha paixão.
    Amopassar tempo
    sem tempo observando
    e absorvendo.
    Vou adorar
    que passe
    no meu canto.
    Te espero.
    Bjins entre sonhos e delírios

    ResponderExcluir
  24. Úrsula, eu que agradeço a você pela presença aqui.

    Um abraço.

    ResponderExcluir
  25. Ô Cris, obrigado novamente.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  26. Eu Meus Reflexos e Afins, que bom que gostou. Obrigado. Claro que passarei para conhecer o seu espaço.

    Beijo.

    ResponderExcluir
  27. a cidade que banaliza o pássaro. imagem triste, embora tão real. como não te encontrei antes, marco? estou te linkando ok?

    ResponderExcluir
  28. Nydia, obrigado. Pois é, a gente vai se vendo por aí, nas páginas de comentários. Eu mesmo, é tanta coisa que gostaria de ler, comentar, linkar!E o tempo, às vezes, nos engana, desvia, não permite. Mas a gente vai chegando lá ao poucos.

    É bom vê-la aqui, Nydia!

    Um abraço carinhoso.

    ResponderExcluir


  29. !
    Vim, vi, li e vou...
    Caí!

    Haikai MARCantes!

    ResponderExcluir
  30. Marcantonio,
    acabo de usar um dos seus trabalhos no meu blogue, espero que goste do texto que lhe associei. Obrigada!
    Beijos,
    Laura

    ResponderExcluir
  31. Rapaz, que belos poemas.
    Amei os haikais (na paisagem).
    Que venha o final de julho, agosto, setembro... e todos os meses grávidos de tua poesia.
    O trabalho pictórico também de alto nível.
    Virei mais vezes, poeta.
    Abraço.

    ResponderExcluir
  32. É tudo tão bom, incluindo seu belíssimo "òleo sobre tela", que "agora não me vem a palavra final.

    Que passe o troco às sensações.

    bj
    Rossana

    ResponderExcluir
  33. Belíssima homenagem, tecida teia de palavras com a habilidade de um aracnídeo você também. Gosto demais da sua escolha de palavras - acho sempre tudo aqui muito inteligente!

    Adorei cada Haikai. Escrevi apenas seis em toda a minha vida, você já está na frente. =)))) É que às vezes penso que o haikai precisa de uma paciência que eu não tenho, de olhos que vêem através das coisas. Eu ainda vou construir esse momento na minha vida, espero.


    Beijo sempre sempre carinhoso. Agora estou de férias, não sumo mais. =*

    ResponderExcluir
  34. Tonho, balança, mas não cai. Rs.

    Obrigado.

    Abração!

    ResponderExcluir
  35. Laura, eu que lhe agradeço. Ficou muito bom!

    Abraço.

    ResponderExcluir
  36. Ô Paulo Jorge, obrigado duas vezes! Venha sim. É sempre um prazer lê-lo.

    Abraço.

    ResponderExcluir
  37. Rossana, obrigado. A gente vai buscando, não é?

    Beijo.

    ResponderExcluir
  38. Kenia! Que bom vê-la de novo por aqui. Até já escrevi mais haikais, Kenia, mas muitos caíram por terra tão ruins eram. Agora até consegui fazer alguns um pouquinho melhores.

    Beijo.

    ResponderExcluir